Maria Dalva Pires Belfort é quilombola do Território Santa Rosa dos Pretos. Ela é filha de santo e se expressa lindamente pela música. Neste samba ela fala da importância da água para além de saciar a sede e de permitir a vida. Antes de ser matéria, a água é espírito, e quem manda no quilombo é Iemanjá.
O principal rio que passa pela comunidade, o Rio Piquiá recebe desde a década de 1980 a água utilizada pelas siderúrgicas para os processos de lavagem e resfriamento do ferro. Essa água é descartada no rio sem nenhum tipo de tratamento, a uma temperatura de 37o C e com presença de resíduos tóxicos. Esse impacto afeta diretamente os modos de vida da população, pois as siderúrgicas rompem com uma relação entre moradores e o rio. Desesperados por esse impacto e por tantos outros, sobretudo na vida de crianças, gestantes e idosos, os moradores de Piquiá de Baixo, em referendo realizado em 2008, decidiram por unanimidade que a solução mais eficaz seria o reassentamento para um local livre dos impactos socioambientais.
Hoje, com os serviços de terraplanagem, abertura do poço, rede de abastecimento e a construção de uma casa modelo o reassentamento de Piquiá enfrenta sérios problemas. O Governo Federal adotou uma política de cortes dos gastos públicos, que atingiram o projeto de reassentamento e causa atraso das obras.Os moradores sempre realçam que nunca teriam desejado deixar suas terras e compreendem essa necessidade como o “mal menor” frente à violência dos impactos socioambientais da região.
De toda forma, a luta em Piquiá é mais ampla que o reassentamento e exige a eliminação definitiva e permanente das emissões tóxicas, bem como recuperação das áreas degradadas e maior distribuição e diversificação dos empregos e da renda na região.
Morador de Piquiá de Baixo em manifestação contra a poluição das siderúrgicas (Foto: Marcelo Cruz).
Há mais de 10 anos a comunidade se organiza em busca de um reassentamento coletivo. Desde 2007 são acompanhados pela Rede Justiça nos Trilhos e a partir de 2010 recebem a assessoria técnica da Usina CTAH. Em 2013, após muita luta, os moradores conquistaram a desapropriação de um terreno para a construção do novo bairro, longe da poluição.
Esses anos foram vivenciados com tentativas de diálogos, denúncias, manifestações e um trabalho diário de busca pela garantia de direitos. A Associação Comunitária dos Moradores/as de Piquiá recorreu ao único programa de habitação do Brasil, o Minha Casa Minha Vida, para conseguirem um financiamento. A modalidade do Programa “Entidade” possibilitou a autogestão da obra conforme os princípios e sonhos da comunidade.
Moradores e moradoras se organizam há mais de 10 anos pelo reassentamento da comunidade (Foto: Marcelo Cruz).
Mas tudo isso só foi possível pelo envolvimento de muitos dos moradores no exercício da pressão popular e da livre manifestação. As siderúrgicas e a mineradora Vale, presentes na comunidade desde a década de 1980 violam todos os direitos da população e a luta é fazer com que esses sejam responsabilizados por tais violações. A luta também denuncia a corresponsabilidade dos governos do Município de Açailândia e do Estado do Maranhão.
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