Justiça condena articulador do assassinato do ambientalista Raimundo dos Santos Rodrigues

Justiça condena articulador do assassinato do ambientalista Raimundo dos Santos Rodrigues

Decisão histórica rompe uma década de impunidade no Maranhão, mas violência contra quem protege territórios e florestas continua fazendo vítimas no país

Após 11 anos de espera, o Tribunal do Júri condenou, nesta terça-feira (28), a 35 anos de prisão o articulador do assassinato do defensor ambiental Raimundo dos Santos Rodrigues, em 2015, em Bom Jardim, no Maranhão. Apontado como mediador da contratação dos executores do crime, o réu também foi responsabilizado pelo atentado que deixou ferida Maria da Conceição, companheira de Dos Santos e sobrevivente do ataque.

O resultado do julgamento é considerado um marco na luta contra a impunidade em crimes cometidos contra defensoras e defensores de direitos humanos e ambientais. Mais do que a condenação de um dos responsáveis pelo assassinato, a sentença é vista como reconhecimento de uma longa mobilização conduzida por familiares, comunidades, organizações da sociedade civil e redes de apoio que impediram que o caso fosse esquecido.

Ao final do julgamento, o promotor Francisco de Assis Maciel Carvalho Júnior resumiu o significado da decisão em uma frase que reverberou entre quem acompanhou o caso ao longo dos anos: “A justiça, mesmo muito tardia, foi feita hoje”.

Para o promotor, a condenação honra a memória e a luta de Dos Santos, de Dona Maria e das comunidades que historicamente resistem à violência no campo, à grilagem e às tentativas de silenciamento de quem defende a terra e a dignidade humana.

A dimensão histórica do julgamento também foi destacada por Danilo Chammas, advogado da vítima sobrevivente que participou do júri e que atua no caso desde a ocorrência do crime, por sua atuação na Justiça nos Trilhos (JnT). Para ele, a sentença rompe uma lógica de impunidade profundamente enraizada.

“Depois de 11 anos, o sistema de justiça penal brasileiro finalmente escutou os clamores de Dos Santos, de sua esposa sobrevivente e dos colegas do Conselho da Rebio Gurupi. A contribuição vigilante e dedicada da sociedade civil, incluindo os advogados da assistência da acusação, foi fundamental para o desenrolar do processo e para a proteção da vítima sobrevivente. A condenação exemplar de um dos mandantes desse crime atroz honra a memória de quem se foi, restabelece a verdade e rompe com o ciclo de impunidade.”

A avaliação é compartilhada por organizações que acompanham conflitos socioambientais na Amazônia e vêem na decisão um precedente importante para casos semelhantes.

Para Fernanda Souto, advogada da Justiça nos Trilhos, o julgamento ultrapassa a responsabilização penal e deve ser entendido como um marco político em defesa dos territórios e de quem os protege.

“O júri realizado em 28 de abril não foi apenas o julgamento de um crime, foi um grito de resistência em um dos estados mais violentos para defensoras e defensores da vida no Brasil. Condenar o mandante do crime contra Raimundo dos Santos é reafirmar que não podem ficar impunes as violações, os desrespeitos e os desmandos.”

Para a advogada, a sentença representa também uma resposta coletiva diante da violência que historicamente marca os conflitos no campo.

“A condenação de hoje é a resposta coletiva de uma sociedade que não tolera mais a ganância econômica ditando quem deve viver ou morrer. Que esta vitória fortaleça cada quilombo, cada aldeia e cada comunidade em luta. Que as lideranças sintam que não estão sós. Exigimos proteção para quem planta o futuro e protege a natureza. Pela memória de Raimundo e pela liberdade dos nossos territórios, a luta continua.”

Raimundo dos Santos Rodrigues era reconhecido por sua atuação em defesa da Reserva Biológica do Gurupi e pelo enfrentamento à exploração ilegal de madeira no Vale do Pindaré. Sua trajetória esteve ligada à denúncia de crimes ambientais, à proteção de comunidades tradicionais e ao enfrentamento de interesses econômicos que pressionam o território.

Ao denunciar essas dinâmicas, passou a sofrer ameaças que antecederam o atentado que tirou sua vida. Maria da Conceição também foi baleada e sobreviveu. Ao longo dos anos, o caso tornou-se símbolo dos riscos enfrentados por quem atua na proteção dos territórios e da floresta.

A condenação ocorre em um contexto em que o Brasil segue entre os países mais perigosos do mundo para defensoras e defensores ambientais. Dados da Global Witness apontam mais de 40 assassinatos de ambientalistas no país apenas em 2024. 

Segundo o estudo Na Linha de Frente, da Justiça Global e da Terra de Direitos, entre os 486 casos de violência contra defensores de direitos humanos mapeados entre 2023 e 2024, 80,9% foram contra quem atua na defesa ambiental e territorial. 

No Maranhão, o cenário segue crítico. A região de Bom Jardim concentra conflitos associados ao avanço do agronegócio, à exploração ilegal de madeira, ao uso de agrotóxicos, ao trabalho escravo e à pistolagem, segundo organizações que monitoram violações na região. É nesse cenário que a sentença ganha uma dimensão que ultrapassa o próprio julgamento.

Para a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, a condenação não representa apenas a responsabilização de um dos articuladores do crime, mas um passo decisivo no enfrentamento às engrenagens de violência e impunidade que historicamente atingem defensoras e defensores de direitos humanos no Maranhão e na Amazônia.

Na avaliação da entidade, ao reconhecer a autoria intelectual do assassinato, o julgamento ajuda a expor estruturas mais amplas de mando, interesses econômicos e práticas de violência que sustentam ataques contra quem defende a terra e a vida. A decisão também reafirma a necessidade de responsabilização de todos os envolvidos, inclusive daqueles que atuam nos bastidores desses crimes.

A SMDH destaca ainda que o caso recoloca no centro do debate a urgência de fortalecer políticas públicas de proteção para lideranças ameaçadas, ampliar garantias de segurança e consolidar mecanismos institucionais capazes de prevenir novas violações.

“A decisão do Tribunal do Júri simboliza um passo importante no reconhecimento da gravidade dos fatos, na valorização da memória da vítima fatal e no respeito à trajetória de resistência da sobrevivente. Reafirma-se, assim, o compromisso com a justiça, a verdade e a não repetição de violações de direitos humanos”, afirma a entidade.

Para Melisandra Trentin, coordenadora do programa de Justiça Socioambiental e Climática da Justiça Global, organização que denunciou o caso à OEA em 2015, a condenação também lança luz sobre a gravidade dos conflitos que marcam a região de Bom Jardim e o entorno da Reserva Biológica do Gurupi, território onde Raimundo dos Santos atuou durante anos na defesa da floresta e das comunidades.

A advogada observa que a região é profundamente marcada pela extração ilegal de madeira, crimes ambientais, conflitos fundiários e ameaças constantes a comunidades e pessoas defensoras dos direitos humanos e do meio ambiente, contexto que dá ao julgamento um significado que ultrapassa o próprio caso. 

“Esse julgamento é importantíssimo, não só pela memória do senhor Dos Santos, mas também para toda a sociedade maranhense e brasileira, porque manda uma mensagem muito simbólica sobre a necessidade de proteger a vida das pessoas que defendem o meio ambiente e os direitos humanos, e também sobre a responsabilização de quem pratica crimes contra essas pessoas.”

A condenação rompe um ciclo prolongado de impunidade iniciado com a emboscada que tirou a vida de Raimundo dos Santos em 2015 e representa, enfim, uma resposta do sistema de justiça diante de um crime emblemático.

“Agora nós temos, finalmente, um resultado de condenação dessas pessoas”, conclui Melisandra.

A sentença não encerra a violência que ameaça defensoras e defensores de territórios no Brasil, mas rompe um pacto histórico de impunidade e fortalece a luta por memória, justiça e proteção para quem segue defendendo a vida e a floresta.

Ressurreição a partir de baixo: A fé pascal em meio às lutas contra a mineração na Amazônia brasileira

Ressurreição a partir de baixo: A fé pascal em meio às lutas contra a mineração na Amazônia brasileira

P. Dàrio Bossi, rede Iglesias y Minerìa

A Semana Santa, que se inicia com o Domingo de Ramos, é a expressão mais profunda do amadurecimento da fé e da vocação de Jesus. Na primeira etapa de sua missão na Galileia, Jesus estava convencido de que o Reino de Deus estava próximo e de que já era possível criar novas relações de comunidade e de solidariedade humana capazes de transformar a história.

Essa etapa pode ser comparada à chamada “entrada triunfal em Jerusalém”. Montado em um jumentinho, em contraste com os cavalos dos imperadores romanos vitoriosos, o gesto profético de Jesus anuncia uma nova forma de entrar na cidade e de viver na polis. Trata-se de uma nova visão política, fundada no serviço e não no poder e na violência.

No entanto, durante a Semana Santa, surgem rapidamente a traição, a negação, o abandono e a solidão, seguidos pela prisão, pela tortura violenta e pela morte imposta pelo Estado. Jesus percorre outro caminho — mais profundo e misterioso, mais duro e aparentemente derrotado — rumo à salvação, para que todos tenham vida em plenitude: “Esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo (…) tornando-se obediente até a morte — e morte de cruz” (Fl 2,7-8). A utopia do Reino passa pelo esvaziamento; a vitória começa de baixo e a partir de dentro.

No Maranhão, região amazônica do nordeste brasileiro, a rede Justiça nos Trilhos vive cotidianamente a desproporção da luta e a distância entre o sonho do Reino e uma realidade marcada pela morte. Povos indígenas, comunidades afrodescendentes, camponesas e pesqueiras, bem como moradores das periferias urbanas, sofrem os impactos da mineração no coração da Amazônia e das infraestruturas que transportam o minério de ferro através de seus territórios e de suas vidas.

Como rede, essas comunidades sonham com um novo tempo, no qual as relações com toda a criação possam voltar “aos trilhos da justiça”. Anseiam por uma economia baseada na partilha dos bens, em vez da espoliação, da exploração voltada à exportação, do enriquecimento privado e dos impactos públicos violentos.

Em seu grito de denúncia, ressoa o Salmo 22 — o salmo sussurrado por Jesus na cruz, com um sentimento angustiado de abandono e profunda confiança no Pai: “Como leões que rugem, escancaram contra mim a boca. Repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica”. Nessas palavras, podemos ver um paralelo doloroso com os territórios dos povos saqueados pelas mandíbulas vorazes da mineração.

Assim, as comunidades do Maranhão vivem uma experiência contínua de paixão e morte, de sonhos despedaçados e lutas frágeis. Onde, então, está a ressurreição, escondida “a partir de baixo e de dentro”?

Somos inspirados pelas palavras do saudoso senhor Edvard, liderança muito querida da comunidade impactada pela mineração em Piquiá. Ele costumava chamar as empresas mineradoras e siderúrgicas de “dragões de ferro” e afirmava: “A beleza da nossa luta é que não nos cansamos; e, sempre que há uma derrota, respondemos com ainda mais energia e convicção.”

Ressurreição significa permanecer de pé aos pés da cruz, como fizeram as mulheres (Jo 19,25), sem abaixar a cabeça diante do poder imperial ou do escárnio religioso. A ressurreição se encontra nas comunidades do Maranhão, que permanecem firmes na resistência, unidas em rede, continuando a sonhar e a exigir justiça, mesmo enquanto seus territórios seguem ameaçados.

De pé, ainda que chorando, ouvimos novamente a voz de Jesus, que nos chama e nos envia ao seu encontro — vivo e em movimento — nas Galileias dos povos.

MOÇÃO DE APOIO à luta pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na Zona Rural de São Luís (MA)

MOÇÃO DE APOIO à luta pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na Zona Rural de São Luís (MA)

Presidente Lula, decrete a Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão!

Os(As) delegados(as) da APRUMA – Seção Sindical do ANDES, presentes no 44º CONGRESSO do ANDES-SINDICATO NACIONAL, realizado em Salvador (BA) , no período de 2 a 6 de março de 2026, manifestam seu apoio pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão.

A Resex Tauá-Mirim é composta por 12 comunidades tradicionais da zona rural de São Luís, Maranhão, Brasil. Essa região costeira amazônica, está com seus manguezais, águas e florestas ameaçados por grandes empreendimentos ligados à mineração, ao agronegócio e projetos energéticos, portuários e ferroviários. A decretação oficial da Reserva Extrativista pode proteger esse território!

Reserva Extrativista (Resex) é uma modalidade de unidade de conservação prevista no Sistema Nacional de Unidades de Proteção (Snuc) que visa proteger a natureza e garantir os direitos dos povos e comunidades tradicionais, conforme critérios estabelecidos no Decreto Presidencial n° 6.040 de 2007.

A Resex Tauá-Mirim está localizada na zona rural de São Luís, capital do Maranhão. Seu território é formado pelas comunidades Taim, Rio dos Cachorros, Limoeiro, Porto Grande, Cajueiro, Vila Maranhão, Portinho, Jacamim, Amapá, Embaubal, Ilha Pequena e Tauá-Mirim.

Cerca de 2.200 famílias vivem na Resex, que integra a Amazônia Legal e abriga uma rica biodiversidade, com florestas tropicais, rios extensos, manguezais e diversos ecossistemas. As principais atividades econômicas são a pesca artesanal, a agricultura familiar e o extrativismo vegetal, modos de vida que contribuem diretamente para a conservação ambiental.

Os manguezais predominam na área e são fundamentais na captura de carbono e gases de efeito estufa (GEE). Essas regiões são reconhecidas como áreas de preservação permanente e também como berçário de várias espécies, como aves, peixes e crustáceos, sendo classificadas como Zona Úmida de Proteção Internacional.

Desde 2003, as comunidades lutam pela decretação oficial da Resex Tauá-Mirim, o que garantiria o uso sustentável do território e melhores condições de vida. Essa luta enfrenta grandes empreendimentos, como portos, rodovias, ferrovias, mineradoras, empresas de fertilizantes e indústrias de alumínio e pelotização de ferro, voltados para a exportação de commodities.

A morosidade do Estado em oficializar a reserva extrativista tem facilitado o avanço desses empreendimentos, que também provocam poluição, degradação ambiental e adoecimento, impactando a vida em toda a ilha de São Luís.

Pela proteção dos manguezais, águas, florestas e povos e comunidades tradicionais,

PROPONENTES: Delegação da APRUMA –Seção Sindical do ANDES: Luiz Eduardo Neves dos Santos; Cristina Cardoso de Araújo; Antônio Gonçalves Filho; Marise Marçalina de Castro Silva Rosa; Edna Selma David Silva; Thiago Pereira Lima; Maria Mary Ferreira; Érbio dos Santos Silva; Saulo Barros da Costa; Célia Soares Martins; ⁠José Edilmar de Sousa; Welbson do Vale Madeira; e Éder Nascimento Silva

– Seção Sindical: APRUMA

– Destinatários: Presidente Lula e  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio)

– E-mails:  gabinetepessoal@presidencia.gov.br; ouvidoria@icmbio.gov.br; e dgpea@icmbio.gov.br;

– Fato motivador da Moção: Criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão.