Piquiá de Baixo é uma comunidade localizada no Município de Açailândia, estado do Maranhão, no Nordeste brasileiro.Cerca de 1.100 pessoas que moram em Piquiá sofrem cotidianamente com a poluição do ar, da água, do solo e a poluição sonora de empresas siderúrgicas que se instalaram ao redor das casas, no final dos anos 80. A isso se somam as operações de transporte, descarregamento e carregamento de minério de ferro e lingotes de ferro-gusa pela empresa Vale S.A(uma das maiores mineradoras do mundo).
Com a chegada das empresas os moradores denunciam uma série de violações de direitos sofridas em Piquiá de Baixo: doenças respiratórias, oftalmológicas e dermatológicas, queimaduras graves e fatais, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, ausência de infraestrutura básica, falta de acesso à informação e risco à liberdade de expressão, dentre outros.
Todos esses problemas são mencionados no relatório “PIQUIÁ FOI À LUTA: Um balanço do cumprimento das recomendações para abordar as violações aos direitos humanos relacionadas à indústria da mineração e da siderurgia em Açailândia, Brasil”, realizado por FIDH e JnT.
A comunidade de Piquiá de Baixo, no Maranhão (Brasil), tem uma história emblemática que vale a pena ser contada ao Sínodo da Amazônia.
É vítima da mineração e da siderurgia, no contexto do Programa Grande Carajás, que extrai minério de ferro do coração da Amazônia para exportá-lo, atravessando 900 km entre os estados do Pará e Maranhão, até Cina, Japão, Europa e Estados Unidos.
Momento em que Padre Dário Bossi entrega ao Papa Francisco materiais sobre a luta de Piquiá de Baixo
A empresa Vale S.A., tristemente conhecida pelos crimes de Mariana e Brumadinho, é o ator principal no contexto deste Programa, que inclui também empresas de siderurgia altamente poluentes, instaladas ao lado da comunidade de mais de mil habitantes, para produzir ferro-gusa. A Vale fornece minério e transporta o ferro-gusa, que também é exportado.
Há 15 anos Piquiá de Baixo, através da rede Justiça nos Trilhos, denuncia as violações sofridas, luta em busca de reparação integral, exige justiça e responsabilização do Estado e das empresas que sacrificam comunidades, territórios, água e meio ambiente, em função do lucro de poucos.
A rede ecumênica Igrejas e Mineração convidou Flávia Antônia do Nascimento, jovem mãe, de Piquiá de Baixo, para testemunhar o drama e a resistência de sua comunidade por ocasião do Sínodo da Amazônia.
Flávia viajará também para Genebra, onde encontrará alguns Relatores Especiais da ONU para denunciar as violações impostas à sua comunidade.
Integrantes da rede Igrejas e Mineração apresentaram a Papa Francisco, durante uma sessão do Sínodo, a situação de Piquiá de Baixo e a própria rede ecumênica, que acompanha e assessora comunidades atingidas pela mineração em diversos países da América Latina.
No Sínodo para Amazônia, muitos padres sinodais, pastorais sociais e comunidades estão denunciando com vigor os impactos e contradições do extrativismo predatório e se opõem, de modo particularmente contundente, à mineração em terras indígenas, grave ameaça aos territórios.
Acompanhe a caminhada da comunidade de Piquiá de Baixo, da rede Justiça nos Trilhos e da rede Igrejas e Mineração através dos seguintes contatos:
A chuva é um fenômeno impressionante!É a natureza conversando com a gente e dizendo que fazemos parte dela e estamos nela. Chuva é bem para nós, é bem para a terra. É comum que o anunciar da chuva nos faça olhar para o céu a espera de água, água limpa. Em Piquiá de Baixo não é bem assim…
Em Piquiá de Baixo a chuva é carregada de poluição, de pó de ferro que vem das siderúrgicas, que vem dos vagões dos trens da Vale. A criança e o jovem do presente não esperam mais a água limpa que cai do céu. Em Piquiá de Baixo, há a normalidade de colocar um copo no tempo e esperar água preta. É água com pó de ferro. É água que encontra no caminho imensas quantidades de poeira preta, de minério de ferro. Quando chove, o que o povo de Piquiá sente é a certeza de um lugar poluído.
O pó de ferro é diário (Foto: Marcelo Cruz).
A chuva é passageira. O pó de ferro é diário. E tem sido assim há mais de três décadas… Mas, em Piquiá de Baixo também permanece a esperança da mudança. O Piquiá da Conquista [um projeto de reassentamento] é a luta das gerações mais velhas e o futuro das novas. O futuro no Piquiá da Conquista será o da espera da chuva limpa que cai do céu, que vai para a terra, para as plantas, para os rios e igarapés e que banha o corpo de cada morador e moradora. O Piquiá vai conquistar o direito de sentir o cheiro de terra molhada quando os primeiros pingos de chuva anunciarem uma nova estação. E depois de cada chuva, o céu vai aparecer e o sol vai brilhar ou a noite vai chegar sem serem encobertos pelo pó de ferro.
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