Ressurreição a partir de baixo: A fé pascal em meio às lutas contra a mineração na Amazônia brasileira

Ressurreição a partir de baixo: A fé pascal em meio às lutas contra a mineração na Amazônia brasileira

P. Dàrio Bossi, rede Iglesias y Minerìa

A Semana Santa, que se inicia com o Domingo de Ramos, é a expressão mais profunda do amadurecimento da fé e da vocação de Jesus. Na primeira etapa de sua missão na Galileia, Jesus estava convencido de que o Reino de Deus estava próximo e de que já era possível criar novas relações de comunidade e de solidariedade humana capazes de transformar a história.

Essa etapa pode ser comparada à chamada “entrada triunfal em Jerusalém”. Montado em um jumentinho, em contraste com os cavalos dos imperadores romanos vitoriosos, o gesto profético de Jesus anuncia uma nova forma de entrar na cidade e de viver na polis. Trata-se de uma nova visão política, fundada no serviço e não no poder e na violência.

No entanto, durante a Semana Santa, surgem rapidamente a traição, a negação, o abandono e a solidão, seguidos pela prisão, pela tortura violenta e pela morte imposta pelo Estado. Jesus percorre outro caminho — mais profundo e misterioso, mais duro e aparentemente derrotado — rumo à salvação, para que todos tenham vida em plenitude: “Esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo (…) tornando-se obediente até a morte — e morte de cruz” (Fl 2,7-8). A utopia do Reino passa pelo esvaziamento; a vitória começa de baixo e a partir de dentro.

No Maranhão, região amazônica do nordeste brasileiro, a rede Justiça nos Trilhos vive cotidianamente a desproporção da luta e a distância entre o sonho do Reino e uma realidade marcada pela morte. Povos indígenas, comunidades afrodescendentes, camponesas e pesqueiras, bem como moradores das periferias urbanas, sofrem os impactos da mineração no coração da Amazônia e das infraestruturas que transportam o minério de ferro através de seus territórios e de suas vidas.

Como rede, essas comunidades sonham com um novo tempo, no qual as relações com toda a criação possam voltar “aos trilhos da justiça”. Anseiam por uma economia baseada na partilha dos bens, em vez da espoliação, da exploração voltada à exportação, do enriquecimento privado e dos impactos públicos violentos.

Em seu grito de denúncia, ressoa o Salmo 22 — o salmo sussurrado por Jesus na cruz, com um sentimento angustiado de abandono e profunda confiança no Pai: “Como leões que rugem, escancaram contra mim a boca. Repartem entre si as minhas vestes e lançam sortes sobre a minha túnica”. Nessas palavras, podemos ver um paralelo doloroso com os territórios dos povos saqueados pelas mandíbulas vorazes da mineração.

Assim, as comunidades do Maranhão vivem uma experiência contínua de paixão e morte, de sonhos despedaçados e lutas frágeis. Onde, então, está a ressurreição, escondida “a partir de baixo e de dentro”?

Somos inspirados pelas palavras do saudoso senhor Edvard, liderança muito querida da comunidade impactada pela mineração em Piquiá. Ele costumava chamar as empresas mineradoras e siderúrgicas de “dragões de ferro” e afirmava: “A beleza da nossa luta é que não nos cansamos; e, sempre que há uma derrota, respondemos com ainda mais energia e convicção.”

Ressurreição significa permanecer de pé aos pés da cruz, como fizeram as mulheres (Jo 19,25), sem abaixar a cabeça diante do poder imperial ou do escárnio religioso. A ressurreição se encontra nas comunidades do Maranhão, que permanecem firmes na resistência, unidas em rede, continuando a sonhar e a exigir justiça, mesmo enquanto seus territórios seguem ameaçados.

De pé, ainda que chorando, ouvimos novamente a voz de Jesus, que nos chama e nos envia ao seu encontro — vivo e em movimento — nas Galileias dos povos.

MOÇÃO DE APOIO à luta pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na Zona Rural de São Luís (MA)

MOÇÃO DE APOIO à luta pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na Zona Rural de São Luís (MA)

Presidente Lula, decrete a Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão!

Os(As) delegados(as) da APRUMA – Seção Sindical do ANDES, presentes no 44º CONGRESSO do ANDES-SINDICATO NACIONAL, realizado em Salvador (BA) , no período de 2 a 6 de março de 2026, manifestam seu apoio pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão.

A Resex Tauá-Mirim é composta por 12 comunidades tradicionais da zona rural de São Luís, Maranhão, Brasil. Essa região costeira amazônica, está com seus manguezais, águas e florestas ameaçados por grandes empreendimentos ligados à mineração, ao agronegócio e projetos energéticos, portuários e ferroviários. A decretação oficial da Reserva Extrativista pode proteger esse território!

Reserva Extrativista (Resex) é uma modalidade de unidade de conservação prevista no Sistema Nacional de Unidades de Proteção (Snuc) que visa proteger a natureza e garantir os direitos dos povos e comunidades tradicionais, conforme critérios estabelecidos no Decreto Presidencial n° 6.040 de 2007.

A Resex Tauá-Mirim está localizada na zona rural de São Luís, capital do Maranhão. Seu território é formado pelas comunidades Taim, Rio dos Cachorros, Limoeiro, Porto Grande, Cajueiro, Vila Maranhão, Portinho, Jacamim, Amapá, Embaubal, Ilha Pequena e Tauá-Mirim.

Cerca de 2.200 famílias vivem na Resex, que integra a Amazônia Legal e abriga uma rica biodiversidade, com florestas tropicais, rios extensos, manguezais e diversos ecossistemas. As principais atividades econômicas são a pesca artesanal, a agricultura familiar e o extrativismo vegetal, modos de vida que contribuem diretamente para a conservação ambiental.

Os manguezais predominam na área e são fundamentais na captura de carbono e gases de efeito estufa (GEE). Essas regiões são reconhecidas como áreas de preservação permanente e também como berçário de várias espécies, como aves, peixes e crustáceos, sendo classificadas como Zona Úmida de Proteção Internacional.

Desde 2003, as comunidades lutam pela decretação oficial da Resex Tauá-Mirim, o que garantiria o uso sustentável do território e melhores condições de vida. Essa luta enfrenta grandes empreendimentos, como portos, rodovias, ferrovias, mineradoras, empresas de fertilizantes e indústrias de alumínio e pelotização de ferro, voltados para a exportação de commodities.

A morosidade do Estado em oficializar a reserva extrativista tem facilitado o avanço desses empreendimentos, que também provocam poluição, degradação ambiental e adoecimento, impactando a vida em toda a ilha de São Luís.

Pela proteção dos manguezais, águas, florestas e povos e comunidades tradicionais,

PROPONENTES: Delegação da APRUMA –Seção Sindical do ANDES: Luiz Eduardo Neves dos Santos; Cristina Cardoso de Araújo; Antônio Gonçalves Filho; Marise Marçalina de Castro Silva Rosa; Edna Selma David Silva; Thiago Pereira Lima; Maria Mary Ferreira; Érbio dos Santos Silva; Saulo Barros da Costa; Célia Soares Martins; ⁠José Edilmar de Sousa; Welbson do Vale Madeira; e Éder Nascimento Silva

– Seção Sindical: APRUMA

– Destinatários: Presidente Lula e  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio)

– E-mails:  gabinetepessoal@presidencia.gov.br; ouvidoria@icmbio.gov.br; e dgpea@icmbio.gov.br;

– Fato motivador da Moção: Criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim na zona rural de São Luís, Maranhão.

Interesse público para quem? Publicação denuncia uso do direito para legitimar megaprojetos

Interesse público para quem? Publicação denuncia uso do direito para legitimar megaprojetos

Pesquisa em cinco países expõe disputas judiciais que favorecem grandes empreendimentos sobre comunidades e territórios

O que está em jogo quando a mineração é declarada “de interesse público”? Quem define o que é “utilidade pública”? E a serviço de quem essas categorias jurídicas são mobilizadas?

Essas são as questões centrais do livro Extrativismo y la captura privada del interés público: disputas en torno a las nociones de interés público y utilidad pública en los tribunales sudamericanos, lançado pela FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional em parceria com o Grupo de Trabajo Utilidad Pública en América Latina.

A obra analisa como conceitos jurídicos indeterminados, como interesse público, utilidade pública e interesse nacional, vêm sendo utilizados em tribunais sul-americanos para justificar e viabilizar megaprojetos extrativos, especialmente no setor mineral.

Com base em estudos jurisprudenciais realizados na Colômbia, Equador, Bolívia, Peru e Brasil, o livro demonstra como empresas e governos recorrem a essas noções para obter decisões favoráveis, muitas vezes sem que os supostos benefícios públicos dos empreendimentos sejam devidamente comprovados ou confrontados com seus impactos sociais, ambientais e territoriais.

Produzida no âmbito das reflexões sobre justiça socioambiental e direitos territoriais, a obra contribui para fortalecer o debate público sobre direitos coletivos, justiça ambiental e o papel do sistema de justiça diante de projetos que afetam diretamente povos e comunidades tradicionais. A leitura é um convite à reflexão crítica sobre quem define o interesse público e como construir caminhos jurídicos que realmente coloquem a vida e os territórios no centro das decisões.

Lançamento internacional

O livro será lançado presencialmente durante a II Conferência Internacional de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural – ICARRD+20, em Cartagena, Colômbia, no dia 26 de fevereiro, a partir das 14h.

Para participar da sala virtual: https://meet.google.com/ijn-ymzm
Para acompanhar a transmissão online, acesse o canal do Grupo Semillas no YouTube.


Baixe a publicação completa: https://fase.org.br/pt/biblioteca/extrativismo-y-la-captura-privada-del-interesse-publico-disputas-en-torno-a-las-nociones-de-interesse-publico-y-utilidad-publica-en-los-tribunales-sudamericanos/

Com informações da FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional.