Em lançamento no Pará, livro-manifesto transforma vivências de mulheres em luta contra o extrativismo e afirma a escrita como defesa dos corpos-territórios.
Lançamento do livro Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas, celebrando a força e a luta das mulheres pela proteção da vida e do planeta. Foto: Yanna Duarte
Nos dias 1º e 2 de julho de 2025, mulheres afetadas pela mineração e pelo agronegócio no Pará se reuniram em Nova Marabá para o lançamento do livro Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas. A publicação reúne relatos de mulheres de diversas regiões do país sobre suas vivências e resistências diante do avanço do capitalismo extrativista. A atividade integrou a agenda de retorno das autoras aos territórios, com momentos formativos e apresentação da obra em espaços de diálogo e articulação coletiva.
O lançamento do livro ocorreu durante dois eventos: o Seminário de Abertura da UNIFESSPA/FECAMPO, realizado em 1º de julho no auditório do Campus 3 da universidade, e a II Plenária de Mulheres Amazônidas, realizada em 2 de julho na Fundação Social Agroambiental Cabanagem. Os encontros reuniram lideranças sociais, pesquisadoras, estudantes e mulheres de diferentes comunidades da região, em atividades que integram o calendário popular de mobilização rumo à COP30.
Mais do que o lançamento de uma publicação, o momento foi marcado pela escuta, troca de experiências e fortalecimento de vínculos entre mulheres que resistem cotidianamente às múltiplas formas de violência provocadas pelos grandes projetos em seus territórios. A obra nasce do acúmulo dessas trajetórias e se consolida como uma ferramenta política que articula memória, denúncia e mobilização.
Momentos de troca, inspiração e fortalecimento entre mulheres durante o lançamento do livro Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas. Juntas na luta e na resistência! Foto: Yanna Duarte
Organizado por Elisangela S. Paim e Fabrina P. Furtado, Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas reúne relatos poderosos de mulheres quilombolas, indígenas, camponesas e urbanas que enfrentam os impactos da mineração, do agronegócio e de outros projetos capitalistas em seus territórios. A obra articula feminismo, justiça ambiental e direitos dos povos tradicionais, evidenciando como a exploração da natureza se conecta às violências contra os corpos das mulheres.
Com prefácio da intelectual feminista Silvia Federici, o livro afirma a resistência coletiva como caminho de cuidado, denúncia e reexistência. Mais do que uma denúncia, é um manifesto vivo por outras formas de viver e conviver com a terra. A publicação está disponível para acesso gratuito no site da Fundação Rosa Luxemburgo: rosalux.org.br/livro/mulheres-em-defesa-do-territorio-corpo-terra-aguas.
Uma homenagem às guardiãs que lutam pela proteção dos corpos, da terra e das águas, reafirmando o poder da mulher na defesa da vida e do nosso planeta. Foto: Yanna Duarte
A Justiça nos Trilhos (JnT), organização que atua na defesa dos direitos das comunidades impactadas pela cadeia da mineração no Corredor Carajás, também participou ativamente das atividades. Com presença de integrantes que acompanham o cotidiano das lutas nos territórios, a JnT contribuiu para as reflexões sobre os efeitos do extrativismo nas vidas das mulheres e para a articulação coletiva em torno da justiça climática. Sua atuação no encontro reforçou a importância das alianças entre movimentos, organizações e populações locais na construção de estratégias de resistência e cuidado.
Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas é uma obra que reúne vozes femininas que protagonizam a luta pela proteção dos corpos, da terra e das águas. No lançamento, elas se conectam e compartilham saberes, resistência e esperança. Foto: Yanna Duarte
Para Larissa Santos, coordenadora política da JnT e uma das participantes do processo, o lançamento do livro com os grupos de mulheres foi um momento de fortalecimento coletivo. “O livro nasce de um processo de escuta e escrita compartilhada. Ao mesmo tempo em que registramos essas histórias, reinterpretamos, junto com as próprias autoras, os caminhos de resistência. Com seus corpos e práticas cotidianas, essas mulheres se contrapõem às injustiças que atingem seus territórios. Registrar essas experiências é uma forma de luta compartilhada.”
Larissa Santos, coordenadora política da JNT e uma das autoras do livro Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas, compartilhando sua luta e inspiração. Foto: Yanna Duarte
Larissa destaca ainda o papel do livro na construção da memória coletiva: “Sentir os impactos da exploração da natureza como uma extensão da exploração dos nossos corpos é um saber profundo das mulheres. Reconhecer isso e transformar em escrita nos ajuda a buscar alternativas, reafirmar nossos modos de vida e denunciar o que está sendo violado.”
Durante a mesa de abertura do seminário da UNIFESSPA, participaram da discussão Elisangela Paim, coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia; a professora Fabrina Furtado (UFRRJ); e o professor Daniel Nogueira (UNIFESSPA), aprofundando os debates sobre a financeirização da natureza e os enfrentamentos na Amazônia. No dia seguinte, a II Plenária de Mulheres Amazônidas reuniu mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas e urbanas para compartilhar estratégias de resistência frente à crise climática e aos megaprojetos que ameaçam os territórios.
Mulheres em Defesa do Território – Corpo – Terra – Águas é, portanto, mais do que um livro. É um manifesto vivo, escrito a muitas mãos, que afirma a potência das mulheres na defesa de seus modos de vida, suas memórias e seus territórios.
Evento integrou o VII EREPEG e destacou a urgência da criação da reserva extrativista na zona rural da capital maranhense
Gente que luta com as mãos, com a voz e com o coração.
Na manhã da última quinta-feira (03), a quadra do Colégio Universitário da UFMA (COLUN) se transformou em um território de cores, cheiros e histórias. A Feira da Resex Tauá-Mirim “Maria Máxima Pires” voltou a ocupar o espaço com força total, reunindo saberes tradicionais, sabores da terra, arte, cultura e um chamado coletivo à preservação ambiental e à justiça social.
A edição deste ano integrou a programação do VII EREPEG (Encontro Regional de Estudantes de Pós-Graduação em Geografia), ampliando os debates sobre território, ancestralidade e sustentabilidade. Mais do que um evento, a feira é uma expressão viva das comunidades da zona rural de São Luís (MA) que há anos lutam pela criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim, uma medida urgente para garantir o direito à terra, proteger modos de vida tradicionais e conservar os ecossistemas locais.
Cultura, memória e resistência
Além dos produtos da agricultura familiar e do artesanato repleto de identidade, a feira foi palco de uma apresentação emocionante da Quadrilha Damas da Roça, da comunidade do Rio dos Cachorros (MA). Com o tema “Herança de Maria Máxima”, o grupo prestou homenagem à liderança que dá nome à feira, e que segue inspirando a luta de tantas mulheres e homens do campo. Entre vestidos rodados e passos firmes, ficou evidente: a cultura popular também é ferramenta de resistência.
Biojoias e sabedoria ancestral
Entre as barracas, uma em especial chamou atenção pelas cores cintilantes e o brilho natural: era o espaço da artesã Núbia Lafayete, co-criadora das biojoias “Maravilhas do Mar”, produzidas com escamas dos peixes Pirarucu, Pescada Amarela e Camurupim. Núbia compartilhou um pouco de sua técnica e visão:
“A natureza compartilha tudo com a gente. Basta olhar com carinho, usar a criatividade e pensar na conservação. Minhas peças nascem desse respeito: uso o que ela oferece de forma sustentável, sem agredir, transformando em beleza o que antes poderia ser descartado”, contou.
A artesã é uma das muitas representantes do protagonismo feminino presente na feira, que reafirma a autonomia e o talento das mulheres nas comunidades tradicionais.
A urgência da Resex Tauá-Mirim
A cada edição, a feira reforça o clamor pela criação da Resex Tauá-Mirim, um passo fundamental para proteger territórios ameaçados pelo avanço urbano, pela especulação fundiária e pelos impactos ambientais. A reserva garantirá o direito de permanência das comunidades tradicionais, fortalecendo práticas sustentáveis e formas de vida alinhadas com a conservação ambiental.
Durante o evento, a venda da camisa da campanha “Resex Tauá-Mirim Já!” simbolizou essa mobilização coletiva. Cada peça vendida se tornou um grito a mais por reconhecimento, justiça e proteção.
“A feira é mais que um evento. É onde a gente se encontra, compartilha e mostra que está vivo, resistindo. A Resex é o que vai garantir que isso continue acontecendo por muito tempo”, afirmou Fran Gonçalves, moradora da comunidade de Taim, e integrante do grupo GEDMMA.
Sementes lançadas para o futuro
Com afeto, firmeza e criatividade, a Feira da Resex Tauá-Mirim segue cumprindo seu papel: conectar pessoas, manter vivas as tradições e lembrar que, em tempos difíceis, resistir também é celebrar. Que a luta continue ecoando nos territórios, nos corpos, nas danças, nas sementes e nas mãos de quem transforma a natureza em arte.
Lançada pela Justiça nos Trilhos (JnT), a publicação propõe o “envolvimento” como antídoto à febre que ameaça o planeta e os territórios.
A capa da cartiha. O projeto gráfico é assinado por Patricia Yamamoto.
A crise climática que impacta o mundo tem sido tratada, muitas vezes, como um fenômeno natural ou inevitável. Mas a nova cartilha “A Terra está com febre – Mineração, agronegócio e as emergências climáticas”, lançada pela organização Justiça nos Trilhos (JnT), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), confronta essa narrativa ao afirmar com clareza: a febre do planeta tem causas e causadores.
Produzido com linguagem acessível e forte embasamento técnico, o material traz uma análise direta das raízes estruturais da emergência climática no Brasil. Para os autores, o aumento da emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono e o metano, acelerado por queimadas, desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis, é resultado de um modelo de desenvolvimento predatório, sustentado por setores como o agronegócio, a mineração e a indústria petrolífera, além de outras fontes fósseis, como o gás e o carvão.
“Contra a febre do desenvolvimento, o envolvimento como antídoto.”
É com essa frase que a cartilha propõe um novo caminho: engajamento popular, fortalecimento dos povos originários e tradicionais e enfrentamento direto às estruturas que colocam o lucro acima da vida.
A crise tem rosto e território
Muito além dos dados, a cartilha evidencia como comunidades indígenas, quilombolas e camponesas vivenciam, no dia a dia, os impactos de um modelo de desenvolvimento excludente: expulsões, grilagem de terras, contaminação das águas, destruição das florestas e perda de modos de vida. Esses danos não são provocados diretamente pela crise climática, mas resultam de práticas econômicas violentas. Ainda assim, a emergência climática aprofunda essas desigualdades, afetando de forma mais intensa e injusta essas populações, agravando os efeitos já existentes.
O conteúdo reafirma a urgência da demarcação de terras indígenas, da titulação de territórios quilombolas e do reconhecimento da relação harmônica entre esses povos e a natureza como uma das chaves para enfrentar a emergência planetária.
“É preciso explicitar a mentira do discurso do desenvolvimento”, diz um dos trechos mais enfáticos da publicação.
Ferramenta de luta e formação
A cartilha é de livre distribuição e tem caráter educativo e comunitário. Está disponível para download gratuito e pode ser utilizada em rodas de conversa, escolas, formações populares e atividades de mobilização ambiental.
Sobre a publicação
A cartilha foi organizada por João Paulo Alves da Silva e Joércio Pires da Silva, com colaboração técnica e científica de Felipe Sabrina Duran, a partir de um estudo anterior de Saulo Barros da Costa e Julio Itzayán Anaya López. O projeto gráfico é assinado por Patricia Yamamoto. A realização é da organização Justiça nos Trilhos, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS).
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