Entrega das Chaves: A continuidade da resistência de Piquiá de Baixo no novo bairro Piquiá da Conquista

Entrega das Chaves: A continuidade da resistência de Piquiá de Baixo no novo bairro Piquiá da Conquista

A entrega das chaves do reassentamento Piquiá da Conquista é o marco de uma trajetória de resistência e esperança, celebrando a força coletiva do povo de Piquiá de Baixo e sua busca por dignidade e justiça.

Solenidade de Abertura da Entrega das Chaves em Piquiá da Conquista | Fotos: Wenner Davisson

No dia 25 de outubro de 2024, um evento aguardado por mais de duas décadas finalmente aconteceu: a entrega das chaves do reassentamento Piquiá da Conquista para 312 famílias, marcando o encerramento de um ciclo de luta histórica do povo de Piquiá de Baixo. Embora o novo bairro tenha um nome diferente, para cada morador ele é, e sempre será, a continuidade de Piquiá de Baixo, simbolizando a união do povo pelo povo, a preservação de suas raízes e de sua força coletiva.

O evento, que estava previsto para começar às 15h, só teve início às 18h com a chegada das autoridades. Esse simbolismo da espera não passou despercebido pelos moradores, que há anos enfrentam batalhas e desafios em busca de dignidade e justiça ambiental. Com lágrimas e abraços, cada chave entregue representou o fim de uma longa espera e o início de uma nova fase, sem deixar para trás a história e a resistência de Piquiá de Baixo.

Andrea da Silva Machado, integrante da Associação Comunitária dos Moradores de Piquiá (ACMP), representou o sentimento coletivo ao ler uma carta-manifesto durante a cerimônia. Suas palavras expressaram gratidão aos parceiros, mas também reforçaram que a luta continua até que a reparação plena seja alcançada. A carta, entregue simbolicamente ao Ministro das Cidades, Jader Filho, e às demais autoridades presentes, foi um ato de afirmação de que a história de Piquiá de Baixo não termina com o novo bairro, mas se expande em Piquiá da Conquista.

Mikaell Carvalho, que passou parte de sua infância em Piquiá de Baixo e hoje atua como coordenador da Associação Justiça nos Trilhos (JnT), destacou o caráter simbólico desse dia de entrega das chaves: “É um dia em que temos também a presença do Estado e das empresas, os mesmos que foram responsáveis pelas violações que a nossa comunidade sofreu. Hoje, retomamos nossa voz e nossa força para dizer a eles que nossa luta por direitos humanos é válida, que esse reassentamento, essa conquista, só foi possível pela nossa resistência. Colocamos todos eles na mesa para construir isso aqui, e agora esperamos que assumam suas responsabilidades, que respondam por suas ações.”

Antônia Flávia, moradora de Piquiá da Conquista, relembrou a importância da união: “O movimento social é a base de tudo. A prova disso está aqui, na união dos moradores de Piquiá da Conquista – que também é Piquiá de Baixo. Se não fosse pela força coletiva, pelo abraço, pelo apoio de cada um, nada disso estaria de pé hoje. Há vinte anos, sonhamos juntos e seguimos lado a lado, com uma fé profunda, mãos dadas, sempre em harmonia.” Ela completou: “Essa luta não se construiu sozinha. Foi moldada na união, na força da fala, no choro, no riso, no afeto. Cada idoso, cada criança, cada jovem, todos juntos nessa caminhada, conectados e determinados a fazer Piquiá da Conquista existir. Como comunidade, aprendemos que a união é o que nos sustenta.”

Após a cerimônia, representantes da ACMP, da Justiça nos Trilhos, dos Missionários Leigos Combonianos e de outras organizações envolvidas nessa trajetória participaram da entrega das chaves e de kits com itens essenciais para as novas casas. Cada entrega foi um ato carregado de significado e de laços fortalecidos ao longo dos anos, um lembrete de que, mais do que um novo bairro, Piquiá da Conquista representa a união de um povo que se manteve firme, preservando sua identidade e construindo, coletivamente, um futuro digno.

Dona Francisca Tida, como é carinhosamente conhecida a presidente da ACMP, expressou sua emoção ao vivenciar esse momento marcante na vida dos moradores de Piquiá de Baixo: “O pessoal está todo aqui, na zoada, esperando para pegar a chave. Meu coração dispara de alegria e felicidade, porque cada pedacinho disso aqui é fruto da nossa luta, uma luta que foi só nossa, das famílias de Piquiá de Baixo.”

E ela ressalta: “Dá uma emoção tão grande, porque quando é a luta do povo, quando é a força da comunidade, as coisas realmente acontecem. Quando a gente se une, com paz e amor, Deus abençoa, e as portas se abrem para a gente.”

Assim, enquanto Piquiá da Conquista começa a tomar forma, ele guarda em seu solo as histórias, memórias e resistências de Piquiá de Baixo, mantendo viva a essência de um povo que, de fato, é e sempre será “Piquiá pelo povo e para o povo.”

Para a moradora Joselma de Oliveira, a mensagem cantarolada em muitos espaços – “Essa luta é nossa, é do povo” – é um exemplo e inspiração para que outras comunidades também se organizem, se unam e lutem pelos seus direitos, garantindo que aquilo que é delas por direito se torne realidade.

Agricultores de Açailândia e região debatem “Políticas Públicas para o Campo e a Cidade” e cobram compromisso das autoridades municipais

Agricultores de Açailândia e região debatem “Políticas Públicas para o Campo e a Cidade” e cobram compromisso das autoridades municipais


Entre relatos de luta e resistência, agricultores e movimentos sociais exigem políticas públicas para o campo e a cidade.

Agricultores (as), assentados, movimentos e organizações sociais presentes no seminário. (Foto: Yanna Duarte)

Aconteceu nesta quinta-feira (07), na Câmara Municipal de Açailândia (MA), o II Seminário Municipal de Desenvolvimento Rural, com o tema “Políticas Públicas para o Campo e a Cidade”. O encontro reuniu agricultores, assentados, sindicatos e movimentos sociais da região de Açailândia, incluindo representantes das comunidades Francisco Romão, Novo Oriente e João do Vale, para discutir e reivindicar a implementação de políticas públicas que integrem o campo e a cidade.

Organizado por uma coalizão que envolve a Justiça nos Trilhos (JnT), o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), a Casa das Mulheres Sementes da Terra, a Casa Familiar Rural e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Açailândia, o seminário destacou as necessidades dos povos do campo em áreas como educação, cultura, lazer e saúde, enfatizando o dever das autoridades municipais recentemente eleitas de garantir esses direitos.

A primeira mesa abordou a “guerra química” contra as populações do campo, intensificada pela monocultura de soja e eucalipto, com a pulverização aérea de agrotóxicos nos acampamentos e assentamentos da região. As lideranças também discutiram questões como a violência nos assentamentos, a falta de postos de saúde nas comunidades, a precariedade das estradas e a necessidade de políticas de apoio às famílias que vivem da terra.


A história do agricultor Amarildo, apresentada no seminário, é mais um possível caso de câncer subnotificado, decorrente da pulverização de agrotóxicos. Ele contou que, há pouco mais de cinco anos, um de seus filhos foi diagnosticado com câncer. Desde então, a família costuma viajar entre Imperatriz e Açailândia para tratar a doença.

Amarildo calcula que já percorreram mais de 68 mil quilômetros nessas idas e vindas. Em determinado momento, ele precisou alugar uma moradia temporária em Imperatriz. O agricultor começou a suspeitar que o câncer do filho possa ter sido causado pela exposição ao veneno aplicado próximo à terra da família.

Segundo análise feita pelo veículo InfoAmazonia e por pesquisadores da Fiocruz no estado do Mato Grosso, quanto maior o cultivo de soja, maior o risco de câncer e mortes. Crianças e adolescentes de 79 dos 141 municípios do estado têm mais chances de desenvolver e morrer por linfoma não-Hodgkin e leucemia, de nascer com malformações congênitas ou de morrer antes do parto.

“Ninguém quer falar sobre agrotóxicos quando se discute o aumento de doenças como o câncer em comunidades impactadas pela pulverização de veneno. Isso nem aparece nas estatísticas; é subnotificado”, analisa Arlane.


Na segunda mesa, Alcione Rocha, do assentamento Novo Oriente, relatou que a comunidade, que não possui posto de saúde, recebe atendimento médico apenas uma vez por mês. As organizações presentes questionaram a ausência do poder público para ouvir as reivindicações. Embora o seminário tenha sido realizado na Câmara Municipal, apenas três vereadores compareceram ao evento.

A assistente social Silvia Rosana contou que soube do evento pelas redes sociais e destacou a importância de debates como esse entre os movimentos sociais e a população urbana. Ela comentou sobre seu trabalho de atendimento às comunidades e como estas parecem “esquecidas” pelo poder público.

“Cadê o apoio voltado para a comunidade rural? Atendo 29 povoados, vilas, assentamentos e acampamentos, e nossa equipe de assistência está desfalcada. Frequentemente encontro pessoas do campo que necessitam de atendimento psicológico”, reforça Silvia.

Na terceira e última mesa, “Juventude, Mulheres e Agroecologia para um Município Sustentável”, a agroecologia foi discutida não só como uma prática de produção sustentável no campo, mas também como uma filosofia de vida dos povos, um modo de ser e viver no campo.


“A ciência nos afirma que a agroecologia é uma ciência. Mas, para nós, que não vivemos somente da ciência, mas também dos conhecimentos tradicionais, entendemos que a agroecologia, além de ser uma ciência, é um jeito de viver, uma filosofia de vida, uma forma de produzir alimentos de maneira saudável e de construir uma relação harmônica com a natureza. Nossos ancestrais não usavam o conceito de agroecologia, mas já a praticavam desde muito antes”, descreve o educador popular Andrade.

Vitória da Esperança: Piquiá de Baixo celebra a luta e conquista de moradias longe do foco de poluição direta 

Vitória da Esperança: Piquiá de Baixo celebra a luta e conquista de moradias longe do foco de poluição direta 

Cerca de 281 famílias já assinaram os contratos para suas novas casas no reassentamento Piquiá da Conquista.

Na segunda-feira (7), a comunidade de Piquiá de Baixo, em Açailândia (MA), viveu um dia histórico: a assinatura dos contratos que aproximam as famílias da realização de um processo de luta — morar em um lugar mais distante da poluição direta. Organizado pela Associação Comunitária de Moradores de Piquiá (ACMP) e pela Caixa Econômica Federal com apoio da Justiça nos Trilhos (JnT), o momento marca anos de resistência e perseverança da comunidade.

Com sorrisos e alívio visível, as equipes da Caixa, voluntários da ACMP e da JnT auxiliaram as famílias na leitura e assinatura dos documentos. “É muita alegria, esperamos por isso há tanto tempo!”, comemorou Maria Izabel, uma das moradoras, segurando emocionada o contrato. O mutirão, que segue até esta terça-feira (8), das 8h às 17h, contempla as 312 famílias da comunidade. Na semana anterior, aquelas que moram fora de Açailândia também tiveram a oportunidade de assinar seus contratos, demonstrando a união em torno dessa conquista.

Antes de o novo bairro Piquiá da Conquista se tornar realidade, a comunidade de Piquiá de Baixo enfrentou uma longa batalha contra a poluição causada pela cadeia logística da mineração, coordenada pela Vale S.A. e pelas siderúrgicas locais. A poluição começou na década de 1980, quando o escoamento de minério de ferro e a produção siderúrgica afetaram drasticamente a qualidade de vida dos moradores. Em 2008, a comunidade votou pelo reassentamento, que se concretizou após mais de uma década de intensa mobilização, com protestos e negociações envolvendo o Ministério Público, a Associação de Moradores e as empresas.

O clima foi de celebração e esperança. “Estou tão feliz! Agora podemos sonhar em viver longe da poluição direta e incessante”, desabafou Antônia Flávia, visivelmente emocionada. “Finalmente teremos um lugar para chamar de lar.” Em suas redes sociais, Antônia compartilhou uma foto da mãe assinando o contrato, com a legenda: “Esse momento merece feed❤️ Não consigo expressar a felicidade e que me fez ser forte. Minha nova tatuagem me lembra que ‘Até do avesso minha alma é força.’ Paizinho, assinamos o tão sonhado contrato😭🤍.”

O falecimento do pai de Antônia, Adelson Ferreira do Nascimento, em dezembro de 2020, faz desta conquista um momento de profunda emoção para a família. Ele foi um dos que lutaram e acreditaram no reassentamento, e sua memória permanece viva no esforço de todos que continuam essa batalha. Para Antônia, assinar o contrato é também honrar a trajetória de seu pai, tornando essa vitória ainda mais significativa.

Até o momento, 281 assinaturas foram registradas, e o número deve crescer com o avanço do mutirão. Em muitos casos, as assinaturas foram feitas por titulares e seus procuradores, evidenciando a determinação das famílias em garantir um novo lar.

Este momento representa um marco na história de Piquiá de Baixo, um símbolo da força e resiliência de uma comunidade que nunca desistiu de lutar por melhores condições de vida. Mais do que casas, essas famílias conquistam dignidade e a esperança de um futuro melhor.

Agora, a mudança das famílias para suas novas casas está se aproximando. Ainda é necessário registrar os contratos em cartório para que, finalmente, seja feita a tão esperada inauguração do bairro. Esse processo simboliza uma vitória coletiva, mas também serve como um lembrete de que a luta por reparação ambiental e justiça social é contínua, com a Vale S.A., as siderúrgicas e o Estado sendo diretamente responsáveis pelas violações que tornaram esse reassentamento necessário.