
O ativismo dos acionistas é mais uma estratégia para levar ao coração da empresa as críticas e conflitos vivenciados pelas comunidades e trabalhadores atingidos pelos empreendimentos da multinacional.
É mais uma tentativa de romper a resistência da empresa em reconhecer as violações de direitos que provoca e de proporcionar um diálogo construtivo na busca de solução para esses problemas, com a companhia assumindo suas responsabilidades. Alguns desses acionistas participaram da assembleia, enquanto outros colegas realizaram um protesto na entrada da sede da companhia, com faixas e panfletos, concedendo entrevistas à imprensa nacional e internacional, que acompanhou tudo de perto, dentro e fora da assembleia.
Danilo Chammas (rede Justiça nos Trilhos) representou na assembleia as comunidades impactadas no Pará e Maranhão; Karina Kato (PACS) se fez presente em nome das comunidades atingidas pela siderúrgica CSA instalada no Rio de Janeiro; Wayne Rae participou como dirigente sindical canadense membro de United Steelworkers (USW), o maior sindicato metalúrgico da América do Norte; Carolyn Kadzin representava o escritório central de USW nos EUA; Leandro Uchoa, é jornalista do Brasil de Fato que também possui ações; Clarice Cassab, professora de Geografia da UFJF, simbolizou a preocupação de uma certa fatia do mundo acadêmico consciente dos impactos do ciclo de mineração e siderurgia; Maria Teresa Viana e o colega Jorge (Movimento pelas Serras e Águas de Minas) estavam presentes em defesa da Serra do Gandarela, ameaçada pelo projeto Apolo da Vale; Jorge Campos representou o Sindimina-RJ; Pe. Dário Bossi trouxe preocupações e pedidos dos Missionários Combonianos, congregação da igreja católica comprometida na busca de justiça socioambiental no corredor de Carajás e no Brasil.
A assembleia desse ano foi presidida por Ricardo Flores (presidente do Conselho de Administração) e contou também com a presença de Guilherme Cavalcanti, Diretor Financeiro e segundo homem da Vale.
Realizou-se num contexto de forte crescimento da Companhia (foi de 200% o salto do lucro do ano passado para o atual) e discutiu, entre outros assuntos, a eleição de novos membros para os Conselhos Fiscal e de Administração e a remuneração dos membros da diretoria executiva, dos conselhos de administração e fiscal e também dos comitês de assessoramento para o ano de 2011.
A crítica das entidades em representação das comunidades e trabalhadores atingidos focou no argumento de que todo esse elevado crescimento financeiro é uma moeda de duas faces e se dá às custas do sofrimento de muitos. Para exemplificar suas colocações, o grupo apontou para uma ampla série de pontos delicados: – a Vale e seus acionistas não podem apostar mais na carência de fiscalização por parte dos governos e na debilidade das pessoas impactadas em fazer valer os seus direitos, através do Poder Judiciário ou de outros mecanismos. – vários governos estão começando a reagir em razão do descumprimento da Vale de algumas suas obrigações: é o caso da Guiné Conakry, que determinou a paralização das obras de reconstrução da ferrovia, financiadas pela Vale para atender a suas necessidades; da Argentina, com ameaça de revogação da concessão da mina de Mendoza; do Pará, em que o Governo Federal, através da seção do DNPM naquele Estado, chegou ao ponto de determinar a revogação da concessão da mina de Carajás devido aos atrasos de pagamento da CFEM (royalties) pela Vale; – o enorme investimento da Vale para a duplicação dos trilhos da Ferrovia de Carajás (1,4 bilhões de dólares) pode estar sendo barrado pela justiça, devido à ilegalidade do processo de licenciamento ambiental conduzido pelo IBAMA; – o povoado de Piquiá de Baixo, vítima há vinte anos da poluição do sistema minero-siderúrgico do Programa Grande Carajás, é um símbolo (conhecido a nível nacional e internacional) dos impactos gerados pela Vale na região. Urge o compromisso sério da Vale, com os investimentos necessários, para a efetivação do reassentamento das 350 famílias desse povoado, primeira e mínima medida de proteção; – uma ação penal foi iniciada contra os diretores da siderúrgica TKCSA no Rio de Janeiro (de propriedade também da Vale) pela poluição e os repetidos acidentes ambientais acontecidos ao longo do último ano; – a Vale deve rever com urgência seu plano de fechar a fundição e demitir 500 trabalhadores em Thompson, no Canadá, afinal a perda desses 500 empregos tende a trazer muitas dificuldades para a região. Além disso, é necessária uma nova postura da empresa na sua relação com os trabalhadores das cidades canadenses de Sudbury, Port Colborne e Voisey´s Bay.
– a Serra do Gandarela, em Minas Gerais, é reconhecida como área prioritária para a conservação da Mata Atlântica e da biodiversidade brasileira, abrigando os recursos hídricos mais significativos para o futuro abastecimento público de água.
Considerando tudo isso, os acionistas críticos perguntaram que tipo de desenvolvimento a Vale pretende garantir para as populações com as quais interage; manifestaram sua esperança de que a nova gestão da empresa abra perspectivas de diálogo e mude seu comportamento na relação com as comunidades e trabalhadores, contestaram o mecanismo ainda muito antiquado e pouco democrático de gestão das assembléias de acionistas: outras empresas até menos fortes do que essa multinacional já costumam abrir previamente a possibilidade de os acionistas incluírem assuntos na pauta da assembleia geral; prever durante a assembleia um espaço específico para que os acionistas expressem suas posições ou perguntas; transmitir o vídeo ou ao menos o áudio das assembleias ao vivo pela internet; promover o registro do conteúdo das manifestações dissidentes na ata pública da assembléia, pedido que, mais uma vez, a Vale recusou de atender.
A busca de maior diálogo com os setores de direção da empresa, defesa dos seus direitos, proteção ao patrimônio ambiental e cultural e maior protagonismo das comunidades locais na administração de parte dos lucros da empresa são metas que as comunidades, os trabalhadores e as organizações que o representam dentro da coalizão de atingidos continuarão perseguindo intransigentemente junto à multinacional.
Fonte: Justiça nos Trilhos, 20 de abril de 2011
Clipping da assembleia dos acionistas:
http://exame.abril.com.br/negocios/empresas/noticias/acionistas-da-vale-questionam-futuro-da-empresa
http://estadao.br.msn.com/economia/artigo.aspx?cp-documentid=28444437
http://economia.ig.com.br/empresas/industria/apos+saida+de+agnelli+acionistas+questionam+futuro+da+vale/n1300086919032.html
http://veja.abril.com.br/agencias/ae/economia/detail/2011-04-19-1880588.shtml
http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2011/04/representante-de-operarios-do-canada-quer-dialogo-melhor-com-vale.html
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