Encontro histórico na Ilha de Tauá-Mirim marca 22 anos de resistência e pode acelerar decisão federal sobre reserva extrativista estratégica para a Amazônia costeira.
Berço da vida marinha, o manguezal é um ecossistema essencial para a biodiversidade costeira. Foto: João Victor, 2024
Nesta quarta-feira, 13 de agosto de 2025, as comunidades de Portinho e Jacamim, na Ilha de Tauá-Mirim, serão palco de um encontro histórico em defesa da criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim. A atividade integra as ações da Campanha pela Decretação da Resex Tauá-Mirim e contará com a presença de Mauro Pires, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de lideranças comunitárias, representantes do governo federal, apoiadores da causa socioambiental e organizações parceiras.
A programação começa às 12h30, na comunidade Portinho, com rodas de conversa e almoço coletivo. Às 14h30, o encontro segue para Jacamim, onde acontecerá um momento especial de articulação política e troca de experiências entre as comunidades que compõem e cercam a área da Resex, junto a representantes de movimentos sociais, sindicatos, universidades e lideranças políticas engajadas na luta.
Entre as presenças confirmadas estão Fran Gonçalves, Rosana Mesquita, Manuela Nascimento e Franclin Freitas, vozes fundamentais na defesa do território e de seus modos de vida.
Um território ameaçado, uma luta por justiça socioambiental
Proposta pelas próprias comunidades tradicionais em 2003 e com estudos técnicos favoráveis concluídos em 2007, a Resex Tauá-Mirim é uma unidade de conservação de uso sustentável criada para proteger modos de vida baseados na pesca artesanal, no roçado, no manejo do mangue e na convivência harmônica com a floresta.
Sua criação é estratégica para assegurar a continuidade de recursos naturais como peixes, mariscos, água limpa e terra para plantio, além de conter o avanço de grandes empreendimentos que ameaçam a biodiversidade e a vida local.
A vida brota do território: em Taim, os moradores produzem alimento e pertencimento em diálogo com a natureza. Foto: Fran Gonçalves, 2025
Com a proximidade da 30ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-30), que será realizada em Belém do Pará, as comunidades reforçam que a assinatura do decreto federal da Resex Tauá-Mirim é uma ação urgente e simbólica, coerente com os compromissos assumidos pelo Brasil em defesa da justiça climática e da soberania dos povos tradicionais.
“A Resex Tauá-Mirim não é só uma demanda das comunidades. É uma resposta necessária à crise climática, à devastação ambiental e à violação dos direitos das populações que há séculos protegem a natureza com suas práticas tradicionais”, afirma Fran Gonçalves, da comunidade Taim.
Programação
(12h30) – Atividades iniciais e almoço na comunidade Portinho. (14h30) – Mesa de diálogo e articulação na comunidade Jacamim, reunindo autoridades, movimentos sociais e lideranças comunitárias.
O mangue é um emaranhado de vida — berço fértil onde a biodiversidade e resistência crescem lado a lado. Foto: João Victor, 2024
O objetivo é reafirmar a importância da Resex Tauá-Mirim e intensificar a pressão pela assinatura do decreto presidencial que oficialize a unidade de conservação. O evento é aberto ao público, especialmente estudantes, pesquisadores, ativistas ambientais, organizações da sociedade civil e todos que defendem os territórios tradicionais.
Cada fruto é herança viva da relação ancestral com a terra. Foto: Luana Appel, 2024
Comunidade na zona rural de São Luís reforça campanha por justiça ambiental e articula ações para o dia de lançamento e a Feira da Resex, mesmo diante dos impactos de grandes empreendimentos.
Fotos:Campanha Resex Tauá-Mirim Já
No último sábado, 5 de abril, a comunidade de Tauá-Mirim, na zona rural de São Luís (MA), recebeu uma visita de articulação e escuta como parte da mobilização pela campanha “Resex Tauá-Mirim Já”. A atividade teve como foco fortalecer o diálogo com os moradores sobre a urgência da criação da Reserva Extrativista e articular os preparativos da comunidade para a Feira da Resex, prevista para acontecer ainda neste mês.
A ação envolveu representantes de diversas organizações parceiras, entre elas o Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA), a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a Associação Tijupá e a Justiça nos Trilhos (JnT).
A acolhida foi calorosa. Os visitantes foram recebidos pelos moradores e pelo padre Brayan, da Paróquia de Boa Viagem, que celebrava a missa naquele dia. Antes da celebração, foram distribuídos panfletos informativos da campanha. Ao final da missa, Alberto Cantanhede (Beto – Taim), pescador e integrante do Movimento Nacional dos Pescadores (Monape) e da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem), compartilhou com os presentes os objetivos da campanha e reforçou o convite para o lançamento oficial, no dia 26 de abril, no centro de São Luís.
“Trata-se de um território historicamente ocupado por famílias que vivem do extrativismo, da pesca artesanal e da agricultura familiar. A criação da Resex é fundamental para proteger essas formas de vida e garantir justiça ambiental para os povos e comunidades tradicionais da Ilha”, destacou Beto.
A fala foi reforçada pelo padre Brayan, que relacionou a defesa da Resex com os princípios da Campanha da Fraternidade 2025, propondo uma reflexão profunda sobre a ecologia integral. Em sintonia com os apelos do Papa Francisco, o padre também gravou um vídeo de apoio à campanha.
Em paralelo, estão sendo realizados diálogos e visitas in loco às áreas produtivas onde se observam os impactos da poluição na produção de frutas nativas e cultivadas nos quintais, nos roçados, bem como na atividade pesqueira e na coleta de mariscos. As visitas revelaram a urgência de enfrentar os danos provocados por grandes empreendimentos nos territórios da zona rural da capital. Carlos Pereira, da Associação Tijupá, destacou os prejuízos diretos à produção de frutas na comunidade:
“Tauá-Mirim, a exemplo das demais comunidades da Resex, tem uma grande diversificação na produção, mas também é impactada pelos efeitos perversos da poluição provocada pelos grandes projetos nesse território. Observamos que ela tem sido uma das mais atingidas, especialmente em termos de perda na produção de frutas, tanto nas espécies plantadas — como os vastos bananais, que praticamente desapareceram devido a uma doença — quanto nas frutas nativas, muitas com perda total. Vale lembrar que, há pouco tempo, a comunidade levava polpa de frutas para a Feira da Resex. Hoje, infelizmente, isso já não é mais possível”, relatou.
Mesmo diante das dificuldades, os moradores receberam com entusiasmo a proposta de se reorganizar para a Feira da Resex, espaço de celebração da resistência e dos saberes tradicionais. Uma comissão local será formada para garantir que Tauá-Mirim esteja representada com sua memória viva — mesmo que muitos de seus frutos não estejam mais presentes.
A visita foi encerrada com uma foto coletiva e a gravação de vídeos em apoio à campanha. Com gestos simples e firmes, Tauá-Mirim reafirma seu lugar na história de luta pelo reconhecimento dos territórios tradicionais da Ilha, transformando dor em mobilização e cuidado em resistência.
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