Família tenta provar inocência de jovem negro preso injustamente em Açailândia (MA)

Família tenta provar inocência de jovem negro preso injustamente em Açailândia (MA)

Foto: José Carlos Almeida

Na manhã desta quarta-feira, (30), familiares do jovem negro, Janderson Cerqueira Castro, de 24 anos, ocuparam a rua de acesso ao Fórum do Município de Açailândia (MA), em protesto à prisão do jovem, que ocorreu no dia 07 de janeiro desse ano. O rapaz foi acusado de tentar matar um empresário na cidade.

A acusação foi sustentada com base em um depoimento contraditório da suposta vítima de Janderson, depoimento esse que não corresponde com as imagens de um vídeo registrado no momento da tentativa de homicídio, pois, conforme se vê nas imagens disponibilizadas, a pessoa que aparece na garupa da moto e efetua os disparos é de cor branca e o acusado é negro.

Família confirma que no momento da tentativa de homicídio, Janderson estava em casa
No vídeo, é possível ver duas pessoas numa moto por volta das 07h23 da manhã. O condutor do veículo estava de preto e o da garupa de camisa verde e manga curta, aparentemente com uma arma na mão. No momento em que ocorreu a tentativa de homicídio contra o empresário, a família de Janderson garante que ele estava em casa.

Janderson não tem antecedentes criminais, não possui nada que desabone a sua reputação e mantém endereço fixo. No entanto, isso não foi levado em conta pelo juiz da causa, que decretou sua prisão preventiva. O delegado e o juiz não analisaram as imagens das câmeras de segurança. Por essa razão, a defesa de Janderson pediu uma perícia nas provas juntadas ao processo, na esperança de provar a inocência do jovem, porém, enquanto isso não é realizado, o rapaz segue preso há três meses.

O que diz a família do acusado
Para a mãe de Janderson, Maria Castro Araújo, 57 anos, seu filho foi vítima de uma prisão injusta:
“No dia que tentaram matar o Moacir, eu e o Janderson estávamos em casa. Me levantei cedo, fiz o café, quando terminei fui olhar as redes sociais e me deparei com a notícia da tentativa de homicídio. Fiquei assustada e preocupada, pois eu conheço o Moacir, ele é meu vizinho. Em seguida, fui até o Janderson que estava no quarto e ficamos conversando sobre o atentado. Clamamos à Deus pela saúde do Moacir. Eu relatei isso no meu depoimento na delegacia, mas parece que não consideraram”.

A mãe de Janderson também nos revelou que Moacir conhece o acusado [Janderson] há muito tempo e que nunca houve nenhuma desavença entre eles. “É uma injustiça muita grande. Além de tudo, meu filho sempre tratou o Moacir muito bem. Eu espero que a justiça seja feita, que meu filho saia da cadeia”, completou.

O irmão de Janderson, Leonardo Figueredo, aponta que não há provas concretas: “Não tem prova material, não tem prova concreta e não encontraram nada com ele; roupas, moto, nada que relacione meu irmão ao crime. Mesmo assim, ele foi preso. A prisão dele se deu apenas com a palavra da vítima. Além disso, meu irmão é negro, e no vídeo é possível ver duas pessoas brancas. Ele tá tranquilo, pois sabe da sua inocência, e nós vamos seguir lutando pela sua liberdade”, afirmou Leonardo.

Imagem da câmera de segurança

O caso é acompanhado com preocupação pela sociedade civil organizada
O Caso de Janderson é acompanhado pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos – Carmem Bascarán (CDVDH/CB), e pela Rede e Cidadania de Açailândia, ao qual a Justiça nos Trilhos faz parte.
“O Centro de Defesa está acompanhando o caso e nós acreditamos na inocência de Janderson. Prisões injustas são comuns no sistema penitenciário brasileiro e as vitimas em sua maioria são negras. A gente vê isso no caso de Janderson”, revela Yonná Luma, secretária executiva do Centro de Defesa.

Nesse sentido, a advogada Valdênia Paulino, educadora popular na Associação Justiça nos Trilhos e integrante da Rede e Cidadania de Açailândia, afirma que estamos diante de mais um caso de racismo:
“Acompanhamos esse caso porque acreditamos na inocência de Janderson e também porque esse é um caso que traz fortes indícios de racismo institucional. Trata-se de um jovem negro que não estava na cena do crime, sem antecedentes criminais, podendo inclusive responder ao processo em liberdade, e isso não ocorreu, sendo que até hoje os agressores de Gabriel da Silva, que tem vídeo, repercussão nacional e os acusados, brancos, permanecem circulando pela cidade”, concluiu.

O que o caso de Janderson Cerqueira e Gabriel da Silva tem em comum?

Contraditoriamente, o mesmo judiciário que prende injustamente e sem provas o jovem Janderson Cerqueira, rapaz sem antecedentes criminais e com endereço fixo, até hoje, não prendeu os agressores de Gabriel da Silva, que foi vítima de uma tentativa de homicídio no final do ano passado, e seus autores circulam livremente, mesmo com a existência de provas concretas da autoria dos agressores. No caso de Gabriel, um dos agressores atropelou e matou um idoso em 2013, e isso não foi considerado, muito menos a repercussão do caso que foi nacional.

“O que nós, sociedade sentimos, é que estamos tendo dois pesos e duas medidas para os casos que envolvem jovens negros em Açailândia. O que nós queremos é uma justiça de verdade que seja respeitosa com todas as raças, credos e orientações sexuais de forma imparcial”, finalizou Valdênia Paulino.

Por José Carlos Almeida e Yanna Duarte

Conquista histórica para as comunidades tradicionais do Maranhão

Conquista histórica para as comunidades tradicionais do Maranhão

foto: Arquivo Quilombo Santa Rosa dos Pretos – Itapecuru-Mirim (MA)

Na última quarta-feira (23), a FETAEMA, Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e Defensoria Pública do Estado representando a luta histórica dos povos de comunidades tradicionais do Maranhão, conseguiram setença de acordo com o Governo do Estado do Maranhão, a garantia da realização da Consulta Livre, Prévia e Informada com as comunidades para a emissão de licenças ambientais, conforme estabelece a Convenção 169 da OIT.

A partir do reconhecimento da luta histórica das populações dos territórios em defesa dos seus modos de vida e da natureza, a Justiça nos Trilhos parabeniza a FETAEMA, SMDH e Defensoria Pública pelo comprometimento ao promoverem a Ação Civil Pública (ACP), que resultou no acordo firmado com o Governo do Estado, para que licenças ambientais em áreas de comunidades tradicionais sejam emitidas somente após consulta prévia.

Com o acordo firmado, a liberação de uma licença ambiental estará totalmente condicionada à consulta aos povos e comunidades tradicionais que possam ser afetados pelo empreendimento pleiteado no licenciamento. “O acordo celebrado será uma importante ferramenta para a luta dos povos e comunidades tradicionais e para a efetivação dos direitos humanos no nosso Estado”, afirmou Ana Paula Santos, advogada na Justiça nos Trilhos.

Para acessar a decisão clique aqui!

Justiça nos Trilhos se reúne com Rede Desc

Justiça nos Trilhos se reúne com Rede Desc

FORTALECIMENTO DE PARCERIAS – Com objetivo de fortalecer os trabalhos em defesa dos direitos humanos e da natureza e também garantir uma melhor articulação internacional baseada na solidariedade e compromisso com os territórios, nesta quinta-feira (24), os nossos coordenadores Larissa Santos e Mikaell Carvalho e a moradora representando a comunidade de Piquiá de Baixo, Kelly Silva Barbosa, se reuniram com Ruben Kondrup, o Coordenador de Solidariedade e Adesão na Rede Desc, em Bruxelas, capital da Bélgica.

A Rede Internacional para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Rede Desc) é uma iniciativa de cooperação entre grupos e pessoas de diferentes regiões do mundo, que trabalha em prol da justiça social e dos direitos humanos focada nos direitos econômicos, sociais e culturais.

Para Larissa Santos, responsável pela Coordenação Política de Justiça nos Trilhos, o foco do encontro com a Rede Desc foi levar os testemunhos das comunidades impactadas pela mineração e o agronegócio ao longo do Corredor Carajás.”Tecer este diálogo de forma presencial com os nossos parceiros internacionais é uma forma de aproximar as realidades dos territórios com quem está atuando de forma global. Cada parte com o objetivo comum de lutar contra as violações de Direitos Humanos e da Natureza, e com isso tornar a sociedade menos desigual”, afirma.

Além do encontro com a Rede Desc, a delegação da Caravana pela Ecologia Integral em Tempos Extrativistas, também participou de atividades com Conferências Episcopais da União Europeia (COMECE), Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e Solidariedade (CIDSE) e PAX CHRISTI Internacional.