Ativistas manifestam contra a Vale no Centro do Rio | Justiça nos Trilhos
25 de agosto, 2012

Em meio aos debates da Cúpula dos Povos e com as atenções do noticiário internacional voltadas para o Brasil, a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, formado por entidades mundiais, denunciou o que o grupo classifica como descaso com os direitos humanos e a ‘insustentabilidade’ das atividades da mineradora Vale do Rio Doce. Para chamar a atenção para suas reivindicações, os integrantes do movimento realizaram passeata, com presença de articuladores da causa de todas as partes do mundo, em frente à sede da companhia no Rio na noite de terça-feira 19 de junho.

Uniram-se à manifestação representantes de movimentos sociais, sindicatos e moradores de comunidades impactadas por empreendimentos industriais, que protestavam contra grandes corporações internacionais.

Apesar de as críticas arranharem a imagem da Vale e fortalecerem suas concorrentes diretas, para os manifestantes, o protesto mostra que, no Brasil, existem movimentos sociais que não concordam com o modelo de produção que, segundo eles, está errado.

Partindo da Cúpula dos Povos, que acontece no Aterro do Flamengo, os manifestantes caminharam até a esquina da Avenida Graça Aranha com a Rua Santa Luzia, onde se localiza o edifício da Vale. Segundo os organizadores, mais de duas mil pessoas participaram da manifestação. 

‘Insustentabilidade’
De acordo com o Padre Dário Bossi, de Açailândia, no Maranhão, o objetivo do protesto é mostrar que o desenvolvimento promovido pela Vale não é sustentável, viola os direitos humanos e comete graves crimes ambientais. Bossi informou que os manifestantes tentariam entregar o ‘Relatório de Insustentabilidade da Vale 2012’, que rebate o relatório anual feito pela mineradora sobre suas ações sustentáveis ao redor do mundo. 

“Realizamos um documento que desmascara as sombras que a Vale omitiu, a partir de testemunhas e dados científicos”, disse Bossi. 

A integrante do Movimento pelas Serras de Minas, Maria Teresa Corujo, disse que a Articulação surgiu em 2007, no Forum Social Mundial, em Belém, por conta de uma série de denúncias que envolviam a companhia. Segundo ela, trata-se de um ato político de questionamento. Ela citou a questão da Serra da Gandarela, próxima a Belo Horizonte, onde, de acordo com a ativista, a Vale luta para evitar que a região se torne um parque natural e, consequentemente, não possa ser explorada pela mineradora.

Sobre a questão de se, ao ser realizado em um momento em que o país está em destaque internacional, o protesto beneficiaria as concorrentes da Vale, que gera mais de 40 mil de empregos diretos apenas no Brasil e atua em 38 países, Corujo afirmou que é interessante que outras companhias interessadas em atuar no país saibam que existem movimentos de cidadãos brasileiros que não querem esse modelo de exploração.

“A Vale precisa respeitar que, em alguns espaços, ela não pode minerar. E isso ela não faz”, disse Corujo. “Se isso [o protesto] estiver fazendo com que essas empresas, nessa coisa de concorrência, fiquem felizes porque a Vale está sendo detonada (sic), sendo que vão querer vir para o nosso mercado, elas ficam sabendo que a gente não vai aceitar. Vamos queimar a imagem delas também”.

O ativista moçambicano Jeremias Vunjanhe, que foi deportado do território nacional quando tentou embarcar em São Paulo para a Rio+20, na terça-feira (12), participou da manifestação e criticou duramente os projetos da Vale em Moçambique e na África.

Segundo ele, a mineradora ‘avança’ no território moçambicano e já domina todo o centro-oeste do país. Ele reporta que, na província de Tete, 1.365 famílias foram desalojadas de suas casas pela Vale para a extração de carvão em uma mina, em Moatize. Ainda de acordo com Jeremias, a companhia, que prometeu melhoria nas condições de vida dos moradores reassentados, não cumpriu sua parte no acordo.

 “Essas famílias estão sem condições dignas de sobrevivência, sem segurança e sem acesso à saúde e à educação”, protestou o ativista. “Vim aqui para denunciar essas grandes multinacionais e chamar a atenção para a situação em Moçambique”, relatou.

Procurada pela equipe de reportagem do Jornal do Brasil, a Vale não retornou as ligações.

Fonte: Jornal do Brasil, 19 de junho de 2012, por Luciano Padua