Piquiá de Baixo: o conflito

Piquiá de Baixo: o conflito

O principal rio que passa pela comunidade, o Rio Piquiá recebe desde a década de 1980 a água utilizada pelas siderúrgicas para os processos de lavagem e resfriamento do ferro. Essa água é descartada no rio sem nenhum tipo de tratamento, a uma temperatura de 37o C e com presença de resíduos tóxicos. Esse impacto afeta diretamente os modos de vida da população, pois as siderúrgicas rompem com uma relação entre moradores e o rio. Desesperados por esse impacto e por tantos outros, sobretudo na vida de crianças, gestantes e idosos, os moradores de Piquiá de Baixo, em referendo realizado em 2008, decidiram por unanimidade que a solução mais eficaz seria o reassentamento para um local livre dos impactos socioambientais.

Hoje, com os serviços de terraplanagem, abertura do poço, rede de abastecimento e a construção de uma casa modelo o reassentamento de Piquiá enfrenta sérios problemas. O Governo Federal adotou uma política de cortes dos gastos públicos, que atingiram o projeto de reassentamento e causa atraso das obras.Os moradores sempre realçam que nunca teriam desejado deixar suas terras e compreendem essa necessidade como o “mal menor” frente à violência dos impactos socioambientais da região.

De toda forma, a luta em Piquiá é mais ampla que o reassentamento e exige a eliminação definitiva e permanente das emissões tóxicas, bem como recuperação das áreas degradadas e maior distribuição e diversificação dos empregos e da renda na região.

Reassentamento coletivo: a disposição para a luta de Piquiá

Reassentamento coletivo: a disposição para a luta de Piquiá

Há mais de 10 anos a comunidade se organiza em busca de um reassentamento coletivo. Desde 2007 são acompanhados pela Rede Justiça nos Trilhos e a partir de 2010 recebem a assessoria técnica da Usina CTAH. Em 2013, após muita luta, os moradores conquistaram a desapropriação de um terreno para a construção do novo bairro, longe da poluição. 

Esses anos foram vivenciados com tentativas de diálogos, denúncias, manifestações e um trabalho diário de busca pela garantia de direitos. A Associação Comunitária dos Moradores/as de Piquiá recorreu ao único programa de habitação do Brasil, o Minha Casa Minha Vida, para conseguirem um financiamento. A modalidade do Programa “Entidade” possibilitou a autogestão da obra conforme os princípios e sonhos da comunidade. 

Mas tudo isso só foi possível pelo envolvimento de muitos dos moradores no exercício da pressão popular e da livre manifestação. As siderúrgicas e a mineradora Vale, presentes na comunidade desde a década de 1980 violam todos os direitos da população e a luta é fazer com que esses sejam responsabilizados por tais violações. A luta também denuncia a corresponsabilidade dos governos do Município de Açailândia e do Estado do Maranhão.

“Quando a gente não espera mais a água limpa que cai do céu…”

“Quando a gente não espera mais a água limpa que cai do céu…”

A chuva é um fenômeno impressionante! É a natureza conversando com a gente e dizendo que fazemos parte dela e estamos nela. Chuva é bem para nós, é bem para a terra. É comum que o anunciar da chuva nos faça olhar para o céu a espera de água, água limpa. Em Piquiá de Baixo não é bem assim… 

Em Piquiá de Baixo a chuva é carregada de poluição, de pó de ferro que vem das siderúrgicas, que vem dos vagões dos trens da Vale. A criança e o jovem do presente não esperam mais a água limpa que cai do céu. Em Piquiá de Baixo, há a normalidade de colocar um copo no tempo e esperar água preta. É água com pó de ferro. É água que encontra no caminho imensas quantidades de poeira preta, de minério de ferro. Quando chove, o que o povo de Piquiá sente é a certeza de um lugar poluído.

A chuva é passageira. O pó de ferro é diário. E tem sido assim há mais de três décadas… Mas, em Piquiá de Baixo também permanece a esperança da mudança. O Piquiá da Conquista [um projeto de reassentamento] é a luta das gerações mais velhas e o futuro das novas. O futuro no Piquiá da Conquista será o da espera da chuva limpa que cai do céu, que vai para a terra, para as plantas, para os rios e igarapés e que banha o corpo de cada morador e moradora. O Piquiá vai conquistar o direito de sentir o cheiro de terra molhada quando os primeiros pingos de chuva anunciarem uma nova estação. E depois de cada chuva, o céu vai aparecer e o sol vai brilhar ou a noite vai chegar sem serem encobertos pelo pó de ferro.