Nosso Chile em Carajás

Nosso Chile em Carajás

 O maior avião cargueiro do mundo, o russo Ilyushin, pousou pela primeira vez no aeroporto de Belém, em 2007. Fretado pela antiga Companhia Vale do Rio Doce, transportava dezenas de pneus para caminhões Haulpak, conhecidos como “fora-de-estrada”, que estavam em falta no mercado internacional. Essas máquinas são usadas pela empresa em Carajás, que é a maior província mineral do mundo, no sul do Pará. 
Leia o artigo de Lúcio Flávio Pinto sobre os mineiros que também a Vale soterra em Carajás.

Com capacidade para 240 toneladas e com 13 metros de altura (equivalente a um prédio de quatro andares), o “fora-de-estrada” é o maior de todos os caminhões.Um deles, na madrugada do dia 28 de julho de 2007, passou sobre o corpo do auxiliar de serviços gerais Thiago Santos Cardozo, de 20 anos, morador de Marabá. Entre três e quatro horas da madrugada, Thiago segurava um cabo elétrico, que transferia energia de um gerador para a área de operação de uma gigantesca escavadeira. Thiago não tinha lanterna nem rádio de comunicação, e a visibilidade era deficiente por falta de iluminação adequada. A operação foi considerada, pelos fiscais do Ministério Público do Trabalho, “prática bastante arriscada e insegura”. Na perícia, eles estranharam que essa fosse a única atividade “não exercida por trabalhador” contratado diretamente pela Vale, “apesar da relação direta com o processo produtivo”. Embora de maior risco, foi transferida para um trabalhador terceirizado, muito jovem e provavelmente inexperiente. Ao dar ré no caminhão, o operador não percebeu a presença de Thiago no local, onde ele não devia estar, e o esmagou. Só soube do acidente quando o motorista de uma pick-up, que estava no pátio de manobras, o avisou por rádio.

Do alto da cabine da máquina, a visibilidade traseira é nenhuma. O operador manobra às cegas, sem contar sequer com câmeras ou iluminação própria do veículo. No registro policial, a morte foi classificada de “triste fatalidade”.

Foi o acidente de maior impacto em Carajás em 2007. Mas não o único. No ano anterior, José Pimentel Silva foi soterrado por 4,6 mil toneladas de minério de ferro. Ele estava dentro de um pequeno automóvel que dava manutenção para uma escavadeira quando um talude, 13 metros acima, desmoronou, menos de meia hora depois que um enorme trator de esteira D-11 começou a funcionar naquele ponto. A trepidação era intensa porque outras máquinas pesadas circulavam pelo mesmo local. O risco de desmoronamento não constava do Plano de Prevenção de Riscos Ambientais elaborado pela Vale, que é obrigatório por lei. Apesar de tantas máquinas pesadas, não havia na área sinalização ou equipamentos de proteção coletiva. Mesmo assim a empresa, a segunda maior mineradora do mundo e a maior corporação privada do continente sul-americano, foi poupada de pagar a indenização de R$ 91,6 mil, a que a Justiça do Trabalho de Parauapebas a condenou. A instância superior reformou a sentença. Alegou que o espólio de José Pimentel não poderia reclamar dano moral por empregado morto, que ganhava R$ 305 por mês. Naquele momento, 20 mil pessoas trabalhavam nas minas de Carajás, mas só 10% deles eram empregados da Vale. A empresa utilizava os serviços de 170 empreiteiros, terceirizando assim 90% da mão de obra. Nos 18 meses anteriores, a vara única da Justiça do Trabalho recebeu oito mil reclamações, obrigando o tribunal a criar uma segunda vara. As duas são as mais congestionadas do país. Apesar de alguns ajustes, impostos pela fiscalização do governo, a Vale mantém um alto índice de terceirização, mesmo quando os contratados atuam em atividades-fim, que a empresa devia executar diretamente. É assim que pode apregoar índice zero de acidentes. Os que ocorrem são da responsabilidade dos empreiteiros. Também porque as notícias ruins raramente escapam ao controle da empresa, notável por sua capacidade de fazer propaganda e relações públicas. Nem mesmo os paraenses se dão conta de que o estado já é o segundo maior minerador do país, com várias minas, onde trabalham algumas dezenas de milhares de trabalhadores. Eles integravam o público estimado em um bilhão de pessoas em todo mundo, que acompanharam o resgate de 33 mineiros na mina de San José, no deserto de Atacama, no Chile. Mas certamente não como alguns milhares de pessoas, que fizeram esse acompanhamento com mais atenção aos detalhes. Além de estarem interessadas na sorte dos trabalhadores, que ficaram presos numa das galerias, a 700 metros de profundidade, essa pessoas tentavam aproveitar as lições da situação para usá-las em causa própria. Foi o caso dos chineses. A cada ano, entre dois mil e três mil mineradores morrem nas lavras subterrâneas, não de cobre, como no Chile, maior produtor mundial do minério, mas de carvão mineral, que mantém em funcionamento as termelétricas, das quais saem 80% da energia consumida por 1,3 bilhão de habitantes da nação mais populosa da Terra. É muito mais do que a média de 30 a 50 mortes anuais que acontecem no Chile, na busca pelo cobre, produto responsável por 60% do comércio exterior do país.

Dias depois, o mesmo número de mineiros salvos no Chile morreu soterrado na China, por vazamento de gás. A conclusão geral é de que são precárias as condições de segurança nessa importante atividade econômica. O Chile nem assinou a convenção internacional da OIT sobre saúde e segurança na mineração. Por sorte, o acidente aconteceu numa grande mina organizada.

Se fosse em alguma das minas informais, que funcionam à margem das mais elementares regras de operação, o final dificilmente seria feliz. Mesmo o sucesso do salvamento dos mineiros de San José não conseguiu esconder a escandalosa precariedade do trabalho em minas.Um dos mineiros resgatados, mal saiu do buraco, fez a cobrança – direta e firme – ao presidente Sebastian Piñera, que o esperava com ares de salvador. O episódio também podia ser observado com proveito no Pará, que já tem sete grandes minas em funcionamento, lavrando ferro, bauxita, manganês, cobre e níquel, todos produtos de exportação.

Só que as minas paraenses apresentam diferença substancial em relação ao que ocorreu no Chile: são jazidas tão ricas à superfície que permitem a lavra a céu aberto, sem a necessidade de aprofundar a extração. Os acidentes que ocorrem são escandalosos porque, na maioria dos casos, podiam ser evitados, com mais respeito e atenção às condições de trabalho.

O que impressiona são as máquinas gigantescas, operadas com facilidade por trabalhadores bem treinados, graças aos recursos tecnológicos de que dispõem. Como esses equipamentos representam um alto investimento de capital e tecnologia, seus proprietários têm que resguardá-los através da melhor capacitação dos operadores. E de controle e supervisão superpostos.
Diante de tanta tecnologia, a frequência dos acidentes deve-se mais à negligência dos responsáveis pela programação das atividades e à excessiva – quando não indevida – terceirização e ao desrespeito aos direitos trabalhistas. Por isso, as duas juntas do trabalho de Parauapebas são das mais congestionadas do país.

A Companhia Vale do Rio Doce privatizada conseguiu mudar a relação que havia entre funcionários da estatal e os empregados das terceirizados: a posição destacada dos primeiros era cobiçada pelos segundos, cuja maior ambição era se tornarem contratados da CVRD.
Hoje, há empregados de nível inferior da Vale querendo passar para as empreiteiras, onde podem ganhar melhor, a despeito da insegurança na continuidade no emprego, pelo intenso turn-over (mal traduzindo, revezamento compulsório, imposto pelos interesses do patrão), pelo fato de que a demissão em juízo sai mais barato do que o respeito aos direitos trabalhistas desde o início e porque também é precária a estabilidade na principal firma contratante, a própria Vale.

Enquanto isso, a ex-estatal bate seguidos recordes de lucratividade, investimento e distribuição de resultados, tornando-se uma das empresas que mais distribui dividendos, favorecendo os detentores de ações preferenciais (eles não participam das decisões, mas são os primeiros a receber sua cota nos enormes lucros).
Parte dessa rentabilidade deve-se à eficiência da corporação, mas três fatores são fundamentais: a riqueza excepcional do minério de ferro de Carajás, o fato de ele estar localizado nas camadas mais superficiais do subsolo (possibilitando a lavra a céu aberto) e o crescimento exponencial do consumo da China (que também provocou a alta recorde dos preços do cobre, desencadeando uma corrida perigosa a todos os depósitos identificados no Chile, com sacrifício das condições de trabalho e de segurança).

Os paraenses são donos dos dois primeiros fatores, mas não são remunerados por essa condição na mesma medida em que os acionistas da Vale. Com um ônus tributário que equivale, hoje, a menos da metade da incidência de 1997, quando a estatal foi vendida, e uma compensação financeira irrisória, o Pará, de olho nas cenas emocionantes do resgate dos mineiros chilenos, podia tomá-lo como inspiração para cobrar seus direitos sobre o patrimônio tão valioso que são as suas minas. Antes que entre em operação a primeira em profundidade. Exatamente para extrair o cobre, como o Chile faz há muitas décadas. E enquanto as commodities vivem seu ciclo de alta. Projetado originalmente para operar com até 25 milhões de toneladas anuais de minério de ferro, Carajás já atingiu 100 milhões de toneladas e em 2015 chegará a 230 milhões, mais da metade de toda produção nacional, que será recorde. Diariamente, em nove viagens, o trem de Carajás, o maior trem de carga do mundo, com 330 vagões e quatro quilômetros de comprimento (logo terá mais 70 vagões), coloca 250 mil toneladas no porto da Ponta da Madeira, na ilha de São Luís, no litoral do Maranhão.

Daí, o mais puro minério de ferro do mercado (com o dobro de hematita do minério australiano, seu mais próximo concorrente) segue para o mundo; 60% dele rumo à China e 20% para o Japão, os maiores compradores, a 20 mil quilômetros de distância. Para que haja essa quantidade de minério em condições de embarque, máquinas e homens, em turnos sucessivos de trabalho, que se estendem sem intervalos pelo dia inteiro, movimentam um milhão de toneladas de terra e rocha todos os dias.

A pressão gera tensão, que impõe sacrifícios aos trabalhadores e dá causa aos acidentes. Provavelmente eles são muito mais numerosos do que os registrados pela companhia e apontados pelo governo. A tragédia do Chile parece mais próxima do que os anônimos acidentes de Carajás.

Por Lúcio Flávio Pinto, 21 de outubro 2010

Nosso Chile em Carajás

Navio da Vale pode afundar em São Luís

Um navio sul-coreano, da empresa STX Pan Ocean, alugado pela Vale, apresentou ontem, em São Luís, uma rachadura no casco, o que estaria causando a entrada de água no lastro do Vale Beijing, uma das maiores embarcações do mundo. Assim, há risco do navio naufragar, levando todo o minério de ferro que carrega para o mar.

Como a embarcação está atracada no píer 1 do Porto Ponta da Madeira — que a empresa mantém no Maranhão —, o terminal está parado, prejudicando o escoamento da produção da Vale. 

Segundo fontes da região, desde às 4h de ontem, há vários navios bombeando água do Vale Beijing, com capacidade para carregar 400 mil toneladas de minério. O objetivo é tirar a água do lastro — que está em nível bem acima do normal por causa da rachadura — para reduzir o risco de o navio desequilibrar e afundar. 

Embora fique localizado ao lado dos terminais privados da Vale, o Porto de Itaqui, administrado pelo governo do estado, está funcionando normalmente. Por seus portos particulares no Maranhão, a mineradora escoa principalmente minério de Carajás. 

O graneleiro que está com problemas é um dos maiores do mundo, comparável ao M/S Berge Stahl, norueguês que pode carregar 420 mil toneladas.

Procurada pelo GLOBO, a Vale chegou a admitir que havia um problema com um navio alugado, mas disse que não responderia os questionamentos. A empresa informou que somente a sul-coreana STX Pan Ocean, proprietária da embarcação, poderia falar da possível pane. A companhia estrangeira não foi localizada para comentar o problema.

A Secretaria Nacional de Portos confirmou o problema com o navio sul-coreano desde a manhã de ontem no porto particular da Vale. O governo, no entanto, não informou detalhes.

Fonte: O Globo, 05 de dezembro de 2011

Nosso Chile em Carajás

Idoso morre atropelado pelo trem da Vale em Marabá

Um idoso morreu na manhã do dia 9 de maio 2011 após ser atropelado por um trem de carga da empresa Vale, que viajava pela Estrada de Ferro Carajás (EFC) com destino a São Luís (MA). Joaquim Pereira Silva, 70 anos, tentou atravessar a estrada no quilômetro 729, perto de onde morava, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, a Invasão da Coca-Cola.
Veja aqui a representação de Justiça nos Trilhos ao MPE contra atropelamentos; aqui encontra dados sobre a frequência de atropelamentos (na EFC a média de um morto por mês).

A mulher dele, Maria de Jesus Silva, conta que Joaquim saiu a pé de casa pouco depois das 9 horas, com destino a São Domingos, onde trabalhava como lavrador. “A gente mora aqui há dois ou três anos, e eu nunca pensei que fosse acontecer isso. Sempre que passava por ali, a gente olhava para os lados”, desabafou Maria, segundo quem Joaquim, devido a idade, já estava surdo. Os rodados do trem deceparam o pé esquerdo do idoso.
O maquinista do trem deixou o corpo da vítima para trás, depois de desengatar os vagões e evadir-se do local. O trem permaneceu parado, atrapalhando quem precisava passar pelos trilhos.

De acordo com João Irã, morador da Invasão da Coca, a Vale já realizou diversas reuniões com os moradores para tratar da construção de uma passarela no local, mas o projeto nunca deixou de ser “conversa”. “Vamos reunir a comunidade para chamar a atenção do Poder Público e da Vale. Queremos fazer a nossa passarela e, depois dessa [da morte de Joaquim], não temos mais como esperar”, declarou.

REVOLTA
A população ficou revoltada com o acidente. Moradores alegaram já ter presenciado situações graves sobre os trilhos, sem, contudo, atitude alguma para resolução do problema. “Sempre embromam a gente, dizendo que vão fazer essa passarela, e a gente continua a esperar que isso aconteça. Já vi muitos acidentes aqui. Recentemente, um carro foi arrastado. Isso aqui é um risco”, afirmou Nilde Barreto de Lima, moradora da invasão há cinco anos.

Os moradores sustentam que, se nada for providenciado, vão tentar obstruir a passagem do trem à altura da linha que passa no bairro. “Ou a Vale ou a prefeitura, quem quer se seja, se manifesta, ou nós vamos tentar parar a passagem do trem para chamar a atenção. Estamos cansados de fazer reuniões que não dão em nada. Desta vez, temos um fato real. Esse homem [Joaquim] está morto e já é o quarto ou quinto aqui”, acrescentou João Irã.

Para Jurandir Aguilar, a situação já deveria ter sido resolvida faz muito tempo. Ele teme pela vida do pai, também surdo, que vive no Bairro Nossa Senhora Aparecida. “Pode acontecer isso com o meu pai a qualquer momento ou com qualquer outra pessoa. Tem gente morrendo aqui e ninguém faz nada. Isso é uma vergonha. A gente quer preservar a vida”, reclama.

A moradora Aldenira dos Santos Rodrigues, há cinco anos no local, confirma que essa situação vem se arrastando há anos. “Desde quando moro aqui, vejo essa situação. É hora de dar um basta. Quando acontece uma situação dessas, os responsáveis pela estrada vêm e jogam conversa fiada. Agora a coisa vai pegar porque não dá pra continuar assim”, enfatiza.

VALE
Em nota distribuída à imprensa, a Vale informou que comunicou o fato à Polícia Civil de Marabá e aos peritos do Instituto Médico Legal (IML). A empresa esclareceu que investe constantemente em programas e ações socioeducativas que visam à conscientização das comunidades sobre os cuidados necessários para a convivência segura com a ferrovia, tais como não andar sobre os trilhos, respeitar as faixas de segurança e usar somente pontos de travessia próprios para o cruzamento da linha férrea.
Ainda de acordo com a nota, todo o atendimento à família da vítima está sendo realizado.(Luciana Marschall)

Fonte: Correio do Tocantins, 10/05/2011; http://www.ctonline.com.br/noticias_leitura.php?id=1528&id_caderno=7
Para ver reportagem com fotos acesse: http://digital.ctonline.com.br/ ;