
Comunidades dos assentamentos e acampamentos de Açailândia vivenciam imersão prática na Terra Indígena Rio Pindaré para fortalecer a soberania alimentar, a transição agroecológica e a defesa dos territórios.
A Justiça nos Trilhos (JnT) — por meio do eixo de Alternativas Econômicas e da Escola de Educação Popular —, em parceria com o Coletivo Mangangá e a comunidade local, realizou um intercâmbio comunitário no Território Indígena Aldeia Piçarra Preta, localizado na Terra Indígena Rio Pindaré.
A iniciativa reuniu jovens e moradores dos assentamentos e acampamentos da reforma agrária da região do Novo Oriente (Açailândia/MA) para uma vivência prática ao lado dos povos originários. A ação integra o acompanhamento dos projetos produtivos individuais e coletivos promovidos pela JnT, aliando o aprendizado técnico sobre sistemas sustentáveis de produção à formação política e humana da juventude camponesa.
Desconstrução de estereótipos e aprendizado prático
Muito além da troca de conhecimentos agrícolas, o encontro foi desenhado como um espaço de desconstrução de preconceitos e quebra de paradigmas sobre o modo de vida e a capacidade produtiva dos povos indígenas.
De acordo com Arielle Prates, integrante do eixo de Alternativas Econômicas da Justiça nos Trilhos, o intercâmbio cumpriu um papel estratégico no desenvolvimento dos projetos comunitários:
“O objetivo foi fazer com que os jovens conhecessem a realidade do território indígena para quebrar paradigmas sobre como a comunidade se organiza e produz. Queríamos mostrar na prática o que é a agroecologia e com quem a gente aprende, que são os povos originários. Levamos os participantes não só para verem os meios de produção, mas para entenderem a dimensão social e comunitária desse trabalho”, explicou Arielle.
Olhar, ouvir e sentir: a vivência no território
Durante a imersão na Aldeia Piçarra Preta, os participantes acompanharam de perto as rotinas de manejo e soberania alimentar da comunidade. A juventude esteve envolvida diretamente no trabalho de campo: acompanhou a colheita de 15 sacos de mandioca, o transporte até a casa de farinha, o descasque, a lavagem e o preparo da massa no tanque para o processo de fabricação da farinha.
Além disso, o grupo visitou as criações de galinhas, os açudes de piscicultura e os viveiros de mudas de plantas, conhecendo as diversas frentes de subsistência e conservação ambiental mantidas pelos moradores. Ao final do dia, a integração se estendeu ao esporte e à cultura, com uma partida de futebol entre os jovens e um banho coletivo no Rio Pindaré.
Para Alaide Abreu, a vivência permitiu colocar a juventude camponesa em contato direto com quem historicamente lidera a defesa das florestas e das águas no Brasil:
“Colocar os jovens dos assentamentos em contato com os povos originários numa terra indígena é propor que olhem com outro olhar, que ouçam e sintam essa realidade. É desmistificar a história de que os indígenas não trabalham ou não produzem, mostrando que são eles que há mais tempo vêm lutando na defesa dos territórios, das matas, das águas e das suas tradições”, destacou Alaide.
“A Escola de Educação Popular da Justiça nos Trilhos e o Coletivo Mangangá colocam esses jovens frente às suas realidades para criar um processo reflexivo e crítico, para que entendam de que lado estão, quem está a nosso favor e quem está contra nós”, completou.
Organização coletiva e resistência
O intercâmbio contou ainda com uma roda de conversa conduzida por Vanussa, liderança local, que compartilhou com os visitantes a história de organização e tomada de decisão coletiva da Aldeia Piçarra Preta frente às pressões externas e à garantia de seus direitos territoriais.
A atividade reforça o compromisso do eixo de Alternativas Econômicas da JnT em conectar as lutas do campo e da floresta no Maranhão, demonstrando que a agroecologia, a autonomia econômica e o respeito aos saberes ancestrais são pilares indispensáveis para a construção da justiça socioambiental ao longo dos trilhos.