“Negar também é estratégico”: XV ERAM reúne atingidos e atingidas pela mineração para fortalecer a escuta e a resistência no Pará e Maranhão
27 de julho, 2026

Entre os dias 16 e 19 de julho de 2026, o Centro Cabanagem, em Marabá (PA), transformou-se no epicentro da articulação comunitária ao sediar o XV Encontro Pará e Maranhão de Atingidos e Atingidas pela Mineração (ERAM). Reunindo cerca de 40 lideranças do campo e da floresta, o evento foi um espaço fundamental de escuta atenta, memória, afeto e denúncia das violações causadas pelo modelo minerário ao longo do Corredor de Carajás, além de marcar a apresentação de pesquisas e estratégias de autodefesa popular.

Abertura e Mística: Conectar com o espaço e estar por Inteiro

A jornada teve início na manhã do dia 17 com uma mística de acolhimento conduzida pela delegação do Pará. Num ritual de unção com óleos e partilha de afetos, os participantes foram convidados a “conectar-se com o espaço e estar ali por inteiro”. A apresentação das lideranças indígenas e camponesas reafirmou que, antes de qualquer debate técnico ou económico, o ERAM é um espaço de cura, memória e união de povos que partilham as dores e a resistência ao longo do Corredor de Carajás e das bacias hidrográficas da região.

A primeira mesa de debates traçou o panorama dos conflitos territoriais, articulando a conjuntura local do Pará com as pressões geopolíticas globais.

       [ CAPITALISMO VERDE & TRANSIÇÃO ENERGÉTICA ]
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NORTE GLOBAL                         SUL GLOBAL
Exigência de minerais                Zonas de Sacrifício
"críticos" e "limpos"                Etnocídio, poluição e
(Carros elétricos/baterias)          violência de género

1. Pará no epicentro dos conflitos minerários e agrários

A professora Lucilei Martins (UEPA – Conceição do Araguaia) abriu a análise de conjuntura alertando para o facto de o estado do Pará ter ultrapassado Minas Gerais, tornando-se o maior minerador do país — e, paralelamente, o líder em números de conflitos por terra e água, segundo o Observatório da FASE.

Lucilei destacou a assimetria institucional do Pará em comparação a Minas Gerais:

“O estado do Pará possui menos mecanismos e processos institucionais de controlo. Isso não impede os conflitos em Minas, mas lá existe um aparelho institucional mais forte. Aqui, o avanço sobre territórios da reforma agrária e terras indígenas ocorre com escassa fiscalização.”

Ao abordar as pesquisas que desenvolve em Ourilândia do Norte e Conceição do Araguaia, a professora recorreu aos conceitos de Justiça Ambiental (Henri Acselrad) e Zonas de Sacrifício (Bruno Malheiro), explicando como o discurso de “progresso” e a expansão simultânea da monocultura da soja e da mineração sequestram a água das bacias hidrográficas e inviabilizam a produção camponesa tradicional.

  • Impacto hídrico: Em Conceição do Araguaia, a mineração projeta captar água suficiente para sustentar uma cidade de 80 mil habitantes (o município tem 47 mil), rebaixando lençóis freáticos e ameaçando os rios Arraia e Araguaia.
  • Poluição e poeira tóxica: Relatos de campo denunciaram o uso de óleo e poeira nas vias de transporte minerário, provocando a morte de moradores com problemas respiratórios e contaminando pastagens e animais.

2. Lançamento da pesquisa: “Às Sombras da Transição Energética”

De seguida, Larissa Santos (JnT) fez a apresentação oficial do relatório inédito produzido pela Justiça nos Trilhos em parceria com redes internacionais (AIDC e APMDD), apoio da Wellspring Philanthropic Fund, Misereor e colaboração académica do Grupo de Pesquisa MINAS (Universidade Federal de Viçosa – UFV) e da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Larissa provocou a plenária sobre a falsa novidade do “capitalismo verde”:

“O objetivo deste relatório é fazer uma leitura crítica da narrativa da transição energética mobilizada por empresas e governos. Trazemos dados, mapeamentos e a resistência dos territórios para mostrar que a corrida por lítio, cobre e níquel reproduz velhas práticas coloniais e altamente poluentes, transformando a Amazônia e Minas Gerais em zonas de sacrifício.”

O estudo sistematiza o desmonte regulatório — como o Decreto 11.120/2022 e a Medida Provisória 1.308/2025 (licenciamento acelerado) — e o uso de recursos públicos (BNDES e FINEP) para subsidiar projetos predatórios sob o pretexto de “decarbonização”.

3. A (Re)patriarcalização dos Territórios e o Impacto sobre as Mulheres

A professora e pesquisadora Ailce Margarida Negreiros Alves (UNIFESSPA), coautora do quinto capítulo do relatório, trouxe uma das falas mais contundentes do encontro ao detalhar a escuta realizada com mais de 60 mulheres em Marabá e Canaã dos Carajás.

Margarida denunciou a lógica patriarcal da mineração, que resulta no inchaço demográfico masculino, na explosão da violência de género, no aumento da prostituição infantil e na sobrecarga do trabalho de cuidado não pago exercido pelas mulheres:

“Quando o rio é contaminado — como o Rio Cateté, onde 100% dos indígenas Xikrin testados apresentaram metais pesados no organismo —, contamina-se o peixe, o alimento sagrado. E quem cuida dos doentes? São as mulheres. […] Os projetos chegam aos territórios e mapeiam os peixes, os morcegos, o rato… mas ignoram as pessoas. Negar a presença humana é uma estratégia colonial para dizer que o território está ‘vazio’ e pode ser destruído. Negar também é estratégico.

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│                        «NEGAR TAMBÉM É ESTRATÉGICO»                     │
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│  "A mineração não vem sozinha: vem com o agronegócio, com o Estado e    │
│  com a lei. Negar a presença das comunidades, das mulheres e dos seus   │
│  modos de vida é a estratégia central para legitimar a expropriação."   │
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│  — Prof.ª Ailce Margarida (UNIFESSPA) no XV ERAM                        │
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4. Geopolítica, Minerais Críticos e a Disputa pelo Estado

Fechando as exposições da manhã, Alessandra Cardoso (INESC) contextualizou a corrida global pelos minerais críticos (lítio, cobre, níquel, terras raras). Ela explicou que o capital transnacional capturou a agenda climática para transformar a redução de emissões num novo nicho de acumulação financeira.

“A transição energética corporativa significa que as empresas não querem pagar pela decarbonização dos seus processos. Elas exigem dinheiro público, crédito subsidiado, isenções fiscais e flexibilização ambiental. No Congresso Nacional, avançam projetos de lei que declaram a ‘indisponibilidade do interesse público’ da mineração, colocando a lavra acima de territórios indígenas, quilombolas e assentamentos.”

Alessandra apontou caminhos de resistência institucional e popular, defendendo o fortalecimento da Convenção 169 da OIT (Consulta Prévia, Livre e Informada) e a criação urgente de Salvaguardas Socioambientais e Trabalhistas vinculantes.

Pé no chão: Vivência nos territórios atingidos em Marabá

No domingo (18), a programação do XV ERAM desdobrou-se para além do Centro Cabanagem numa atividade de campo que colocou os participantes em contato direto com a realidade das populações atingidas pela logística e pela infraestrutura minerária em Marabá. A comitiva percorreu o complexo de ocupações urbanas que abrange bairros como Km 07, São Félix e Araguaia, onde constatou o impacto do tráfego pesado de trens e caminhões, o ruído constante, as rachaduras nas casas e as restrições impostas por viadutos e muros construídos pela mineradora Vale. A circulação também passou pelas obras de duplicação da ponte sobre o Rio Tocantins, um empreendimento desenhado para acelerar o escoamento de minério e commodities que altera o fluxo do rio e inviabiliza a pesca e o sustento das famílias ribeirinhas locais.

A vivência estendeu-se até a Terra Indígena Mãe Maria, onde a delegação foi acolhida pela Cacica Kátia, do povo Akrãtikatêjê/Parkatêjê. Numa roda de conversa e memória no território sagrado, a cacica compartilhou a trajetória de resistência do seu povo — marcado pelo histórico de descolamento forçado com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí na década de 1970 —, destacando a luta permanente contra os impactos da ferrovia, das rodovias e dos linhões que cortam a terra indígena. Kátia enfatizou a importância da autonomia econômica comunitária, da preservação da biodiversidade e do fortalecimento da educação e da saúde como ferramentas centrais de autodefesa e garantia do futuro das novas gerações indígenas.

A atividade de campo reafirmou que, frente às violentas estratégias do extrativismo corporativo, a denúncia da Justiça nos Trilhos e das organizações parceiras mantém o seu alicerce na escuta atenta, no afeto e na presença física junto a quem vive na linha de frente dos territórios. A passagem pelos bairros e pela terra indígena evidenciou que a luta por direitos, por reparação e pela preservação do meio ambiente exige uma articulação contínua entre o campo e a cidade, colocando a dignidade e a soberania dos povos acima dos interesses de grandes empreendimentos.

📥 Baixe o relatório completo

O relatório completo já está disponível para download gratuito na biblioteca digital da Justiça nos Trilhos.

📋 Ficha técnica e créditos do relatório

  • Realização: Justiça nos Trilhos (JnT) — Maranhão
  • Projeto: Global South Project on Combating Profit Shifting and Illicit Financial Flows
  • Parceria Internacional: AIDC (África do Sul) e APMDD (Filipinas)
  • Apoio: Wellspring Philanthropic Fund, Misereor, Grupo de Pesquisa MINAS / Universidade Federal de Viçosa (UFV)
  • Coordenação Editorial: Tádzio Peters Coelho e Renato Paulino Lanfranchi
  • Autoria: Tádzio Peters Coelho, Bruno Malheiro, Ailce Margarida Negreiros Alves, Larissa Pereira Santos, Alice Grazielle Baru Santos, Evelin Camile Ribeiro Barbosa, Maria Laura Emiliano Ferreira, Anna Maria de Toledo Porto, Lara Spadeto de Freitas, Vinicius da Silva Benjamin, Izabella Rodrigues Alves, Wander Lucas Teixeira, Marcelo Bruno Ribeiro Barbosa e Thiago Sabino.