A Justiça nos Trilhos (JnT) recebe com profunda dor e indignação a notícia do falecimento de José de Sousa Barroso, o Tio Julio, ocorrido em 15 de janeiro de 2026

Tio Julio foi um homem do território. Migrante que fincou raízes na Amazônia há quase quarenta anos, construiu sua vida na Vila Bom Jesus, onde viveu desde a adolescência e fez da defesa da dignidade humana, da vida comunitária e da natureza uma prática cotidiana. Sua trajetória se inscreve na história de resistência dos povos e comunidades atingidas pela mineração no sudeste do Pará.
Na Vila Bom Jesus, território marcado por profundas violações decorrentes da mineração, Tio Julio atuou de forma corajosa e persistente na organização comunitária e no fortalecimento da Associação de Moradores, enfrentando diretamente o avanço da mineração sobre a vida, a terra e os modos de existência das famílias da região. Ao lado de seus vizinhos, organizou resistências, denunciou o descaso da mineradora e buscou alternativas coletivas para enfrentar processos de expropriação e pressão institucional.
Em um contexto de conflitos fundiários intensos, Tio Julio chegou a dividir seu próprio lote com outros agricultores como estratégia de fortalecimento coletivo diante das negociações impostas pela empresa. Ainda assim, foi alvo de ações judiciais que ameaçavam a perda de grande parte de sua terra, inviabilizando o acesso ao rio e comprometendo a agricultura que sustentava a comunidade, antes reconhecida pela produção de alimentos e pela vida rural ativa.
Em entrevista à série Insustentáveis, Tio Julio denunciou com clareza e coragem a perseguição aos trabalhadores organizados e a ausência de escuta por parte das instituições:
“Eles nos vigiam, sabem que nos organizamos. A Vale odeia trabalhador organizado. Por isso entrou na Justiça contra mim, e a Justiça não me ouviu.”
Ao longo das últimas décadas, a região de Canaã dos Carajás foi palco de intensas disputas em torno de terras públicas, modos de vida e direitos territoriais. Investigações jornalísticas independentes e estudos técnicos têm revelado processos de apropriação privada de extensas áreas públicas, sobreposição de registros fundiários e ações judiciais que afetam diretamente comunidades rurais, agricultores e moradores da região da Serra dos Carajás. É nesse contexto de conflito socioambiental e fundiário que se insere a trajetória de luta de Tio Julio, profundamente conectada à defesa do território, da vida comunitária e do direito de existir com dignidade.
Tio Julio acreditava na força da coletividade, no diálogo entre saberes e na produção de conhecimento comprometida com a transformação social. Caminhou ao lado de pesquisadores, movimentos e organizações que, como a Justiça nos Trilhos (JnT), denunciam as violações cometidas por grandes empreendimentos e afirmam o direito dos povos de existir com dignidade em seus territórios.
Do Maranhão ao Pará, seguimos conectados por trilhos que transportam minério, mas também por lutas que atravessam comunidades, rios e fronteiras. A memória de Tio Julio nos lembra que os impactos da mineração não são isolados, e que a resistência dos territórios é parte de uma mesma luta contra a injustiça socioambiental imposta pelo capital mineral.
Homenagear Tio Julio é reafirmar o compromisso da JnT com a defesa da vida, dos direitos humanos e da natureza. É afirmar que sua história não será silenciada e que sua coragem permanece viva nas vozes e nos passos de quem segue enfrentando a mineração predatória.
Manifestamos nossa solidariedade à família, aos amigos e às companheiras e companheiros de luta da Vila Bom Jesus. Seguiremos atentos aos desdobramentos de sua partida, reafirmando que a verdade, a memória e a justiça são pilares inegociáveis.

Tio Julio vive na luta dos povos atingidos.
Presente hoje, presente sempre.