Série Mulheres em Luta pelo Bem Viver: Alzeneide Prates, assentamento Francisco Romão

Série Mulheres em Luta pelo Bem Viver: Alzeneide Prates, assentamento Francisco Romão

🌳 #SÉRIE – Mulheres em luta pelo Bem Viver – Alzeneide Prates, mais conhecida por Gabi, é mulher assentada, defensora dos direitos humanos e da natureza, estudante de Letras e uma das fundadoras da Casa das Mulheres Sementes da Terra, um coletivo que propõe políticas públicas direcionadas para mulheres no assentamento Francisco Romão, território onde reside.

✊🏿 Resistindo aos impactos da cadeia da mineração e do agronegócio, as mulheres de Francisco Romão sentem na pele, nos pulmões e na água os efeitos dos agrotóxicos e do monocultivo de soja, que têm expulsado as famílias do território. Composto em sua maioria por mulheres, elas se organizam e lutam com suas vozes e corpos por dias melhores.

🟣 Neste mês de março, trazemos algumas mulheres inspiradoras para refletir sobre a luta pelo Bem Viver e por terra, comida e moradia dignas.

“É preciso pisar o chão e ouvir a terra”

“É preciso pisar o chão e ouvir a terra”

Anacleta Pires da Silva é orientada pela terra, de onde brota sua inspiração, força e sabedoria para travar lutas pelo bem-viver coletivo, pelo acesso aos territórios ancestrais em toda sua riqueza e diversidade.

Mulher preta quilombola, liderança plantada há 58 anos no Território Santa Rosa dos Pretos, na zona rural de Itapecuru-Mirim, Maranhão, Anacleta começou, ainda adolescente, a participar das lutas de movimentos sociais que reivindicam direitos dos povos pretos, indígenas e comunidades tradicionais. 

Atuou intensamente na fundação de sindicatos, associações, entidades e movimentos. Ajudou a formular políticas públicas nacionais, estaduais e municipais de educação, saúde e acesso à terra e ao território. Foi professora primária e trabalhou na parte administrativa de prefeituras e fórum. É defensora popular de direitos humanos e ambientais, e por conta disso está, há quase três anos, inserida em programa de proteção de defensoras e defensores por conta de ameaças e perseguições.

Em 2009, aos 43 anos e mãe de quatro filhos, Anacleta foi cursar Pedagogia da Terra na Universidade Federal do Maranhão, no campus de Bacabal, a mais de quatro horas de distância de casa. “Quis animar a juventude de Santa Rosa dos Pretos a estudar”, ela diz. Iniciou a faculdade tendo a filha mais velha como sua colega de sala. Concluiu a graduação em 2017, aos 51 anos, com três dos quatro filhos se formando junto com ela.

Nas palavras que mais saem do seu coração – uma raiz que nasce na Guiné-Bissau e cruza o Atlântico até o Maranhão – estão os saberes que o chão do quilombo ensinou: o cuidado da terra, a partilha dos frutos e a cura de todo corpo, mente e coração que se afastam da natureza. “É preciso pisar o chão e ouvir a terra”, repete sempre a liderança, apontando onde nasce todo remédio, todo alívio, e todo caminho de volta pra casa.

O embate é parte da cura, e por isso, ao longo das últimas quatro décadas, Anacleta vem travando batalhas em trincheiras de diferentes chãos, seja o de órgãos públicos, o de universidades, igrejas, escolas, seja o do patriarcado e o do racismo estruturais. 

No fim dos anos 1990, ela e outras lideranças de Santa Rosa dos Pretos fizeram inúmeras viagens à sede do Incra Maranhão, em São Luís, para exigir a titulação do território. Viajavam sem ter com o que pagar o transporte e nem o que comer pelo caminho. Para beber, apenas o chá de cadeira maldoso dos operadores de órgãos públicos comprometidos com a manutenção das estruturas coloniais. “A boca não tinha mais o que amargar de tanta fome. Tinham vezes que só o que a gente comia era os maracujazinho do mato que dava na beira da estrada”, relembra Anacleta. Ouviram muitos nãos, tiveram muitas portas fechadas na cara – “eles viam a gente e fechavam na hora” -, e outras sequer se abriram.

Mas às filhas e filhos da terra socorrem outros poderes e saberes, muito mais poderosos e sábios que os do papel do branco. Guiada pelos Encantados, a filha do Tambor de Mina foi tateando aqui e ali, acessando as pessoas certas, no tempo oportuno, até que os trâmites do processo de titulação foram se apresentando. O território foi certificado pela Fundação Cultural Palmares em 2005, e hoje está na fase final de titulação, restando ao Incra – com uma demora explicada apenas pelo racismo estrutural que orienta a questão fundiária no país – a obrigação de titular, definitivamente, as terras ancestrais ocupadas há mais de três séculos pelos quilombolas de Santa Rosa dos Pretos.

Nessa trajetória, uma miríade de desafios foi brotando por todos os lados. Em 2014, a mineradora Vale, que invadiu o território com a Estrada de Ferro Carajás (EFC), processou Anacleta e alguns parentes seus porque eles e mais de 500 outros quilombolas bloquearam os trilhos para exigir que a transnacional fosse transparente no processo de duplicação da ferrovia. 

Foi também com o próprio corpo que ela e mais dois companheiros, em 2017, impediram a destruição do território por tratores enviados pelo governo federal, de maneira ilegal, para duplicar a BR 135, que também invadiu e cortou ao meio Santa Rosa dos Pretos. A obra segue embargada porque o governo violou e continua violando o direito fundamental dos quilombolas à consulta prévia, livre e informada.

No início desse ano, tendo o corpo, novamente, como única arma e proteção, Anacleta e outros moradores do território impediram a ação de grileiros que tentavam se apossar de grandes áreas do quilombo por meio da instalação ilegal de infraestrutura de energia.

Agora em março, a luta muda um pouco de figura. Não é hora de “correr mundo”, como costuma dizer Anacleta. É hora de voltar caminhando para dentro de si mesma, para dentro da casa primeira de todo ser vivente, de seu primeiro e mais elementar território: o próprio corpo. 

Precisamente hoje, 8 de março de 2024, Dia Mundial de Luta das Mulheres, Anacleta iniciará tratamento oncológico no Hospital Aldenora Bello, na capital maranhense, para curar o câncer de mama diagnosticado em fins de fevereiro.

A rede de apoio e amor que se forma em torno dessa liderança é imensa. Em poucos dias de campanha de arrecadação para custeio de transporte, hospedagem, alimentação e medicamentos, Anacleta tem recebido, além de recursos, inúmeras manifestações de carinho e gratidão por seus anos de luta e acolhimento generoso de tantas pessoas e demandas.

E não poderia ser diferente. É da sabedoria da terra trazer os seus e as suas para perto das suas raízes. 

Anacleta é raiz, e sua voz é o som que a terra produz.

* Se quiser colaborar com a campanha coletiva de apoio ao tratamento de Anacleta, contribua com qualquer valor:

Pix: 039.545.263.52 (Chave CPF)

Josiane do Espírito Santo Pires da Silva

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Texto: Justiça nos Trilhos (JnT), Instituto Pacs, Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV), Justiça Global, Comitê em Defesa dos Territórios Atingidos pela Mineração, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Solidariedade e internacionalismo alimentam a luta entre os povos no Encontro de Movimentos Sociais da Rede-Desc, em São Luís (MA)

Solidariedade e internacionalismo alimentam a luta entre os povos no Encontro de Movimentos Sociais da Rede-Desc, em São Luís (MA)

Solidariedade e internacionalismo descrevem a visita ao território quilombola Santa Rosa dos Pretos. Foto: Mikaell Carvalho

“Um povo que não perdeu sua identidade e cultura, por isso, é um povo que não se pode exterminar”. Essa fala do companheiro indígena Francisco Rocael, do Conselho do Povo Maya de Occidente (Guatemala),  traz consigo a força das organizações sociais, comunidades e povos tradicionais reunidos no encontro da Rede Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que acontece esses dias em São Luís (MA), de 29 janeiro  a 02 de fevereiro.

A solidariedade, fraternidade e a luta pelo direito de pertencimento dos povos tem sido fortalecida entre as mais de 40 pessoas reunidas nesses cinco dias. Construído pela Rede Internacional para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais  (Rede DESC) em parceria com a Justiça nos Trilhos (JnT), o encontro movimenta pescadores artesanais, quilombolas, indígenas, trabalhadoras domésticas e sindicatos de mais de sete países, junto a organizações do Brasil, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e a União das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Itapecuru Mirim (Unicquita).

O principal objetivo do encontro é a partilha das diferentes realidades de lutas de companheiros e companheiras que enfrentam o capital e poder corporativo de mineradoras transnacionais, grandes empreendimentos Brasil afora e a violência e pobreza que se desenrola com o avanço do imperialismo.

Na terça (30), foi realizada uma visita à comunidade quilombola Santa Rosa dos Pretos, localizada no município de Itapecuru Mirim (MA), que enfrenta projetos de energia, a cadeia da mineração, a duplicação da BR 135 e o avanço do agronegócio em seu território. Já na quarta (31), a JnT alimentou o debate sobre o enfrentamento aos grandes projetos com as potentes participações de Kelly Barbosa (Piquiá de Baixo), Adriana Oliveira (Novo Oriente) e Vanussa Guajajara (T.I Rio Pindaré).

Kelly chamou atenção para a luta que a comunidade de Piquiá de Baixo em Açailândia (MA) sustenta pelo direito à memória, moradia digna e pela natureza. Neste ano de 2024, 312 famílias serão reassentadas para um novo bairro chamado ‘Piquiá da Conquista’, longe da poluição direta das siderúrgicas, empresas de cimento e outras inseridas na logística da mineração. 

Piquiá de Baixo, Novo Oriente e Terra Indígena Rio Pindaré reunidos.

Além de muita força para resistir aos grandes projetos, essas três mulheres possuem os corpos marcados por violências, que infelizmente se conectam. Vanussa Guajajara lembra que seu povo gosta de comer um peixe moqueado, gosta de pescar nos rios, ouvir histórias em rodas… E aí veio a mineração e as estradas, a de ferro e a BR, vidas sendo ceifadas pelos grandes caminhões que transportam a soja e os minérios pelas BRs e também a criminalização de lideranças pela mineradora Vale S.A. 

“Começaram essas violências e em vez de estarmos comendo Jabuti assado com farinha, temos que nos articular para defender os nossos territórios e nos manter unidos”, diz Vanussa.

“Sem território, os povos não são nada”

O discurso do desenvolvimento enunciado pelos projetos do agronegócio e da mineração o fazem a partir da tomada de territórios tradicionais e da devastação dos ecossistemas. Na visita à comunidade Santa Rosa dos Pretos, que ainda passa pelo processo de titulação pelo Incra, o direito à terra foi colocado como um dos pontos principais da luta de classes no Brasil e para os povos estrangeiros que ali estavam.

“Toda essa agressão que fazem contra nós se dá de maneira muito hipócrita em nome de um falso desenvolvimento. São projetos de minério, empresas, monocultivo”, disse Francisco Rocael durante um momento de partilha de realidades na comunidade.

Daniel Santi, líder do povo indígena Sarayaku da Amazônia Equatoriana, usou a sua voz para tratar da importância da permanência no território. “Temos de ter força de unidade. É essencial trabalharmos a titulação de território na estratégia jurídica, pautar a reforma agrária. Temos que ter uma estratégia de luta e comunicação a nível do Brasil e internacional. Precisamos internacionalizar [essa Rede] para que lá fora escutem a luta de Santa Rosa dos Pretos”

Organizações e movimentos sociais reunidos no primeiro dia de atividades da Rede Desc. Foto: Yanna Duarte

Para Santi, “sem o território, os povos não são nada”.  A água, o chão, os recursos naturais, tudo isso é o território para os povos tradicionais. As florestas e os bichos também são habitantes.

Durante a roda de conversa, o quilombola e educador popular da Justiça nos Trilhos (JnT), Joércio Pires, explicou como se dá esse desenvolvimento para as comunidades violadas:

Educador popular, Joércio Pires, fala sobre as lutas dentro da comunidade.

“Quando a Estrada de Ferro Carajás (EFC) passou [por nós] ela matou muita coisa. Não teve mais o igarapé, não tivemos mais acesso ao pescado, por isso, tivemos que comprar. E nós estávamos em outro processo [de modo de vida]”, denunciou ele. 

Fortalecimento Comunitário 

A Justiça nos Trilhos surge dentro dos territórios. Ela nasce a partir de Piquiá de Baixo, na Terra Indígena Rio Pindaré, no quilombo Santa Rosa dos Pretos e outras comunidades ao longo da EFC, alimentando o fortalecimento da memória e construindo junto aos povos e comunidades as resistências que vão romper as violências. 

Para o educador popular e defensor dos direitos humanos, Alaíde Abreu, o papel do fortalecimento comunitário na organização, sendo um dos quatro eixos de atuação da instituição, é feito com os olhos e os sentidos direcionados ao outro.

Nosso trabalho acontece a partir do “sentimento de pertencimento ao território e à vida das pessoas, a sensibilidade de ver, ouvir e sentir o que as pessoas sentem e vivem. Ser solidário com as lutas, acolher a realidade… A partir disso, vamos pensando juntos, como atores sujeitos das nossas intervenções, mecanismos de mudanças da realidade”, descreve ele. 

Confira um pouco dos momentos registrados durante o encontro:

Fotos: Mikaell Carvalho