Entre os dias 16 e 19 de julho de 2026, o Centro Cabanagem, em Marabá (PA), transformou-se no epicentro da articulação comunitária ao sediar o XV Encontro Pará e Maranhão de Atingidos e Atingidas pela Mineração (ERAM). Reunindo cerca de 40 lideranças do campo e da floresta, o evento foi um espaço fundamental de escuta atenta, memória, afeto e denúncia das violações causadas pelo modelo minerário ao longo do Corredor de Carajás, além de marcar a apresentação de pesquisas e estratégias de autodefesa popular.
Abertura e Mística: Conectar com o espaço e estar por Inteiro
A jornada teve início na manhã do dia 17 com uma mística de acolhimento conduzida pela delegação do Pará. Num ritual de unção com óleos e partilha de afetos, os participantes foram convidados a “conectar-se com o espaço e estar ali por inteiro”. A apresentação das lideranças indígenas e camponesas reafirmou que, antes de qualquer debate técnico ou económico, o ERAM é um espaço de cura, memória e união de povos que partilham as dores e a resistência ao longo do Corredor de Carajás e das bacias hidrográficas da região.
A primeira mesa de debates traçou o panorama dos conflitos territoriais, articulando a conjuntura local do Pará com as pressões geopolíticas globais.
[ CAPITALISMO VERDE & TRANSIÇÃO ENERGÉTICA ]
│
┌───────────────────┴───────────────────┐
▼ ▼
NORTE GLOBAL SUL GLOBAL
Exigência de minerais Zonas de Sacrifício
"críticos" e "limpos" Etnocídio, poluição e
(Carros elétricos/baterias) violência de género
1. Pará no epicentro dos conflitos minerários e agrários
A professora Lucilei Martins (UEPA – Conceição do Araguaia) abriu a análise de conjuntura alertando para o facto de o estado do Pará ter ultrapassado Minas Gerais, tornando-se o maior minerador do país — e, paralelamente, o líder em números de conflitos por terra e água, segundo o Observatório da FASE.
Lucilei destacou a assimetria institucional do Pará em comparação a Minas Gerais:
“O estado do Pará possui menos mecanismos e processos institucionais de controlo. Isso não impede os conflitos em Minas, mas lá existe um aparelho institucional mais forte. Aqui, o avanço sobre territórios da reforma agrária e terras indígenas ocorre com escassa fiscalização.”
Ao abordar as pesquisas que desenvolve em Ourilândia do Norte e Conceição do Araguaia, a professora recorreu aos conceitos de Justiça Ambiental (Henri Acselrad) e Zonas de Sacrifício (Bruno Malheiro), explicando como o discurso de “progresso” e a expansão simultânea da monocultura da soja e da mineração sequestram a água das bacias hidrográficas e inviabilizam a produção camponesa tradicional.
Impacto hídrico: Em Conceição do Araguaia, a mineração projeta captar água suficiente para sustentar uma cidade de 80 mil habitantes (o município tem 47 mil), rebaixando lençóis freáticos e ameaçando os rios Arraia e Araguaia.
Poluição e poeira tóxica: Relatos de campo denunciaram o uso de óleo e poeira nas vias de transporte minerário, provocando a morte de moradores com problemas respiratórios e contaminando pastagens e animais.
2. Lançamento da pesquisa: “Às Sombras da Transição Energética”
De seguida, Larissa Santos (JnT) fez a apresentação oficial do relatório inédito produzido pela Justiça nos Trilhos em parceria com redes internacionais (AIDC e APMDD), apoio da Wellspring Philanthropic Fund, Misereor e colaboração académica do Grupo de Pesquisa MINAS (Universidade Federal de Viçosa – UFV) e da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Larissa provocou a plenária sobre a falsa novidade do “capitalismo verde”:
“O objetivo deste relatório é fazer uma leitura crítica da narrativa da transição energética mobilizada por empresas e governos. Trazemos dados, mapeamentos e a resistência dos territórios para mostrar que a corrida por lítio, cobre e níquel reproduz velhas práticas coloniais e altamente poluentes, transformando a Amazônia e Minas Gerais em zonas de sacrifício.”
O estudo sistematiza o desmonte regulatório — como o Decreto 11.120/2022 e a Medida Provisória 1.308/2025 (licenciamento acelerado) — e o uso de recursos públicos (BNDES e FINEP) para subsidiar projetos predatórios sob o pretexto de “decarbonização”.
3. A (Re)patriarcalização dos Territórios e o Impacto sobre as Mulheres
A professora e pesquisadora Ailce Margarida Negreiros Alves (UNIFESSPA), coautora do quinto capítulo do relatório, trouxe uma das falas mais contundentes do encontro ao detalhar a escuta realizada com mais de 60 mulheres em Marabá e Canaã dos Carajás.
Margarida denunciou a lógica patriarcal da mineração, que resulta no inchaço demográfico masculino, na explosão da violência de género, no aumento da prostituição infantil e na sobrecarga do trabalho de cuidado não pago exercido pelas mulheres:
“Quando o rio é contaminado — como o Rio Cateté, onde 100% dos indígenas Xikrin testados apresentaram metais pesados no organismo —, contamina-se o peixe, o alimento sagrado. E quem cuida dos doentes? São as mulheres. […] Os projetos chegam aos territórios e mapeiam os peixes, os morcegos, o rato… mas ignoram as pessoas. Negar a presença humana é uma estratégia colonial para dizer que o território está ‘vazio’ e pode ser destruído. Negar também é estratégico.“
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ «NEGAR TAMBÉM É ESTRATÉGICO» │
│ │
│ "A mineração não vem sozinha: vem com o agronegócio, com o Estado e │
│ com a lei. Negar a presença das comunidades, das mulheres e dos seus │
│ modos de vida é a estratégia central para legitimar a expropriação." │
│ │
│ — Prof.ª Ailce Margarida (UNIFESSPA) no XV ERAM │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘
4. Geopolítica, Minerais Críticos e a Disputa pelo Estado
Fechando as exposições da manhã, Alessandra Cardoso (INESC) contextualizou a corrida global pelos minerais críticos (lítio, cobre, níquel, terras raras). Ela explicou que o capital transnacional capturou a agenda climática para transformar a redução de emissões num novo nicho de acumulação financeira.
“A transição energética corporativa significa que as empresas não querem pagar pela decarbonização dos seus processos. Elas exigem dinheiro público, crédito subsidiado, isenções fiscais e flexibilização ambiental. No Congresso Nacional, avançam projetos de lei que declaram a ‘indisponibilidade do interesse público’ da mineração, colocando a lavra acima de territórios indígenas, quilombolas e assentamentos.”
Alessandra apontou caminhos de resistência institucional e popular, defendendo o fortalecimento da Convenção 169 da OIT (Consulta Prévia, Livre e Informada) e a criação urgente de Salvaguardas Socioambientais e Trabalhistas vinculantes.
Pé no chão: Vivência nos territórios atingidos em Marabá
No domingo (18), a programação do XV ERAM desdobrou-se para além do Centro Cabanagem numa atividade de campo que colocou os participantes em contato direto com a realidade das populações atingidas pela logística e pela infraestrutura minerária em Marabá. A comitiva percorreu o complexo de ocupações urbanas que abrange bairros como Km 07, São Félix e Araguaia, onde constatou o impacto do tráfego pesado de trens e caminhões, o ruído constante, as rachaduras nas casas e as restrições impostas por viadutos e muros construídos pela mineradora Vale. A circulação também passou pelas obras de duplicação da ponte sobre o Rio Tocantins, um empreendimento desenhado para acelerar o escoamento de minério e commodities que altera o fluxo do rio e inviabiliza a pesca e o sustento das famílias ribeirinhas locais.
A vivência estendeu-se até a Terra Indígena Mãe Maria, onde a delegação foi acolhida pela Cacica Kátia, do povo Akrãtikatêjê/Parkatêjê. Numa roda de conversa e memória no território sagrado, a cacica compartilhou a trajetória de resistência do seu povo — marcado pelo histórico de descolamento forçado com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí na década de 1970 —, destacando a luta permanente contra os impactos da ferrovia, das rodovias e dos linhões que cortam a terra indígena. Kátia enfatizou a importância da autonomia econômica comunitária, da preservação da biodiversidade e do fortalecimento da educação e da saúde como ferramentas centrais de autodefesa e garantia do futuro das novas gerações indígenas.
A atividade de campo reafirmou que, frente às violentas estratégias do extrativismo corporativo, a denúncia da Justiça nos Trilhos e das organizações parceiras mantém o seu alicerce na escuta atenta, no afeto e na presença física junto a quem vive na linha de frente dos territórios. A passagem pelos bairros e pela terra indígena evidenciou que a luta por direitos, por reparação e pela preservação do meio ambiente exige uma articulação contínua entre o campo e a cidade, colocando a dignidade e a soberania dos povos acima dos interesses de grandes empreendimentos.
📥 Baixe o relatório completo
O relatório completo já está disponível para download gratuito na biblioteca digital da Justiça nos Trilhos.
Projeto:Global South Project on Combating Profit Shifting and Illicit Financial Flows
Parceria Internacional: AIDC (África do Sul) e APMDD (Filipinas)
Apoio:Wellspring Philanthropic Fund, Misereor, Grupo de Pesquisa MINAS / Universidade Federal de Viçosa (UFV)
Coordenação Editorial: Tádzio Peters Coelho e Renato Paulino Lanfranchi
Autoria: Tádzio Peters Coelho, Bruno Malheiro, Ailce Margarida Negreiros Alves, Larissa Pereira Santos, Alice Grazielle Baru Santos, Evelin Camile Ribeiro Barbosa, Maria Laura Emiliano Ferreira, Anna Maria de Toledo Porto, Lara Spadeto de Freitas, Vinicius da Silva Benjamin, Izabella Rodrigues Alves, Wander Lucas Teixeira, Marcelo Bruno Ribeiro Barbosa e Thiago Sabino.
A urgência global em torno da crise climática tem colocado a “transição energética” no centro dos debates econômicos e geopolíticos. No entanto, por trás do discurso de uma economia de baixo carbono e da busca por tecnologias “limpas”, esconde-se um processo agressivo de expansão minerária no Sul Global.
Para jogar luz sobre essa realidade, a Justiça nos Trilhos (JnT) disponibiliza a pesquisa inédita “À Sombra da Transição Energética: Financiamento público, desregulação e impactos da mineração de níquel, cobre e lítio na Amazônia e em Minas Gerais”, realizada no âmbito do Global South Project on Combating Profit Shifting and Illicit Financial Flows (em parceria com a AIDC da África do Sul e a APMDD das Filipinas).
O relatório completo já está acessível para leitura e download gratuito no link abaixo.
A pesquisa analisa criticamente como a narrativa do “capitalismo verde” tem sido instrumentalizada para legitimar o avanço neoextrativista no Brasil. Em vez de promover uma transição ecológica justa, a corrida por minerais como lítio, cobre e níquel reproduz velhos padrões de exploração colonial, transformando territórios ricos em biodiversidade e comunidades tradicionais em verdadeiras “zonas de sacrifício”.
O relatório detalha essa dinâmica através de quatro eixos fundamentais:
1. Desregulamentação e dinheiro público a serviço da destruição
O avanço das mineradoras é ativamente pavimentado pelo próprio Estado brasileiro. O estudo detalha o desmonte dos marcos regulatórios — exemplificado pelo Decreto 11.120/2022 (que facilitou a exportação de lítio) e pela Medida Provisória 1.308/2025 (que criou um rito de licenciamento ambiental acelerado, blindando o setor da participação popular). Além disso, instituições públicas como o BNDES e a FINEP destinam bilhões de reais em créditos subsidiados para financiar projetos socioambientalmente predatórios.
2. A Ilusão do Lítio “Verde” em Minas Gerais
Analisando as operações de transnacionais como a canadense Sigma Lithium e a holandesa AMG no Vale do Jequitinhonha e em Nazareno/São Tiago (MG), a pesquisa desmistifica o selo de “mineração verde”. Sob a justificativa do beneficiamento a seco, as empresas geram montanhas de estéril que cobrem rios e comunidades com poeira tóxica, provocando surtos de doenças respiratórias, de pele e oculares. O estudo denuncia ainda rachaduras em residências causadas por explosões e a irresponsabilidade fiscal da Sigma Lithium, que deixou de pagar a CFEM (royalties da mineração) aos municípios afetados em 2025.
3. A Amazônia e o etnocídio silencioso em Onça Puma
O avanço sobre a Amazônia tem pressionado Terras Indígenas e Unidades de Conservação com milhares de requerimentos minerários e fomentado o garimpo ilegal. Um dos casos mais alarmantes detalhados no relatório é o do projeto de níquel Onça Puma, operado pela Vale S.A. em Carajás. A contaminação do Rio Cateté resultou na presença de metais pesados no organismo de 100% dos indígenas Xikrin do Cateté testados, desencadeando malformações fetais e graves doenças neurológicas. O relatório caracteriza essa realidade como a “necroeconomia da desfaçatez”: lucrar aniquilando vidas locais enquanto se vende uma imagem de salvação climática.
4. Gênero e a (re)patriarcalização dos territórios
A chegada dos grandes projetos minerários em polos amazônicos como Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá (PA) provoca um fluxo migratório massivo e majoritariamente masculino, resultando em uma explosão nos índices de violência doméstica, abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. O estudo denuncia como as mulheres sofrem os impactos mais severos: são as principais vítimas de expropriações territoriais violentas (como no acampamento Grotão do Mutum) e assumem, sem qualquer suporte do poder público, a sobrecarga de cuidar de familiares adoecidos pela poluição.
Por uma transição que de fato defenda a vida
A conclusão do relatório é categórica: a verdadeira sustentabilidade não pode ser construída sacrificando povos, florestas e territórios do Sul Global. A atual “transição energética” corporativa funciona como um escudo de greenwashing para que grandes empresas continuem escoando riquezas, desrespeitando legislações e devastando vidas.
Baixe o material completo, conheça os dados e some forças para ecoar essa denúncia.
Realização: Justiça nos Trilhos (JnT) – Maranhão
Parceria: Alternative Information Development Centre (AIDC) e Asian Peoples’ Movement on Debt and Development (APMDD)
Apoio: Wellspring Philanthropic Fund, Grupo de Pesquisa MINAS, Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Misereor
Coordenação Editorial: Tádzio Peters Coelho e Renato Paulino Lanfranchi
Encontro preparatório para o Encontro Regional de Atingidos e Atingidas pela Mineração reuniu mulheres do Pará e Maranhão no Quilombo Santa Rosa dos Pretos e elaboraram carta-manifesto denunciando impactos da mineração e do agronegócio e cobrando políticas públicas
No chão do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, mulheres semeiam futuro entre memória, cuidado e luta. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
O primeiro gesto foi pisar o chão. Antes de qualquer mesa ou microfone, as mulheres caminharam pelo Quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim (MA). Escutaram histórias do território, lembraram nomes de quem lutou antes, reconheceram as marcas de estrada, ferrovia e ausência de políticas públicas. Só depois começaram a falar.
O almoço de abertura aconteceu na Casa de Cozinha Conceição Velha, espaço comunitário do quilombo que homenageia uma das mulheres do território e simboliza o trabalho coletivo do cuidado. Ali, entre panelas e conversas, chegaram as primeiras partilhas sobre memória, violência, água, terra e resistência. Entre 6 e 8 de fevereiro de 2026, cerca de 50 mulheres de Canaã dos Carajás, Marabá, São Luís, Açailândia, Buriticupu, Bom Jesus das Selvas, Santa Rita, Itapecuru-Mirim e Rio de Janeiro participaram do II Pré-ERAM de Mulheres do Corredor Carajás.
Com o Salve das Caixeiras do Divino Espírito Santo, mulheres do Quilombo Santa Rosa dos Pretos abriram os caminhos do II Pré-ERAM. Entre canto e tambor, pediram proteção e força para os debates sobre os racismos que atravessam o Corredor Carajás. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
O encontro, organizado pela Justiça nos Trilhos (JnT), CPT Marabá, Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Associação dos Produtores Rurais Quilombolas de Santa Rosa dos Pretos (APRQSRP) e a União das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Itapecuru-Mirim (UNICQUITTA), preparou o Encontro Regional dos Atingidos e Atingidas pela Mineração (ERAM) e teve como tema “Racismos: entender para enfrentar e transformar”.
Do Pará ao Maranhão, com companheiras do Rio de Janeiro, mulheres se unem no II Pré-ERAM para aprender, cuidar e lutar juntas pelos seus territórios. | Foto: Aparecida Silva (Paré)Entre escuta e partilha, mulheres de Maranhão e Pará fortalecem a agenda coletiva no II Pré-ERAM. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
Nas rodas de conversa, o tema apareceu nas histórias de água que falta, escolas sem estrutura, exclusão de audiências públicas e ameaças a lideranças em territórios atravessados pela Estrada de Ferro Carajás (EFC).
Racismos que atravessam o território
Durante três dias, a programação combinou análise de conjuntura, grupos de trabalho e cartografia corpo-território. A metodologia partiu das experiências das próprias mulheres para compreender como os racismos estruturam desigualdades no território.
A professora Ailce Margarida também contribuiu com a roda trazendo uma leitura de conjuntura que ajudou a aproximar temas muitas vezes vistos como distantes das mulheres. Com uma didática acolhedora e educativa, apresentou conceitos políticos e históricos que costumam afastar mulheres dos espaços de decisão, dialogando a partir das experiências concretas dos territórios.
Sua fala conduziu uma imersão nos contextos regionais, conectando a realidade do Corredor Carajás às estruturas maiores que produzem desigualdades e racismos e mostrando que compreender esses processos é parte fundamental para fortalecer a participação das mulheres nas lutas políticas.
A professora Ailce Margarida conduz a análise de conjuntura com escuta e cuidado, aproximando política e vida cotidiana das mulheres do corredor. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
A advogada Fernanda Souto apresenta os dados do Maranhão e ajuda o grupo a compreender as raízes das desigualdades nos territórios. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
Na sequência, a advogada Fernanda Souto apresentou um panorama dos fatores sociais e econômicos do Maranhão, contribuindo para que o grupo compreendesse as raízes das desigualdades e violências que atravessam o cotidiano das comunidades. A análise de conjuntura coletiva também contou com as contribuições de Josi Pires, do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, que compartilhou sua experiência de resistência no território e fortaleceu a reflexão do grupo.
Josi Pires recebe as companheiras no Quilombo Santa Rosa dos Pretos, lembrando a luta de sua mãe, Anacleta Pires, e reafirmando que o território segue vivo. Foto: Aparecida Silva (Paré)
A partir dessa leitura coletiva da realidade, as mulheres puderam construir juntas caminhos práticos para enfrentar as situações que hoje geram mais sofrimento, conectando a reflexão política a estratégias concretas de transformação nos territórios.
Nas rodas de conversa surgiram relatos sobre falta de acesso à água potável, precariedade de escola e posto de saúde, aumento da violência doméstica em áreas de grandes obras, exclusão de audiências públicas e ameaças a lideranças comunitárias.
Para a educadora e militante Rose Bezerra, que contribui com processos de luta junto à Comissão Pastoral da Terra em Marabá e integra a organização do Pré-ERAM de Mulheres, o encontro também revelou a dimensão coletiva dessas violações:
“Esse grande esforço coletivo é uma frente de resistência organizada para enfrentar a avalanche de empreendimentos e violações que atravessa o corredor. Aqui em Santa Rosa dos Pretos, por exemplo, uma comunidade centenária convive com ferrovia, rodovia cortando o território, atropelamentos, trânsito intenso e agora a ameaça de duplicação. Isso significa imaginar terreiros destruídos, árvores centenárias derrubadas, famílias desalojadas.”
Rose lembrou que o processo não termina em uma obra.
“É sempre mais um projeto: uma ferrovia, outra ferrovia, energia, mineração. Um processo permanente de violação. Hoje você sai do Maranhão para o Pará e encontra a mesma realidade, pressão sobre os territórios, sobre a vida dos trabalhadores, das mulheres, das comunidades tradicionais. A gente está ficando sem lugar.”
Rose Bezerra compartilha a experiência de quem acompanha comunidades atingidas e lembra que a resistência nasce da organização coletiva das mulheres. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
O material formativo do encontro apresentou o racismo como estrutura histórica ligada ao colonialismo, ao patriarcado e ao modelo econômico, produzindo desigualdades concretas no acesso à terra, à água e aos direitos. O conceito de racismo ambiental foi peça-chave para compreender por que comunidades negras e tradicionais concentram impactos socioambientais.
Quilombo Santa Rosa como espelho do Corredor Carajás
Sediar o encontro no Quilombo Santa Rosa dos Pretos foi decisão política. O território enfrenta pressões fundiárias, impactos de infraestrutura e precariedade de serviços públicos que sintetizam desigualdades presentes ao longo do corredor logístico da mineração e do agronegócio que conectam os estados do Pará ao Maranhão.
A memória da liderança quilombola Anacleta Pires atravessou o encontro. Seu nome foi lembrado nas rodas de conversa e citado na carta final como referência de resistência. Recordar Anacleta não foi gesto simbólico apenas. Foi reafirmar a continuidade.
Para a quilombola Josi Pires, moradora do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, filha de Anacleta Pires, receber o II Pré-ERAM no território foi também um gesto de cuidado e fortalecimento:
“Quando a gente vê tantas mulheres chegando aqui, caminhando pelo nosso território, escutando nossa história, a gente sente que não está sozinha. Santa Rosa vive muita pressão, estrada, ferrovia, ameaça de novos projetos… Como seu Libânio sempre dizia, ‘entre a cruz e a espada, o que nos resta é escolher a espada e lutar’. Mas quando a gente se encontra assim, lembra da luta de Anacleta e vê outras comunidades passando por coisas parecidas, a gente ganha força para continuar.”
No sorriso de Josi, mora a memória do quilombo; na sua palavra, o compromisso de seguir lutando por Santa Rosa dos Pretos. | Foto: Aparecida Silva (Paré)Entre histórias de Anacleta e sonhos das novas gerações, Josi Pires reafirma que Santa Rosa dos Pretos segue de pé. | Foto: Aparecida Silva (Paré) Quando homens caminham ao lado das mulheres, a resistência se fortalece. Joércio “Leleco” Pires, presidente da APRQSRP e filho de Anacleta, contribui para acolher o II Pré-ERAM no quilombo. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
Da escuta nasce uma carta
Durante rodas de conversa e debates coletivos, as participantes elaboraram uma Carta Manifesto em solidariedade ao Quilombo Santa Rosa dos Pretos. O documento denuncia falta de acesso à água, saneamento, educação e renda, além de violência e ameaças a lideranças comunitárias.
Entre as reivindicações estão a reforma e ampliação da escola quilombola, melhorias na unidade de saúde, garantia de saneamento básico, aplicação de recursos da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) nas comunidades impactadas, políticas públicas de geração de renda e medidas de segurança na BR-135.
A carta foi encaminhada ao Governo do Estado do Maranhão, à Prefeitura de Itapecuru-Mirim, às Secretarias Estadual e Municipal de Educação, às Secretarias Municipais de Saúde e de Igualdade Racial, com cópia ao Ministério Público e à Defensoria Pública, além das organizações que acompanharam o encontro.
Mais do que uma lista de demandas, o documento representa o compromisso coletivo de acompanhamento das reivindicações.
Do começo ao fim da Estrada de Ferro Carajás (EFC)
Mulheres de diferentes regiões relataram impactos semelhantes. No Quilombo Santa Rosa dos Pretos, território pressionado por infraestrutura e ausência de políticas públicas. Na Ilha de São Luís, comunidades enfrentam expansão portuária e industrial. Experiências diferentes, mas dentro de uma mesma lógica.
Shirley Barbosa, da comunidade Rio dos Cachorros, em São Luís, integrante da Escola de Educação Popular da Justiça nos Trilhos (JnT) em parceria com o Grupo de Estudos Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA), disse que ouvir as companheiras foi como escutar a própria história.
“Quando eu escutei as mulheres falando da ferrovia, da estrada, das ameaças, eu penso logo lá no nosso território. No Rio dos Cachorros a gente também vive com medo de perder a terra, com porto chegando, empresa cercando… é o mesmo sofrimento.”
Shirley Barbosa, do Rio dos Cachorros, reconhece no encontro a própria história e fortalece a luta pela Resex Tauá-Mirim. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
Ela lembrou que a luta pela Resex Tauá-Mirim continua o caminho de muitas mulheres da comunidade, entre elas dona Máxima Pires. “A campanha da Resex não começou agora. Máxima já lutava por isso, para garantir que a gente pudesse viver do mangue, do rio, da nossa terra. A gente segue porque quer que nossos filhos e netos também possam viver aqui.”
Para Shirley, o encontro ajudou a perceber que as lutas estão ligadas. “A gente viu que o que acontece aqui acontece em muitos lugares. Quando a gente se junta, a gente fica mais forte e volta para casa com mais coragem para continuar lutando.”
A conexão entre mineração, ferrovia e porto reorganiza territórios e concentra impactos em comunidades negras e tradicionais. O encontro mostrou que experiências antes tratadas como isoladas fazem parte de um mesmo processo.
Formação política para o ERAM 2026
O II Pré-ERAM também serviu como preparação para o ERAM 2026. O encontro fortaleceu redes entre quilombolas, assentadas e mulheres de comunidades urbanas e ampliou a participação feminina nos debates sobre mineração e grandes projetos no Corredor Carajás.
Na roda de encerramento, a coordenadora política da Justiça nos Trilhos (JnT), Larissa Santos, destacou a importância da articulação coletiva e agradeceu às mulheres do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, às organizadoras e às participantes do encontro. Segundo ela, a realização do II Pré-ERAM só foi possível pelo esforço conjunto de mulheres de diferentes territórios e reafirma o compromisso de continuidade da mobilização.
“Vocês nos receberam com muito carinho e tornaram esse encontro possível. Agradeço em nome da Justiça nos Trilhos e de todas nós que trabalhamos de longe para que esse momento acontecesse. Quem chegou pela primeira vez seja bem-vinda, e quem já caminha com a gente desde outros encontros sabe que agora temos o compromisso de continuar essa articulação coletiva”, afirmou.
Durante o encerramento, Larissa recitou versos de Conceição Evaristo, “A voz da minha filha recolhe todas as nossas vozes… Na voz de minha filha se fará ouvir o eco da vida-liberdade”, para destacar a continuidade das lutas entre gerações e a força da organização coletiva das mulheres nos territórios impactados.
Com palavras de cuidado e coragem, Larissa Santos reconhece a acolhida de Santa Rosa e convoca as mulheres a seguirem juntas na caminhada até o ERAM 2026. | Foto: Aparecida Silva (Paré)
O encontro funcionou como espaço de formação política, escuta e articulação. As participantes definiram encaminhamentos para acompanhar a execução das políticas públicas reivindicadas, ampliar a presença das mulheres em audiências públicas e fortalecer a articulação entre territórios.
Mais do que um evento, o II Pré-ERAM consolidou uma agenda coletiva de enfrentamento aos racismos nos territórios atravessados pelo Corredor Carajás, articulando memória, cuidado e ação política para os próximos passos da mobilização.
Comentários