A cidade da Vale

A cidade da Vale

“A cidade da Vale”, como é conhecida Parauapebas, a maior província mineral do mundo, vive um caos sociocultural. O Mapa da Violência de 2013 mostra que o município, no sudeste do Pará, saltou da 21ª colocação entre as cidades mais violentas do estado para o 10° lugar.

Segundo o estudo, Parauapebas sofreu a maior expansão de homicídios entre jovens no estado paraense. A probabilidade de um jovem ser morto, vítima de disparos de arma de fogo ou por facada na rua ou em sua própria casa, é 25% maior do que no Iraque, país com uma das mais altas taxas de morte por conflito armado.

Com um detalhe: essa dura realidade se passa nas entranhas da 33ª cidade mais rica do Brasil. Isso porque, entre 1997 e 2012, a prefeitura embolsou mais de R$ 1 bilhão de royalties advindos da mineração.

Seu Produto Interno Bruto (PIB), de US$ 2,1 bilhões de dólares é o segundo maior do Pará e equivale à soma das riquezas produzidas pelos Estados do Acre, Roraima e Amapá. O PIB/per capita de Parauapebas – parte da riqueza que cabe a cada habitante do município – alcança o topo no ranking nacional, deixando para trás nada menos que São Paulo e Brasília.

Ademais, é o município que apresenta o maior superávit na balança comercial brasileira. O descompasso entre riqueza e pobreza acompanha a velocidade do inchaço populacional da cidade, que, aos 25 anos, já detém meio milhão de habitantes – grande parte amontoados nas inúmeras favelas que não param de surgir. Em um contexto como este, o alcoolismo e a prostituição aparecem como elemento cultural predominante na cidade.

Em visita à região, o sociólogo Romero Venâncio, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), falou com a reportagem do Brasil de Fato sobre suas impressões ao andar por Parauapebas e comentou sobre saídas concretas que possam mudar a realidade social da província mineral. Na entrevista abaixo, o professor cita a Vale como a principal responsável por esse retrato violento. “O modelo de atuação da mineradora na cidade é antropofágico, de tal maneira que se torna predatório à condição humana.”

Brasil de Fato – Como se explica uma Parauapebas tão rica com uma população tão pobre?

Romero Venâncio – Parauapebas tem um dos PIBs mais altos do Brasil, mas seu desenvolvimento social é desproporcional ao seu crescimento.Ou seja, paradoxalmente, ela tem uma grande arrecadação por conta dos royalties minerais e a prefeitura tem uma margem de manobra econômica como poucas no estado do Pará. Porém, a inoperância dessas instâncias municipais acontece porque elas acabam sendo uma extensão das políticas tecnológicas, econômicas e estratégicas da Vale.

O que o processo de mineração incide no alto índice de violência de Parauapebas?

Temos que entender como uma cidade com grau de caos social como Parauapebas vive cotidianamente sua relação com a Vale. Significa dizer que para manter uma modernização tão violenta e brutal, sobre uma camada inteira da população, proporcionada pela mineradora é preciso forjar além de órgãos de repressão, a existência de uma cultura como forma de contenção social.
Quando nós usamos a palavra cultura eu não penso somente na música, teatro e dança, mas uma forma de vida. Por exemplo, o alcoolismo intenso numa cidade como essa funciona como elemento cultural.

Além disso, o modelo de atuação da mineradora na cidade é antropofágico, de tal maneira que se torna predatório à condição humana. A Vale consegue culturalmente atualizar aquilo que Kal Marx chamava, nos manuscritos filosóficos, de último estágio da alienação, quando o sujeito está alienado em si mesmo, a brutalidade passa a ser sua forma de agir.
Dessa situação dramática da modernização nos moldes que pensava o filósofo Walter Benjamim, Parauapebas hoje está dentro de uma modernização reacionária. Porque do ponto de vista tecnológico, a Vale traz modernização, mas, por outro lado, o impacto ambiental e humano faz com essa modernização seja ativada como reacionária.

É dessa cultura que explode a violência, sobretudo, contra a juventude?

É possível observar que o álcool está aliado em Parauapebas a certos modelos de carros grandes, onde são abertas as tampas traseiras e sai dali um tipo de música que toca toda uma juventude imersa nesta indústria cultural.
Aqui, existe uma juventude que, há uma década, é formada nessa lógica da cultura do alcoolismo, da violência contra mulheres, contra negros e pobres, formada pela perspectiva de consumo desses carros grandes com músicas estridentes e completamente vazias.

Como forjar, então, uma cultura diferente numa cidade que não tem uma sala de teatro, nem de cinema, somente no shopping center?

As prefeituras não são responsáveis por criar somente os espaços físicos, mas ao construir uma sala de teatro ela pode dinamizar com editais e financiamento uma programação multicultural. Por exemplo, não se pode como política cultural ter um cinema reduzido ao shopping, isso é desproporcional à cidade. A prefeitura tem condições de criar uma sala de cinema para debate, seminários e poderia fazer uma aliança com setores culturais dos movimentos sociais. Idem com um espaço de teatro e de dança. Esse dinheiro arrecadado da mineração teria a possibilidade de realizar tudo isso.

Entretanto, estou falando somente em termos culturais, nem estou tocando no assunto de promoção social, a prefeitura não faz isso porque tem um entrave político.

A Vale não é apenas uma empresa de mineração, é um agente econômico, cultural e social e interessa a ela a industria cultural em Parauapebas. Isso fica evidente quando a mineradora financia legalmente shows diretamente ligados a indústria cultural. Portanto, o caos de uma cidade como Parauapebas não é uma situação impossível de se combater, o problema é que a força da Vale é desproporcional em toda essa região, nenhuma força social consegue competir com a mineradora.
Precisamos criar um pacto para outro modelo cultural, que não seja esse da Vale, numa aliança entre movimentos sociais, povos originários, universidade e poder público.

Em sua visita à cidade você consegue visualizar algum espaço diferenciado que escape a essa cultura opressora da Vale?

Sendo uma cultura reacionária, o combate a ela teria que trazer uma forma cultural emancipatória. Dessa forma, o Instituto Agroecológico Latino-Americano (IALA Amazônico) no assentamento Palmares às margens da Floresta Nacional de Carajás, em Parauapebas, se constitui numa forma de emancipação, porque ele não é apenas um espaço agroecológico, mas sim um local de formação cultural.
Num momento como esse vivido por Parauapebas, já é uma atitude muito emancipatória a construção do IALA, porque na esfera social tudo conspira contra as características desse modelo de vida pensado pelo instituto.

Além disso, penso que essa modernização enriquece pessoas, mas empobrece uma massa. Trabalhar com essa massa empobrecida é o principal desafio dos movimentos sociais hoje no Pará, buscando uma via cultural diferente da existente atualmente.

Essa região do sul e sudeste paraense sofreu mudanças espaciais, culturais econômicas e sociais relevantes em pouco tempo. Existe a possibilidade de resgatar algo dos povos originários para amenizar o atual modo degradante de vida?

O monumento da cultura moderna é uma representação da barbárie também. No fundo, a experiência cultural e econômica da Vale sempre abriga uma dimensão de barbárie.

Nessa perspectiva, penso que ressurgir ciclos culturais anteriores é improvável nessa área do Pará. Agora tem uma categoria central como ponto de resistência cultural que é a memória. Essa região abriga uma memória e quando isso acontece você pode esperar muita coisa.

É difícil acreditar que com essa modernização reacionária profundamente violenta nós teríamos uma forma de aboli-la e voltar ao modelo de populações ribeirinhas de outras épocas, principalmente com a introdução em larga escala do celular, do automóvel, o modo como as estradas foram abertas modificando a vida das pessoas. No entanto, a memória sobrevive em pequenos gestos nas experiências culturais em forma de alimentação, vestimentas, modo de se lembrar da região e isso pode nos influenciar culturalmente de maneira profunda.

Fonte: Brasil de Fato, por Márcio Zonta, 24 de dezembro de 2013

A cidade da Vale

Dá para confiar na Vale?

Roger Agnelli exerceu o mais longo mandato em toda a história de 60 anos da antiga Companhia Vale do Rio Doce. Nos seus 11 anos como presidente, a Vale inchou. Tornou-se a segunda maior mineradora do mundo e uma das companhias internacionais no topo do ranking geral.
Mas a verdade era outra: a Vale esteve bem próxima de estourar. Por megalomania ou qualquer outro motivo. Agora começou a desinflar.

Depois da maior onda de investimentos de uma empresa privada brasileira em todos os tempos, a Vale passa no momento pelo processo inverso.
Não é o mesmo fenômeno melancólico do grupo X, de Eike Batista (que, ironicamente, esteve próximo de penetrar na ex-estatal, com a ajuda dos seus padrinhos petistas). Mas é sintomático da precariedade do capitalismo nacional, que quase sempre anda com muletas estatais e esconde sua verdadeira situação da opinião pública.

Coerente com essa tradição, a atual direção da Vale procura convencer a sociedade de que a redução de tamanho é planejada e está sendo realizada sem açodamento. Mas o encolhimento da sua capacidade de gerar receita e da sua liquidez, enquanto cresce a sua dívida, mostra que essa busca por receita é mais grave e urgente do que o discurso corporativo admite.

Essa gravidade é onerada pela implantação do maior projeto da história da mineração mundial, em Serra Sul, no Pará, para a duplicação da produção de minério de ferro em Carajás, no valor de US$ 20 bilhões. Sem um aporte de novos recursos, o projeto – previsto para começar em 2015 – afetará negativamente a empresa durante os próximos anos.

Além de criar receita, a Vale terá que gastar menos e com maior austeridade, o que não faz parte da sua cultura.
O enxugamento do seu conjunto de atividades a levará a se concentrar ainda mais em minério de ferro, o que significa maior dependência de um único cliente. A China responde por 40% da receita operacional da companhia (e especificamente por 60% do minério que sai de Carajás, o melhor do mundo).

Apesar da dependência, a Vale acredita que a qualidade do minério de Carajás, sem concorrente no mercado, será fundamental para proteger a companhia das ondas que se avizinham. Para se assegurar o acesso a essa fonte diferenciada de matéria prima, a China estaria disposta a praticar preços melhores do que os que se permite a pagar a outros vendedores.

O panorama imediato estaria confirmando a acertada diretriz dos atuais dirigentes da Vale. No terceiro trimestre deste ano, o lucro líquido da companhia cresceu 140% em relação ao mesmo período de 2012, chegando a quase R$ 8 bilhões. As exportações de minério tiveram o terceiro maior volume da história. Apesar desses resultados, porém, a tendência não é de volta a uma fase de abundância, como antes.

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, anunciou a intenção de passar em frente oito empreendimentos da companhia até o final do próximo ano. O alvo são as produções de alumínio, bauxita e cobre. Todo o polo de alumínio e alumina foi desnacionalizado de vez, por um golpe de mão da Vale. A desnacionalização se estenderá a uma das maiores produtoras mundiais de bauxita.

No caso do transporte do minério, o ziguezague adotado pela Vale nos últimos anos tem sido um desastre para o Brasil. Primeiro a empresa, quando estatal, criou uma subsidiária especialmente para essa tarefa. Quando já era a maior empresa do mundo em transporte de minério, a Docenave foi sabotada internamente e desapareceu. Sua enorme frota de cargueiros foi vendida a preço de banana. Recentemente a Vale decidiu reequipar a Docenave. Mandou construir – na Coréia e na China – a maior de todas as frotas de graneleiros de grande tonelagem, de 400 mil toneladas.

As encomendas ainda não haviam sido integralmente entregues e tudo mudou de novo, em função do poder chinês. Por pressão dos seus armadores, a China decidiu impedir que os supernavios atracassem nos seus portos, alegando preocupações com a segurança.

A Vale passou então a contratar armadores chineses para as operações dos seus navios no país, depois de ter tentado inicialmente se manter à frente do serviço. Seria a forma de forçar a entrada dos navios no país, mas o contrato não prevê essa condição. A exigência em vigor, proibindo a entrada de navios acima de 350 mil toneladas. poderá ser atenuada ou mantida mesmo com um armador chinês à frente dos negócios.

O golpe foi suficiente para que a Vale reformulasse seu plano de voltar a ter frota integralmente própria. Agora a companhia está atrás de uma composição mista para a sua ainda enorme frota de 35 navios. Se puder, passará em frente todos eles.

Arrendar ou não esses monstros de aço dos mares passaria a depender de um cálculo financeiro quanto à sua lucratividade. O que estaria em questão para a Vale nesta equação seria conseguir vender os navios e contratar os fretes por preços mais baixos do que ela mesma faria.

Mas o que significaria para o Brasil perder completamente o controle sobre fretes que podem ser ainda mais rentáveis do que a própria venda do minério? O Brasil, que avançou na industrialização do minério, marcará passo ou regredirá para atender as conveniências dos grandes compradores, em particular, dos chineses. A pretexto de incrementar o comércio exterior, estagnará na venda de commodities. Imagina que, apesar de tudo isso, contará com uma forte empresa nacional na qual poderá se sustentar.

Mas a multinacional Vale é mesmo uma empresa nacional?

Por Lúcio Flávio Pinto | Cartas da Amazônia – 25 de novembro de 2013

A cidade da Vale

Juiz emite sentença de desapropriação para o reassentamento de Piquiá de Baixo

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Os moradores de Piquiá de Baixo comemoram mais uma vitória. Ontem (11), o Juiz Dr. Ângelo Antônio Alencar dos Santos emitiu a sentença de desapropriação do terreno para onde serão reassentadas 312 famílias do bairro, por não terem mais condições de sobreviver em meio à poluição das siderúrgicas instaladas aos arredores das casas.

A sentença estipulou em 1milhão e 30 mil reais como indenização do terreno que está localizado às margens da BR222, próximo do Posto da Polícia Federal de Açailândia. Com isso, chega-se à definição da discussão em âmbito judiciário e a Prefeitura poderá desde já regularizar a propriedade do terreno, para em seguida transferi-lo à Associação Comunitária dos Moradores de Piquiá.

Enquanto aguardava a sentença, a Associação de Moradores não parou de trabalhar e já está com o projeto urbanístico e habitacional elaborado, prestes a ser aprovado pela Caixa Econômica Federal para financiamento pelo “Programa Minha Casa Minha Vida”. Os moradores encaram a conquista definitiva do terreno com grande alegria, pois o avanço para o início da construção das novas moradias é grande.

Para celebrar esse momento, nessa quinta (12), às 15h30, os moradores do bairro estarão colocando no novo terreno conquistado uma placa em nome da Associação Comunitária. O ato vai acontecer na entrada do novo bairro, na BR 222, próximo à Polícia Federal Rodoviária.
Nesse contexto de importantes de vitórias, eles comemoram também o apoio político da Câmara Municipal de Vereadores de Açailândia. Na quarta-feira 11 à noite, a Câmara aprovou o Plano Plurianual de orçamento do Município, no qual por moção aprovada em unanimidade, está sendo inserido um recurso específico para o reassentamento do Piquiá de Baixo.

Na manhã dessa quinta (12), membros da Associação Comunitária de Moradores de Piquiá de Baixo reuniram-se com vários vereadores solicitando o apoio formal da Câmara e definindo como encaminhamento uma reunião urgente, a ser realizada na próxima semana, com as secretarias municipais que virão a ser interessadas no processo de construção do bairro.

Nessa mesma quinta, à noite, a Associação de Moradores do Piquiá encontrará as diretorias da Associação Comercial e Industrial de Açailândia (ACIA), do Sindicato do Comércio Varejista (SICA) e da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Açailândia (CDL), para estipular parcerias e debater sobre futuras instalações no novo bairro.

Rede Justiça nos Trilhos