Hoje é o último dia para apoiar a petição que visa proteger 16 mil hectares de manguezais, rios e florestas na Amazônia Maranhense, ameaçados por grandes empreendimentos.
Cada fruto é herança viva da relação ancestral com a terra. Foto: Luana Appel, 2024
Hoje (30) é o último dia para apoiar a petição que pede a criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim. Esse território é fundamental para proteger a vida dos povos tradicionais, preservar a biodiversidade e conter a destruição causada por grandes empreendimentos.
Localizada na zona rural de São Luís, Maranhão, a Resex Tauá-Mirim abrange mais de 16 mil hectares e um perímetro de 71,21 km, integrando a Amazônia Legal. As comunidades Taim, Rio dos Cachorros, Limoeiro, Porto Grande, Cajueiro, Vila Maranhão, Portinho, Jacamim, Amapá, Embaubal, Ilha Pequena e Tauá-Mirim vivem no território, somando cerca de 2.200 famílias.
A região é rica em florestas tropicais, rios extensos e manguezais, ecossistemas essenciais que atuam na captura de carbono e gases de efeito estufa. Os manguezais também funcionam como berçário natural para aves, peixes e crustáceos, sendo classificados como Zona Úmida de Proteção Internacional.
As principais atividades econômicas das comunidades incluem pesca artesanal, agricultura familiar e extrativismo vegetal, práticas sustentáveis que contribuem diretamente para a conservação ambiental. A oficialização da Resex garantiria uso sustentável do território e melhores condições de vida para as famílias locais.
Desde 2003, essas comunidades lutam contra grandes empreendimentos, como portos, rodovias, ferrovias e indústrias de alumínio voltadas à exportação de commodities, que provocam poluição, degradação ambiental e adoecimento. A morosidade do Estado na decretação da reserva favorece a expansão desses projetos, ameaçando todo o ecossistema da ilha de São Luís.
Pela proteção dos manguezais, águas e florestas, a mobilização da sociedade civil é crucial. Cada assinatura na petição é uma voz em defesa da Amazônia Maranhense e dos direitos das comunidades tradicionais.
Às vésperas da COP-30, petição pela decretação da reserva se aproxima de 70 mil assinaturas e ecoa o apelo das comunidades tradicionais
Sob a copa da grande árvore, comunidades, apoiadores e autoridades se reuniram em torno da esperança e da luta pela Resex Tauá-Mirim. | Foto: Ana Mendes
A luta pela criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim ganha novo fôlego. Em agosto, a comunidade de Portinho, na zona rural de São Luís (MA), recebeu o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Mauro Pires, em uma visita histórica que marcou um dos momentos mais importantes da mobilização das comunidades tradicionais em 22 anos. O encontro, carregado de simbolismo e vozes ancestrais, renovou esperanças e deu visibilidade à luta contra grandes empreendimentos que ameaçam o território.
O céu cinza e a chuva repentina quebraram a rotina de agosto, mês em que, segundo os moradores, o sol costuma reinar. A mudança climática coincidiu com a abertura da roda de conversa conduzida por Rosana Mesquita, liderança da comunidade, que lembrou que a criação da Resex Tauá-Mirim é mais do que proteger a natureza humana: é cuidar de todos os seres.
Rosana Mesquita, da comunidade Rio dos Cachorros, conduz a roda de conversa e lembra que proteger a Resex é cuidar de todos os seres. | Foto: Ana Mendes
“Os mais velhos dizem que a chuva é bênção, mas hoje ela também nos alerta que as mudanças climáticas já estão em curso e que temos a responsabilidade de cuidar dessa terra”, disse Rosana, dando o tom de um encontro que reuniu dezenas de moradores, representantes de movimentos sociais, sindicatos, universidades, apoiadores da causa socioambiental e autoridades, entre elas Mauro Pires, presidente do ICMBio.
Agora, em setembro, a mobilização se amplia com força ainda maior. A petição pela decretação da Resex se aproxima de 70 mil assinaturas, transformando o apelo local em um coro que ecoa em São Luís, no Brasil e no mundo. Mais do que uma reivindicação territorial, a Resex Tauá-Mirim se afirma como bandeira de justiça socioambiental e como território vivo e estratégico para a Amazônia costeira.
Vozes da resistência
Na roda de diálogo, a memória e a experiência das comunidades deram corpo à luta. Lucilene Silva, da comunidade de Cajueiro, recordou a lógica predatória dos grandes empreendimentos que ameaçam o território:
“Prometem riquezas, mas eles vêm tirar nossas riquezas. Não precisamos desses empreendimentos. Nós já somos ricos; nossos quintais têm tudo que precisamos para viver.”
Representante do ICMBio relembra seu contato com Maria Máxima e reconhece a importância da Resex como pulmão de São Luís e símbolo de resistência. | Foto: Ana Mendes
Também ecoou a lembrança de dona Máxima Pires, liderança da comunidade Rio dos Cachorros, falecida vítima de câncer, mas que deixou uma marca profunda na luta:
“A Resex Tauá-Mirim é o pulmão de São Luís”, dizia em suas últimas falas públicas.
Para os presentes, sua ausência física foi compensada pela presença simbólica de sua voz, lembrada como guia espiritual da mobilização.
Visita inédita: um dia que entra para a história
A ida do presidente do ICMBio à comunidade de Portinho foi considerada um marco histórico. Pela primeira vez em anos, a principal autoridade federal responsável por criar e gerir unidades de conservação esteve no território, ouvindo diretamente das comunidades suas demandas, denúncias e propostas.
“Essa presença é simbólica e prática. Simbólica porque reconhece a legitimidade da luta; prática porque aproxima a tomada de decisão da realidade vivida aqui”, avaliou Fran Gonçalves, liderança da comunidade Taim e integrante do Conselho Gestor da Resex.
Fran Gonçalves, liderança da comunidade Taim, reforça que a Resex é uma conquista necessária para garantir vida e futuro às comunidades da Ilha. | Foto: Ana Mendes
O encontro no Portinho foi marcado por falas potentes, cantorias e um almoço coletivo, fortalecendo os laços entre as comunidades e os aliados presentes. Ao final, a chuva que caiu naquele dia não foi coincidência, mas um recado de que a luta pela Resex Tauá-Mirim segue viva e capaz de ecoar até Brasília e para o mundo.
Durante o encontro, Mauro Pires declarou:
“É uma honra estar aqui, entre vocês, ouvindo as histórias, os saberes e a memória ancestral que fazem desse conjunto de comunidades, que se reconhece como Resex Tauá-Mirim, antes mesmo da sua decretação, um território único. O ICMBio reconhece o valor ambiental, cultural e social deste território e vê na proposta da Resex Tauá-Mirim uma oportunidade de garantir o uso sustentável dos recursos, proteger a biodiversidade e fortalecer os modos de vida tradicionais. Estamos atentos e comprometidos a trabalhar junto às comunidades para que este sonho de décadas se torne realidade, garantindo justiça socioambiental, proteção do mangue e o bem-estar das gerações presentes e futuras.”
O presidente do ICMBio, Mauro Pires, veste a camisa da campanha Resex Tauá-Mirim Já, em gesto simbólico de reconhecimento à luta das comunidades. | Foto: Ana Mendes
22 anos de espera
A proposta de criação da Resex Tauá-Mirim nasceu em 2003, construída pelas próprias comunidades tradicionais. Quatro anos depois, em 2007, os estudos técnicos do ICMBio confirmaram a viabilidade da unidade de conservação de uso sustentável, voltada a proteger modos de vida como a pesca artesanal, o cultivo no roçado e o manejo do mangue.
Desde então, o decreto presidencial que oficializa a Resex aguarda assinatura, enquanto o território enfrenta pressões crescentes de empreendimentos que ameaçam o mangue, a biodiversidade e a qualidade de vida das 12 comunidades que compõem a área.
Coletivo Nós marca presença no encontro, reforçando a representatividade política e o compromisso com as comunidades que lutam pela criação da Resex Tauá-Mirim. | Foto: Ana Mendes
Mangue, clima e futuro
A criação da Resex é estratégica para garantir a continuidade de recursos naturais essenciais, como peixes, mariscos, água limpa e terra para plantio, além de funcionar como barreira contra a destruição ambiental.
Com a COP-30, marcada para novembro em Belém (PA), as lideranças destacam que decretar a Resex Tauá-Mirim seria um gesto concreto de compromisso do Brasil com a justiça climática e a soberania dos povos tradicionais.
O professor Horácio Antunes, do GEDMMA/UFMA, destaca a importância de que a pesquisa acadêmica caminhe junto às comunidades em defesa do território. | Foto: Ana Mendes
“O direito de viver está sendo roubado. Todos os dias somos saqueados. Isso não afeta só quem vive na Resex, mas toda a Ilha de São Luís e o mundo”, reforçou Rosana Mesquita.
Petição pela Resex Tauá-Mirim será encerrada: último chamado à mobilização
Lançada em 26 de abril de 2025, a petição pela decretação da Resex Tauá-Mirim será encerrada em 30 de setembro. Com quase 70 mil assinaturas, a iniciativa transformou o apelo das comunidades tradicionais em um coro que ecoa por São Luís, pelo Brasil e pelo mundo.
A Resex Tauá-Mirim se afirma como símbolo de resistência na capital maranhense e como uma bandeira que conecta o local e o global: um território vivo que clama por reconhecimento, proteção e futuro.
As lideranças reforçam que cada assinatura faz diferença na luta pelo reconhecimento do território, essencial para a preservação da biodiversidade, a pesca artesanal e o modo de vida das 12 comunidades que compõem a reserva.
Encontro histórico na Ilha de Tauá-Mirim marca 22 anos de resistência e pode acelerar decisão federal sobre reserva extrativista estratégica para a Amazônia costeira.
Berço da vida marinha, o manguezal é um ecossistema essencial para a biodiversidade costeira. Foto: João Victor, 2024
Nesta quarta-feira, 13 de agosto de 2025, as comunidades de Portinho e Jacamim, na Ilha de Tauá-Mirim, serão palco de um encontro histórico em defesa da criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim. A atividade integra as ações da Campanha pela Decretação da Resex Tauá-Mirim e contará com a presença de Mauro Pires, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de lideranças comunitárias, representantes do governo federal, apoiadores da causa socioambiental e organizações parceiras.
A programação começa às 12h30, na comunidade Portinho, com rodas de conversa e almoço coletivo. Às 14h30, o encontro segue para Jacamim, onde acontecerá um momento especial de articulação política e troca de experiências entre as comunidades que compõem e cercam a área da Resex, junto a representantes de movimentos sociais, sindicatos, universidades e lideranças políticas engajadas na luta.
Entre as presenças confirmadas estão Fran Gonçalves, Rosana Mesquita, Manuela Nascimento e Franclin Freitas, vozes fundamentais na defesa do território e de seus modos de vida.
Um território ameaçado, uma luta por justiça socioambiental
Proposta pelas próprias comunidades tradicionais em 2003 e com estudos técnicos favoráveis concluídos em 2007, a Resex Tauá-Mirim é uma unidade de conservação de uso sustentável criada para proteger modos de vida baseados na pesca artesanal, no roçado, no manejo do mangue e na convivência harmônica com a floresta.
Sua criação é estratégica para assegurar a continuidade de recursos naturais como peixes, mariscos, água limpa e terra para plantio, além de conter o avanço de grandes empreendimentos que ameaçam a biodiversidade e a vida local.
A vida brota do território: em Taim, os moradores produzem alimento e pertencimento em diálogo com a natureza. Foto: Fran Gonçalves, 2025
Com a proximidade da 30ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-30), que será realizada em Belém do Pará, as comunidades reforçam que a assinatura do decreto federal da Resex Tauá-Mirim é uma ação urgente e simbólica, coerente com os compromissos assumidos pelo Brasil em defesa da justiça climática e da soberania dos povos tradicionais.
“A Resex Tauá-Mirim não é só uma demanda das comunidades. É uma resposta necessária à crise climática, à devastação ambiental e à violação dos direitos das populações que há séculos protegem a natureza com suas práticas tradicionais”, afirma Fran Gonçalves, da comunidade Taim.
Programação
(12h30) – Atividades iniciais e almoço na comunidade Portinho. (14h30) – Mesa de diálogo e articulação na comunidade Jacamim, reunindo autoridades, movimentos sociais e lideranças comunitárias.
O mangue é um emaranhado de vida — berço fértil onde a biodiversidade e resistência crescem lado a lado. Foto: João Victor, 2024
O objetivo é reafirmar a importância da Resex Tauá-Mirim e intensificar a pressão pela assinatura do decreto presidencial que oficialize a unidade de conservação. O evento é aberto ao público, especialmente estudantes, pesquisadores, ativistas ambientais, organizações da sociedade civil e todos que defendem os territórios tradicionais.
Cada fruto é herança viva da relação ancestral com a terra. Foto: Luana Appel, 2024
Comentários