“Esses pretos são danados”: um cordel sobre Santa Rosa

“Esses pretos são danados”: um cordel sobre Santa Rosa

Neste cordel contado, a jovem quilombola Fabiana narra um pouco da história do Território Quilombola Santa Rosa dos Pretos, onde ela nasceu e vive. O cordel foi escrito por Joércio Pires e Anacleta Pires, e complementado por Fabiana, porque as coisas no quilombo são assim, vivas e em contínuo processo de transformação para a vida mais completa. As/os jovens da foto são os pretos danados do Coletivo Agentes Agroflorestais Quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, que recuperam as matas, igarapés e buscam autonomia política e alimentar para a coletividade do quilombo. 

“Quando a gente não espera mais a água limpa que cai do céu…”

“Quando a gente não espera mais a água limpa que cai do céu…”

A chuva é um fenômeno impressionante!É a natureza conversando com a gente e dizendo que fazemos parte dela e estamos nela. Chuva é bem para nós, é bem para a terra. É comum que o anunciar da chuva nos faça olhar para o céu a espera de água, água limpa. Em Piquiá de Baixo não é bem assim… 

Em Piquiá de Baixo a chuva é carregada de poluição, de pó de ferro que vem das siderúrgicas, que vem dos vagões dos trens da Vale. A criança e o jovem do presente não esperam mais a água limpa que cai do céu. Em Piquiá de Baixo, há a normalidade de colocar um copo no tempo e esperar água preta. É água com pó de ferro. É água que encontra no caminho imensas quantidades de poeira preta, de minério de ferro. Quando chove, o que o povo de Piquiá sente é a certeza de um lugar poluído.

A chuva é passageira. O pó de ferro é diário. E tem sido assim há mais de três décadas… Mas, em Piquiá de Baixo também permanece a esperança da mudança. O Piquiá da Conquista [um projeto de reassentamento] é a luta das gerações mais velhas e o futuro das novas. O futuro no Piquiá da Conquista será o da espera da chuva limpa que cai do céu, que vai para a terra, para as plantas, para os rios e igarapés e que banha o corpo de cada morador e moradora. O Piquiá vai conquistar o direito de sentir o cheiro de terra molhada quando os primeiros pingos de chuva anunciarem uma nova estação. E depois de cada chuva, o céu vai aparecer e o sol vai brilhar ou a noite vai chegar sem serem encobertos pelo pó de ferro. 

O colonial nunca acabou

O colonial nunca acabou

Prova de que o período colonial nunca teve fim para povos originários e quilombolas é que as expropriações de seus corpos e territórios continuam desde 1500, cada vez mais violentas e pelas mãos de diferentes colonizadores – empresas e governos subalternos – que se alternam e se apoiam no saque, seja por meio do trabalho escravo, por meio da invasão das terras indígenas e quilombolas, da destruição de seus rios e matas, seja por meio de processos abertos por empresas contra lideranças de povos tradicionais que lutam por seus direitos, na tentativa de silenciá-las, como os colonizadores fazem desde o século 16 nas Américas.

Há mais de 80 anos, as e os quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim, Maranhão, enfrentam a poluição, assoreamento e aterramento de seus cursos d´água, como igarapés e rios, seja pela Estrada de Ferro Carajás, da transnacional de mineração Vale S.A., seja pela estrada de ferro Transnordestina, pelos três linhões de energia da Eletronorte e dois da CEMAR (Companhia Energética do Maranhão), seja pela BR 135, do governo federal.

Todos esses grandes empreendimentos violam o direito à água dos quilombolas de Santa Rosa dos Pretos, que também perdem sua fonte alimento e renda ao ficarem sem os peixes que sempre pescaram. Os empreendimentos também retalham o território quilombola, roubam porções de terras produtivas, causam poluição sonora, do ar, e centenas de mortes por atropelamento no caso da BR e das estradas de ferro.

As lideranças de Santa Rosa dos Pretos vem denunciando essas violações há anos, em diversas instâncias dos órgãos públicos, na imprensa, nas discussões junto a movimentos sociais e entidades aliadas da luta. 

Em 2011, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou uma Ação Civil Pública (ACP) contra Vale S.A. e Ibama por violações cometidas por ambos contra quilombolas de Santa Rosa dos Pretos na duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC), da Vale.

A transnacional foi condenada em 2012 a realizar uma série de reparações e ações de mitigação dos impactos causados. Entre as reparações, está a recuperação de um igarapé que a empresa concretou e fez praticamente secar – o igarapé tinha fama entre os quilombolas por ser rico em peixes e de não secar nunca, nem durante o verão nordestino.

Sete anos depois da condenação, a empresa nunca recuperou o igarapé e nem cumpriu com a maioria das obrigações às quais foi obrigada em juízo. Segue impune, como os colonizadores de 1500.