A urgência global em torno da crise climática tem colocado a “transição energética” no centro dos debates econômicos e geopolíticos. No entanto, por trás do discurso de uma economia de baixo carbono e da busca por tecnologias “limpas”, esconde-se um processo agressivo de expansão minerária no Sul Global.
Para jogar luz sobre essa realidade, a Justiça nos Trilhos (JnT) disponibiliza a pesquisa inédita “À Sombra da Transição Energética: Financiamento público, desregulação e impactos da mineração de níquel, cobre e lítio na Amazônia e em Minas Gerais”, realizada no âmbito do Global South Project on Combating Profit Shifting and Illicit Financial Flows (em parceria com a AIDC da África do Sul e a APMDD das Filipinas).
O relatório completo já está acessível para leitura e download gratuito no link abaixo.
O que o estudo revela?
A pesquisa analisa criticamente como a narrativa do “capitalismo verde” tem sido instrumentalizada para legitimar o avanço neoextrativista no Brasil. Em vez de promover uma transição ecológica justa, a corrida por minerais como lítio, cobre e níquel reproduz velhos padrões de exploração colonial, transformando territórios ricos em biodiversidade e comunidades tradicionais em verdadeiras “zonas de sacrifício”.
O relatório detalha essa dinâmica através de quatro eixos fundamentais:
1. Desregulamentação e dinheiro público a serviço da destruição
O avanço das mineradoras é ativamente pavimentado pelo próprio Estado brasileiro. O estudo detalha o desmonte dos marcos regulatórios — exemplificado pelo Decreto 11.120/2022 (que facilitou a exportação de lítio) e pela Medida Provisória 1.308/2025 (que criou um rito de licenciamento ambiental acelerado, blindando o setor da participação popular). Além disso, instituições públicas como o BNDES e a FINEP destinam bilhões de reais em créditos subsidiados para financiar projetos socioambientalmente predatórios.
2. A Ilusão do Lítio “Verde” em Minas Gerais
Analisando as operações de transnacionais como a canadense Sigma Lithium e a holandesa AMG no Vale do Jequitinhonha e em Nazareno/São Tiago (MG), a pesquisa desmistifica o selo de “mineração verde”. Sob a justificativa do beneficiamento a seco, as empresas geram montanhas de estéril que cobrem rios e comunidades com poeira tóxica, provocando surtos de doenças respiratórias, de pele e oculares. O estudo denuncia ainda rachaduras em residências causadas por explosões e a irresponsabilidade fiscal da Sigma Lithium, que deixou de pagar a CFEM (royalties da mineração) aos municípios afetados em 2025.
3. A Amazônia e o etnocídio silencioso em Onça Puma
O avanço sobre a Amazônia tem pressionado Terras Indígenas e Unidades de Conservação com milhares de requerimentos minerários e fomentado o garimpo ilegal. Um dos casos mais alarmantes detalhados no relatório é o do projeto de níquel Onça Puma, operado pela Vale S.A. em Carajás. A contaminação do Rio Cateté resultou na presença de metais pesados no organismo de 100% dos indígenas Xikrin do Cateté testados, desencadeando malformações fetais e graves doenças neurológicas. O relatório caracteriza essa realidade como a “necroeconomia da desfaçatez”: lucrar aniquilando vidas locais enquanto se vende uma imagem de salvação climática.
4. Gênero e a (re)patriarcalização dos territórios
A chegada dos grandes projetos minerários em polos amazônicos como Canaã dos Carajás, Parauapebas e Marabá (PA) provoca um fluxo migratório massivo e majoritariamente masculino, resultando em uma explosão nos índices de violência doméstica, abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. O estudo denuncia como as mulheres sofrem os impactos mais severos: são as principais vítimas de expropriações territoriais violentas (como no acampamento Grotão do Mutum) e assumem, sem qualquer suporte do poder público, a sobrecarga de cuidar de familiares adoecidos pela poluição.
Por uma transição que de fato defenda a vida
A conclusão do relatório é categórica: a verdadeira sustentabilidade não pode ser construída sacrificando povos, florestas e territórios do Sul Global. A atual “transição energética” corporativa funciona como um escudo de greenwashing para que grandes empresas continuem escoando riquezas, desrespeitando legislações e devastando vidas.
Baixe o material completo, conheça os dados e some forças para ecoar essa denúncia.
- Realização: Justiça nos Trilhos (JnT) – Maranhão
- Parceria: Alternative Information Development Centre (AIDC) e Asian Peoples’ Movement on Debt and Development (APMDD)
- Apoio: Wellspring Philanthropic Fund, Grupo de Pesquisa MINAS, Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Misereor
- Coordenação Editorial: Tádzio Peters Coelho e Renato Paulino Lanfranchi