Série Mulheres em Luta pelo Bem Viver: Alzeneide Prates, assentamento Francisco Romão

Série Mulheres em Luta pelo Bem Viver: Alzeneide Prates, assentamento Francisco Romão

🌳 #SÉRIE – Mulheres em luta pelo Bem Viver – Alzeneide Prates, mais conhecida por Gabi, é mulher assentada, defensora dos direitos humanos e da natureza, estudante de Letras e uma das fundadoras da Casa das Mulheres Sementes da Terra, um coletivo que propõe políticas públicas direcionadas para mulheres no assentamento Francisco Romão, território onde reside.

✊🏿 Resistindo aos impactos da cadeia da mineração e do agronegócio, as mulheres de Francisco Romão sentem na pele, nos pulmões e na água os efeitos dos agrotóxicos e do monocultivo de soja, que têm expulsado as famílias do território. Composto em sua maioria por mulheres, elas se organizam e lutam com suas vozes e corpos por dias melhores.

🟣 Neste mês de março, trazemos algumas mulheres inspiradoras para refletir sobre a luta pelo Bem Viver e por terra, comida e moradia dignas.

Solidariedade e internacionalismo alimentam a luta entre os povos no Encontro de Movimentos Sociais da Rede-Desc, em São Luís (MA)

Solidariedade e internacionalismo alimentam a luta entre os povos no Encontro de Movimentos Sociais da Rede-Desc, em São Luís (MA)

Solidariedade e internacionalismo descrevem a visita ao território quilombola Santa Rosa dos Pretos. Foto: Mikaell Carvalho

“Um povo que não perdeu sua identidade e cultura, por isso, é um povo que não se pode exterminar”. Essa fala do companheiro indígena Francisco Rocael, do Conselho do Povo Maya de Occidente (Guatemala),  traz consigo a força das organizações sociais, comunidades e povos tradicionais reunidos no encontro da Rede Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que acontece esses dias em São Luís (MA), de 29 janeiro  a 02 de fevereiro.

A solidariedade, fraternidade e a luta pelo direito de pertencimento dos povos tem sido fortalecida entre as mais de 40 pessoas reunidas nesses cinco dias. Construído pela Rede Internacional para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais  (Rede DESC) em parceria com a Justiça nos Trilhos (JnT), o encontro movimenta pescadores artesanais, quilombolas, indígenas, trabalhadoras domésticas e sindicatos de mais de sete países, junto a organizações do Brasil, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e a União das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Itapecuru Mirim (Unicquita).

O principal objetivo do encontro é a partilha das diferentes realidades de lutas de companheiros e companheiras que enfrentam o capital e poder corporativo de mineradoras transnacionais, grandes empreendimentos Brasil afora e a violência e pobreza que se desenrola com o avanço do imperialismo.

Na terça (30), foi realizada uma visita à comunidade quilombola Santa Rosa dos Pretos, localizada no município de Itapecuru Mirim (MA), que enfrenta projetos de energia, a cadeia da mineração, a duplicação da BR 135 e o avanço do agronegócio em seu território. Já na quarta (31), a JnT alimentou o debate sobre o enfrentamento aos grandes projetos com as potentes participações de Kelly Barbosa (Piquiá de Baixo), Adriana Oliveira (Novo Oriente) e Vanussa Guajajara (T.I Rio Pindaré).

Kelly chamou atenção para a luta que a comunidade de Piquiá de Baixo em Açailândia (MA) sustenta pelo direito à memória, moradia digna e pela natureza. Neste ano de 2024, 312 famílias serão reassentadas para um novo bairro chamado ‘Piquiá da Conquista’, longe da poluição direta das siderúrgicas, empresas de cimento e outras inseridas na logística da mineração. 

Piquiá de Baixo, Novo Oriente e Terra Indígena Rio Pindaré reunidos.

Além de muita força para resistir aos grandes projetos, essas três mulheres possuem os corpos marcados por violências, que infelizmente se conectam. Vanussa Guajajara lembra que seu povo gosta de comer um peixe moqueado, gosta de pescar nos rios, ouvir histórias em rodas… E aí veio a mineração e as estradas, a de ferro e a BR, vidas sendo ceifadas pelos grandes caminhões que transportam a soja e os minérios pelas BRs e também a criminalização de lideranças pela mineradora Vale S.A. 

“Começaram essas violências e em vez de estarmos comendo Jabuti assado com farinha, temos que nos articular para defender os nossos territórios e nos manter unidos”, diz Vanussa.

“Sem território, os povos não são nada”

O discurso do desenvolvimento enunciado pelos projetos do agronegócio e da mineração o fazem a partir da tomada de territórios tradicionais e da devastação dos ecossistemas. Na visita à comunidade Santa Rosa dos Pretos, que ainda passa pelo processo de titulação pelo Incra, o direito à terra foi colocado como um dos pontos principais da luta de classes no Brasil e para os povos estrangeiros que ali estavam.

“Toda essa agressão que fazem contra nós se dá de maneira muito hipócrita em nome de um falso desenvolvimento. São projetos de minério, empresas, monocultivo”, disse Francisco Rocael durante um momento de partilha de realidades na comunidade.

Daniel Santi, líder do povo indígena Sarayaku da Amazônia Equatoriana, usou a sua voz para tratar da importância da permanência no território. “Temos de ter força de unidade. É essencial trabalharmos a titulação de território na estratégia jurídica, pautar a reforma agrária. Temos que ter uma estratégia de luta e comunicação a nível do Brasil e internacional. Precisamos internacionalizar [essa Rede] para que lá fora escutem a luta de Santa Rosa dos Pretos”

Organizações e movimentos sociais reunidos no primeiro dia de atividades da Rede Desc. Foto: Yanna Duarte

Para Santi, “sem o território, os povos não são nada”.  A água, o chão, os recursos naturais, tudo isso é o território para os povos tradicionais. As florestas e os bichos também são habitantes.

Durante a roda de conversa, o quilombola e educador popular da Justiça nos Trilhos (JnT), Joércio Pires, explicou como se dá esse desenvolvimento para as comunidades violadas:

Educador popular, Joércio Pires, fala sobre as lutas dentro da comunidade.

“Quando a Estrada de Ferro Carajás (EFC) passou [por nós] ela matou muita coisa. Não teve mais o igarapé, não tivemos mais acesso ao pescado, por isso, tivemos que comprar. E nós estávamos em outro processo [de modo de vida]”, denunciou ele. 

Fortalecimento Comunitário 

A Justiça nos Trilhos surge dentro dos territórios. Ela nasce a partir de Piquiá de Baixo, na Terra Indígena Rio Pindaré, no quilombo Santa Rosa dos Pretos e outras comunidades ao longo da EFC, alimentando o fortalecimento da memória e construindo junto aos povos e comunidades as resistências que vão romper as violências. 

Para o educador popular e defensor dos direitos humanos, Alaíde Abreu, o papel do fortalecimento comunitário na organização, sendo um dos quatro eixos de atuação da instituição, é feito com os olhos e os sentidos direcionados ao outro.

Nosso trabalho acontece a partir do “sentimento de pertencimento ao território e à vida das pessoas, a sensibilidade de ver, ouvir e sentir o que as pessoas sentem e vivem. Ser solidário com as lutas, acolher a realidade… A partir disso, vamos pensando juntos, como atores sujeitos das nossas intervenções, mecanismos de mudanças da realidade”, descreve ele. 

Confira um pouco dos momentos registrados durante o encontro:

Fotos: Mikaell Carvalho

 “Honra Medonha”: Raimundo Quilombo na lista dos 50 jornalistas pretos mais admirados do Brasil

 “Honra Medonha”: Raimundo Quilombo na lista dos 50 jornalistas pretos mais admirados do Brasil

Raimundo utiliza a comunicação popular para falar da cultura de seu povo, e denunciar violações.

Raimundo José, licenciado em geografia pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), é jornalista quilombola e defensor da natureza e dos direitos humanos. O comunicador popular utiliza essa ferramenta para dar visibilidade e disputar as narrativas a partir de seu próprio povo, cultura e ancestralidade. Fundador da TV Quilombo Rampa, ele narra com a sua voz e criatividade, o dia-a-dia do Quilombo Rampa, localizado próximo ao município de Vargem Grande, no Maranhão. Recentemente, o maranhense saiu na lista dos +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira. O prêmio é uma iniciativa do Jornalistas&Cia em parceria com 1 Papo Reto, Neo Mondo e Rede JP de Jornalistas pela Diversidade na Comunicação, para homenagear e reconhecer o trabalho de jornalistas negros e negras da imprensa brasileira. É realizado por meio de uma eleição em dois turnos de votação aberta a todo o ecossistema do Jornalismo e da Comunicação. Em depoimento à Justiça nos Trilhos, o comunicador popular fala da comunicação como instrumento de sobrevivência e luta, e qual lugar que ela ocupa na sua vida e comunidade.

R.J.: “Fala, galera medonha! Raimundo Quilombo na voz da Rádio TV Quilombo Rampa. Eu ter ficado entre os 50 jornalistas pretos mais admirados da imprensa brasileira, para mim, foi uma honra medonha! Ainda mais porque a gente já está fazendo há tantos anos esse trabalho voltado para comunicação popular, de dar visibilidade para as comunidades, tanto na luta contra o racismo, contra o preconceito, contra todas as formas de violações de direitos.

Em uma luta que é a favor da saúde, da educação, a gente sempre levanta essa bandeira da comunicação popular. [Para mim], a Comunicação Popular é como uma ferramenta de transformação de vidas. Ela tem sido uma das formas que está mantendo as comunidades cheias de esperança: esperança de dias melhores, esperança de um presente melhor, esperança que passa por várias situações, entre as principais, o querer viver bem, o querer viver tranquilo em suas comunidades, em seus territórios, livre de perseguições políticas, livre de perseguições de empresas, do latifundiário, ou seja, todas essas práticas maldosas que atravessam nossos povos e comunidades tradicionais.

Então, para mim [o prêmio], soou como muito importante. A gente prega o uso da tecnologia, tecnologia ancestral, fazendo com que a tecnologia moderna se adapte a essa realidade e seja mais uma ferramenta que possa contribuir na nossa luta diária. Eu fiquei muito feliz, e um dos motivos da minha felicidade é saber que a comunicação popular está no caminho certo, e a gente tem feito esse trabalho, e cada dia mais isso nos motiva a permanecer nessa linha de atuação, que é vida, que é a comunicação do respeito, que é a comunicação como deve se comunicar; levando em consideração que tudo na comunidade pode ser visto, tudo pode ser mostrado. É respeitando também o que deve ser e o que não deve ser filmado, e denunciando mesmo aquilo que tem que ser denunciado e cobrado.

Então, para a gente que faz comunicação popular, estar entre os 50 jornalistas pretos da imprensa brasileira mais admirados do Brasil, nesse Brasil gigante, para nós muito importante, porque fortalece a nossa luta coletiva, para usar a comunicação popular como uma comunicação real que ela é, não como uma comunicação que o pessoal pensa que é secundária, que não tem relevância. A gente mostra a partir daí que a comunicação popular é uma potência e ela fala de realidade, porque fala na proteção de vidas.”

Na premiação, que aconteceu no dia 13 de novembro, o comunicador agradeceu ao prêmio em postagem no instagram: “Dedico a todas comunidades quilombolas, indígenas e povos e comunidades tradicionais que acreditam e tem a comunicação popular como uma importante e necessária ferramenta na luta contra as mais diversas violações de direitos”, finalizou.

Por Yanna Duarte e Lanna Luiza