Estudantes da UFMA apresentam trabalho sobre a Justiça nos Trilhos na Semana Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros

Estudantes da UFMA apresentam trabalho sobre a Justiça nos Trilhos na Semana Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros

Grupo que apresentou o trabalho sobre a JnT.

Com o tema “Políticas Antirracistas no Mundo Através das Ações do Movimento Social: organizações e intersecções de raça, gênero e classe”, os/as estudantes da primeira Licenciatura Interdisciplinar em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus São Luís, escolheram a Justiça nos Trilhos (Jnt) como um dos movimentos pesquisados e apresentados na Semana Interdisciplinar dos Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, que ocorre com base nos eixos interdisciplinares que fazem parte da estrutura curricular do curso, buscando debater e interligar as disciplinas em experiências político pedagógicas, com cada eixo sendo trabalhado em anos diferentes ao longo da graduação. 

“O nosso curso se propõe a ser interdisciplinar, são várias disciplinas ali que conversam. A gente lida com geografia, sociologia, filosofia, história… Então, o eixo interdisciplinar vai juntar essas disciplinas e formar o que vamos trabalhar. Esse ano foi movimentos sociais, ano passado, cinema, ano retrasado, literatura. Estamos sempre procurando esses atores afrodiaspóricos que produzem essas disciplinas e materiais”, explica a estudante do curso, Bruna Mesquita. Fatores como esses justificam a escolha de Justiça nos Trilhos como organização estudada no eixo desse ano, que fala de movimentos sociais.

O grupo que pesquisou a JnT era composto por Lucas Lira, Júlia Alves, Leonardo dos Santos, Marcelo Cardoso e Margareth Almeida. A Semana Interdisciplinar dos Estudos Africanos e Afro-Brasileiros aconteceu nos dias 03 e 04 de novembro, com os trabalhos apresentados no dia 4. 

II Intercâmbio Comunitário entre Piquiá de Baixo e Quilombo Rampa é marcado por vivências em comunicação popular ao som do tambor

II Intercâmbio Comunitário entre Piquiá de Baixo e Quilombo Rampa é marcado por vivências em comunicação popular ao som do tambor

Primeira edição do intercâmbio entre as comunidades aconteceu no início do mês de abril em Piquiá de Baixo, Açailândia (MA)

No centro do mundo, os moradores e moradoras experimentam o tempo de forma diferente. Há calma para acordar e despertar, buscar a água no brejo e preparar o café, realizar os afazeres de casa e do trabalho, e ainda ter aquele tempo pra conversar com o vizinho, entre outras coisas. No Quilombo Rampa, em Vargem Grande (MA), a vida é sentida assim, no presente. A primeira lição que os jovens de Piquiá de Baixo aprenderam com essa vivência foi a respeitar esse tempo.

Em setembro, no mês passado, aconteceu a segunda etapa do Intercâmbio Comunitário entre os jovens de Piquiá de Baixo e Quilombo Rampa, dessa vez em Vargem Grande (MA), município localizado a aproximadamente 172 km da capital São Luís. Com o intuito de fortalecer os laços a partir dos coletivos, o objetivo da vivência, que durou dois dias, foi partilhar as experiências em comunicação popular, que ambas as comunidades exercem como um instrumento de luta e resistência.

Sem um cronograma detalhado, respeitando o tempo e o espaço da vivência em comunidade, os jovens de Piquiá puderam conhecer os moradores, a história do quilombo e alguns locais importantes como a escola, igreja e a TV Quilombo, palco de muitas entrevistas e notícias, que os medonhos, como é conhecido os ouvintes, assistem diariamente.

Comunicação Popular em Ação

No primeiro dia de atividades, foi realizada uma roda de conversa entre os jovens de Piquiá de Baixo e o Quilombo Rampa na pracinha local. Cerca de 40 pessoas, entre moradores e não moradores, se reuniram para conhecer as histórias de ambas as comunidades. A abertura da noite ficou por conta de Raimundo José, criador e um dos apresentadores da TV Quilombo. Na ocasião, foi apresentado vídeos sobre a cultura da comunidade, como o famoso Tambor na Mata, atividade muito aguardada que acontece uma vez por ano e reúne gente de dentro e fora do quilombo.

Após os vídeos, Raimundo introduziu a história de Piquiá de Baixo para as pessoas ao redor. Em seguida, a própria comunidade se apresentou e contou um pouquinho dos enfrentamentos que realizam há pelo menos quinze anos contra a poluição e violação dos direitos humanos ocasionados da Vale S.A e grandes empreendimentos ao redor. Alguns moradores de Piquiá, como a educadora popular Sebastiana Costa, o gestor ambiental João Paulo e o jornalista da Justiça nos Trilhos, José Carlos, também falaram sobre a comunidade.

No dia seguinte, os jovens de Piquiá fizeram uma visita à rádio TV Quilombo, criada em 2017 por Raimundo com a chegada da internet na comunidade. Formado em geografia e apaixonado por comunicação, Raimundo fez ressoar as vozes dos moradores e moradoras que vivem no quilombo, construindo um lugar em que possam tecer narrativas sobre eles mesmos.

TV Quilombo

A TV Quilombo surgiu inicialmente sem equipamento algum, e a equipe costumava fingir que estava gravando. Com o tempo, improvisaram câmeras feitas de papelão, tripés e drones construídos com bambu. O objetivo do projeto era falar sobre a cultura do quilombo e o dia a dia dos moradores; uma forma de preservar a cultura e os costumes a partir da comunicação. Na época de isolamento da Covid-19, o meio de comunicação servia para traduzir as informações sobre o que estava acontecendo na linguagem dos moradores.

Com uma equipe que reúne jovens da comunidade, a TV Quilombo é construída por cada um e cada uma que compartilha, ouve e realiza as reportagens para o meio de comunicação. Não existe uma reunião de pauta ou organização do que deve ser produzido ou mostrado. Até mesmo na comunicação, a comunidade respeita o seu próprio tempo. O entrevistado diz como vai ser a entrevista e a TV Quilombo segue como muita diversão e autenticidade.

No ritmo do tambor

No último dia, os ânimos ferveram com a noite do tambor no quilombo Bombilhete da Rampa, localizado a cerca de 7 km do Quilombo Rampa. Nessa mesma noite, acontecia o festejo de São Miguel, com uma procissão e reza pelos fiéis. Após a procissão, os homens e mulheres pegaram suas saias, posicionaram o tambor e começaram a festa.

Enquanto tocavam, os homens bebiam doses de cachaças e as mulheres e crianças rodavam suas saias no ritmo da música. O clima era de festa e o espaço lotou. Cada vez mais chegavam adultos e adolescentes a pé, de bicicleta, moto e carro para a festança. Não tinha hora pra acabar, e as pessoas seguiram cantando e dançando.

Comunidades rurais de Açailândia-MA fecham estrada e exigem melhorias por parte da prefeitura e de grandes empresas

Comunidades rurais de Açailândia-MA fecham estrada e exigem melhorias por parte da prefeitura e de grandes empresas

Na manhã desta terça-feira (09/08), moradores das comunidades de Francisco Romão, Agroplanalto e Planalto I, bloquearam a estrada vicinal da Sunil, zona rural de Açailândia (MA), reivindicando melhorias nas condições de acesso para moradores e estudantes da região, que convivem com forte poeira e buracos que os impedem de se deslocar em segurança, devido ao tráfego constante de veículos longos e carretas de grandes empresas como a Vale, Suzano, Viena Siderúrgica e de sojeiros.

Em 2019 os moradores da região fizeram um acordo com as empresas, com a participação da prefeitura e mediação do Ministério Público Estadual do Maranhão (MPE-MA), onde a prefeitura e as empresas prometeram levar melhorias, o que não ocorreu, a estrada permanece cheia de buracos, com lama durante as chuvas e trechos com difícil passagem. 

Os(as) moradores(as) dessas comunidades observam que as condições pioraram há pelo menos oito anos, em especial com o impacto da Suzano, que iniciou a extração de eucalipto próximo a essas comunidades, contribuindo para o aparecimento de buracos e lama durante o inverno, aumentando o risco de acidentes e dificultando o acesso à cidade, à saúde e às escolas.

Fila de carretas formada após a interdição

Buracos, lamas e forte poeira causada pelo tráfego de carretas, impede a visão dos motoristas

“As carretas da Suzano costumam passar pelo local e a gente tem que parar, e corre o risco de uma ou outra vir na contramão e bater na gente. Isso vem provocando um desgaste muito grande no acesso, porque a poeira é enorme. Por isso que as comunidades resolveram se mobilizar, para evitar um problema maior”, desabafa Francisco Martins, líder comunitário do assentamento Francisco Romão, localizado a 50 km de Açailândia.

Para os moradores, a intenção do bloqueio é pressionar as autoridades responsáveis e dialogar com a prefeitura municipal e as empresas, na busca de uma solução em conjunto, como a reforma da estrada. Segundo Francisco, um dos principais problemas é a falta de manutenção geral na estrada. Por apenas remendar os buracos após o inverno, os carros passam e afundam a estrada, causando mais problemas em um curto período de tempo. Isso põe em risco trabalhadores (as) e crianças de povoados mais distantes que se deslocam até as escolas. A solução é uma reforma na estrutura, que dê segurança aos passageiros.

Lídia da Conceição, do assentamento Agro Planalto, relata que os buracos enormes e a lama no inverno provocam a quebra dos carros, principalmente os que fazem linha para Açailândia, e muitos moradores chegam sujos de lama na cidade por conta do estado da estrada. “Devido a poeira causada pelo tráfego de carretas, o local fica perigoso de se deslocar, pois os carros pequenos não veem nada. Às vezes as carretas não querem dar passagem para outros motoristas”, complementa.

“A gente tá lutando pelos nossos direitos”

“A gente quer uma melhoria na estrada não só da parte da Suzano, mas das outras empresas, como os sojeiros, que utilizam essa estrada, e que o prefeito olhe com outros olhos pra gente aqui. Porque afinal de contas, a gente tá lutando pelos nossos direitos, não é porque a gente não tem o que fazer não. Mas se não for assim [por meio da mobilização], a gente não vai conseguir. Por isso que a gente tá aqui hoje”, esclarece Lídia.

Lídia explica os motivos da manifestação para representante da Suzano

Polícia Militar (PM) tenta negociar em nome das empresas e do poder público 

Após uma tentativa frustrada de liberação da estrada por parte de um representante da Suzano, a Polícia Militar  foi acionada chegando ao local por volta das 13h. 

Os policiais tentaram negociar dizendo que entrariam em contato com as empresas e com o secretário de infraestrutura de Açailândia. Às 14h uma viatura saiu e ficou outra no local. Às 16h a viatura voltou sem respostas e tentou mais uma vez desbloquear prometendo uma reunião e ameaçando fazer a remoção forçada caso o comandante autorizasse. 

Por volta das 16h, por fazer parte do acordo feito em 2019, o Ministério Público foi acionado pela Justiça nos Trilhos (JnT). Por causa do horário, informou que por não se tratar de matéria de plantão, não poderiam fazer nada ontem (09/08), mas que hoje (10/08), mandariam uma equipe ao local para apurar a situação.

Ameaças de reintegração forçada

Por volta das 16h, o PM identificado como Fernando que estava representando supostamente as empresas e o poder público, pois se colocou como interlocutor, informou que viria à cidade, faria uma ligação para o comando da PM em Imperatriz e retornaria para desobstrução da estrada caso fosse autorizado. 

Fernando (PM) conversando com os manifestantes momentos antes de sair do local

Os trabalhadores e as trabalhadoras rurais falaram que só sairão depois que acordo for cumprido e que a PM teria que usar a força para removê-los. 

O grupo  de manifestantes é composto  por mulheres, homens, jovens, idosos e crianças que moram nos assentamentos da região.

Até o momento da postagem dessa matéria, os moradores e moradoras dessas comunidades continuam bloqueando a estrada na busca pela garantia dessas melhorias.

Por Yanna Duarte e José Carlos Almeida



FOTOS: José Carlos Almeida