“Esses pretos são danados”: um cordel sobre Santa Rosa

“Esses pretos são danados”: um cordel sobre Santa Rosa

Neste cordel contado, a jovem quilombola Fabiana narra um pouco da história do Território Quilombola Santa Rosa dos Pretos, onde ela nasceu e vive. O cordel foi escrito por Joércio Pires e Anacleta Pires, e complementado por Fabiana, porque as coisas no quilombo são assim, vivas e em contínuo processo de transformação para a vida mais completa. As/os jovens da foto são os pretos danados do Coletivo Agentes Agroflorestais Quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, que recuperam as matas, igarapés e buscam autonomia política e alimentar para a coletividade do quilombo. 

O colonial nunca acabou

O colonial nunca acabou

Prova de que o período colonial nunca teve fim para povos originários e quilombolas é que as expropriações de seus corpos e territórios continuam desde 1500, cada vez mais violentas e pelas mãos de diferentes colonizadores – empresas e governos subalternos – que se alternam e se apoiam no saque, seja por meio do trabalho escravo, por meio da invasão das terras indígenas e quilombolas, da destruição de seus rios e matas, seja por meio de processos abertos por empresas contra lideranças de povos tradicionais que lutam por seus direitos, na tentativa de silenciá-las, como os colonizadores fazem desde o século 16 nas Américas.

Há mais de 80 anos, as e os quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim, Maranhão, enfrentam a poluição, assoreamento e aterramento de seus cursos d´água, como igarapés e rios, seja pela Estrada de Ferro Carajás, da transnacional de mineração Vale S.A., seja pela estrada de ferro Transnordestina, pelos três linhões de energia da Eletronorte e dois da CEMAR (Companhia Energética do Maranhão), seja pela BR 135, do governo federal.

Todos esses grandes empreendimentos violam o direito à água dos quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, que também perdem sua fonte alimento e renda ao ficarem sem os peixes que sempre pescaram. Os empreendimentos também retalham o território quilombola, roubam porções de terras produtivas, causam poluição sonora, do ar, e centenas de mortes por atropelamento no caso da BR e das estradas de ferro.

As lideranças de Santa Rosa dos Pretos vem denunciando essas violações há anos, em diversas instâncias dos órgãos públicos, na imprensa, nas discussões junto a movimentos sociais e entidades aliadas da luta. 

Em 2011, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou uma Ação Civil Pública (ACP) contra Vale S.A. e Ibama por violações cometidas por ambos contra quilombolas de Santa Rosa dos Pretos na duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC), da Vale.

A transnacional foi condenada em 2012 a realizar uma série de reparações e ações de mitigação dos impactos causados. Entre as reparações, está a recuperação de um igarapé que a empresa concretou e fez praticamente secar – o igarapé tinha fama entre os quilombolas por ser rico em peixes e de não secar nunca, nem durante o verão nordestino.

Sete anos depois da condenação, a empresa nunca recuperou o igarapé e nem cumpriu com a maioria das obrigações às quais foi obrigada em juízo. Segue impune, como os colonizadores de 1500. 

Santa Rosa dos Pretos, terra de sementes

Santa Rosa dos Pretos, terra de sementes

O Território Quilombola Santa Rosa dos Pretos fica no município de Itapecuru-Mirim, na região norte do estado do Maranhão. Formado por 20 quilombos, o território concentra cerca de 850 famílias, uma média de quatro mil pessoas. 

As e os quilombolas de Santa Rosa estão diretamente ligados a homens e mulheres sequestrados na Guiné-Bissau no século 18 e trazidos à força para serem escravizados nas fazendas de cana de açúcar e algodão do invasor irlandês Lancelot Belfort. Com a decadência da produção, o invasor abandonou as fazendas em fins do século 18 e registrou uma “doação” das terras – das terras que ele roubou dos indígenas – às mulheres e homens da Guiné-Bissau que ele escravizou.

Como sementes, aquelas mulheres e homens permaneceram na terra, cuidando dela, recuperando-a, cultivando-a, preservando os incontáveis igarapés e matas que existiam e ainda existem na região e que a tornam rica em água, frutos e animais.

Hoje, as quilombolas de Santa Rosa dos Pretos seguem sendo sementes, protegendo e cuidando do que ainda resta da natureza viva e rica, e que nunca deixou de ser roubada pelos invasores, sejam os colonizadores de antes ou os de agora, como a mineradora transnacional Vale S.A. e governos coniventes com suas atividades que saqueiam e esgotam, para lucro privado, o que deveria servir à vida coletiva dos humanos e outros seres vivos.

Conheça um pouco mais sobre a história do Território Quilombola Santa Rosa dos Pretos nesta publicação do Incra: