De Açailândia para o mundo: Justiça nos Trilhos (JnT) recebe prêmio internacional em Washington (EUA)

De Açailândia para o mundo: Justiça nos Trilhos (JnT) recebe prêmio internacional em Washington (EUA)

Representantes da organização participaram da cerimônia que homenageou a luta por direitos humanos e justiça ambiental, com foco na responsabilização de grandes corporações por violações cometidas em seus territórios de atuação.

Renato Lanfranchi, um dos coordenadores da JnT, recebe o Prêmio Internacional de Direitos Humanos Gwynne Skinner 2025 ao lado da advogada popular Valdênia Lanfranchi.

A Justiça nos Trilhos (JnT) recebeu, em Washington D.C., o Prêmio Internacional de Direitos Humanos Gwynne Skinner 2025, concedido pela International Corporate Accountability Roundtable (ICAR). A premiação reconhece iniciativas exemplares na responsabilização de grandes corporações por violações de direitos humanos e danos socioambientais em suas cadeias de operação.  Neste ano, a JnT foi a única entre as oito organizações nomeadas no mundo inteiro a ser premiada — e também a única representante da América Latina. A cerimônia aconteceu numa quinta-feira, no dia 8 de maio.

A indicação ao prêmio foi feita pela Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), da qual a JnT é afiliada. A cerimônia de entrega contou com a presença de Renato Lanfranchi, um dos coordenadores da JnT, e da advogada e educadora popular Valdênia Paulino, referência nacional na luta por reparação no caso de Piquiá de Baixo — um bairro da cidade de Açailândia (MA) que foi transformado, sem consulta popular, em distrito industrial, tornando-se símbolo de racismo socioambiental no Brasil.

O território, historicamente habitado por famílias trabalhadoras, foi escolhido como zona de sacrifício para a instalação de siderúrgicas, próximo ao entreposto de minério da multinacional Vale S.A. e da Estrada de Ferro Carajás (EFC), que atravessa a comunidade com dezenas de trens carregados de minério todos os dias. Essa configuração impôs uma rotina de poluição do ar, da água, do solo e do corpo, marcada por adoecimento, morte precoce e violações persistentes de direitos humanos e ambientais.

O prêmio reforça o papel da organização na luta por justiça socioambiental, reparação integral e responsabilização de grandes empresas, como a Vale, que há mais de 30 anos opera sem controle efetivo na região. A vitória é também da comunidade de Piquiá de Baixo, que conquistou o reassentamento de 312 famílias em um novo bairro — o Piquiá da Conquista —, construído longe da área mais impactada pela poluição industrial.

Renato e Valdênia com o prêmio em mãos.

“Essa vitória não é só nossa, é de todo mundo que acreditou que a gente merecia viver melhor”, disse Sebastiana Costa, educadora e fundadora do grupo Mulheres Saudáveis de Piquiá.

As famílias de Piquiá viveram entre trilhos, fumaça e doenças. Respiravam um ar carregado de resíduos metálicos. Sofriam com problemas respiratórios, renais, pulmonares — que, embora recorrentes, nunca foram oficialmente relacionados à poluição que os cercava.

Durante a premiação, Renato Lanfranchi ressaltou a importância da articulação internacional e da solidariedade global para enfrentar crimes corporativos: “Esse reconhecimento nos fortalece para seguir exigindo que empresas previnam, mitiguem e reparem integralmente os danos causados a comunidades e territórios.”

Já Valdênia Paulino fez um discurso comovente em homenagem às vítimas da poluição em Piquiá, citando casos de moradores como Dona Aninha, de 29 anos, e Edvard Dantas, de 76, que faleceram com sintomas respiratórios e doenças crônicas nunca reconhecidas oficialmente como relacionadas à contaminação ambiental.

A advogada emocionou o público ao citar nomes e rostos dessas estatísticas silenciadas:

“Dona Aninha, 29 anos, mãe de quatro filhos, falta de ar constante. Lurdes, 36, insuficiência renal, crises de asma. Seu Edvard, 76, pulmões comprometidos. Nenhuma dessas mortes foi reconhecida como consequência da contaminação. Mas nós sabemos. E hoje, invocamos a memória de todas as vidas levadas pela cadeia da mineração — no Brasil e no mundo.”

Por que esse prêmio importa para o Brasil e para o Maranhão

A premiação é um marco internacional que projeta o Maranhão no centro do debate global sobre direitos humanos, justiça ambiental e responsabilidade corporativa. Ao reconhecer o trabalho da JnT, o ICAR e a FIDH chamam atenção para casos de impunidade empresarial no Sul Global e reforçam a urgência de políticas públicas de reparação ambiental e respeito aos direitos dos povos atingidos.

A luta de Piquiá de Baixo é símbolo de resistência coletiva e conquista popular. Em tempos de flexibilização das leis ambientais e avanço da mineração sobre territórios tradicionais, a conquista do prêmio fortalece o movimento por direitos humanos, justiça climática e direitos da natureza em todo o país.

Entre o reconhecimento e a urgência: as violações continuam

Apesar da conquista simbólica e concreta do novo bairro Piquiá da Conquista, onde 312 famílias reassentadas hoje respiram ar limpo, a luta por reparação está longe de acabar.

Diversas famílias ainda permanecem em Piquiá de Baixo, convivendo com os mesmos riscos sanitários, ambientais e de violação de direitos que motivaram o reassentamento. Recentemente, a Defesa Civil de Açailândia iniciou a derrubada de casas, mesmo com pessoas ainda vivendo no local — muitas sem alternativa imediata. Essas famílias enfrentam falta crônica de água, cortes de energia e insegurança permanente, num cenário que só agrava a situação de vulnerabilidade.

É importante dizer: essas famílias nunca foram indenizadas pelos danos que sofreram. O reassentamento foi uma conquista coletiva, mas não substitui a reparação integral. A reconstrução da vida longe do polo industrial foi um passo essencial, mas forçado. Há perdas materiais, afetivas e simbólicas que não podem ser apagadas. Existe o direito à memória, à justiça, à reparação financeira e moral das famílias que foram obrigadas a escolher entre adoecer ou sair.

A vitória do ar limpo e o direito à memória

O reconhecimento internacional veio coroar uma das mais emblemáticas conquistas da luta popular no Brasil: a construção do novo bairro Piquiá da Conquista, fruto de anos de articulação, processos jurídicos e mobilização comunitária. Hoje, as famílias reassentadas vivem em casas dignas, com infraestrutura básica, longe da fumaça.

Sebastiana Costa, uma das moradoras mais ativas e fundadora do grupo Mulheres Saudáveis de Piquiá, celebrou essa mudança:

“Eu decidi que não ia ser cúmplice da destruição do lugar onde nasci. Quando olhamos hoje e vemos as crianças brincando sem tossir, as famílias comendo juntas sem o gosto de pó no feijão, a gente sabe que valeu a pena lutar. Essa vitória é de todos que acreditaram na nossa vida.”

No entanto, muitas casas da antiga Piquiá de Baixo ainda guardam as marcas da dor e da resistência. Nas paredes, há frases, desenhos e objetos que contam histórias apagadas dos relatórios oficiais. A memória dessas famílias precisa ser preservada, não demolida.

“A luta continua. Receber esse prêmio é, sim, motivo de celebração, mas também um chamado urgente”, afirma Mikaell Carvalho, um dos coordenadores da JnT. “É um alerta para que o Brasil olhe com seriedade para os territórios sacrificados e para que a justiça deixe de ser exceção e passe a ser regra.”

por Lanna Luz e Yanna Duarte

Mulheres em Resistência | O encontro pré-ERAM e o direito à memória

Mulheres em Resistência | O encontro pré-ERAM e o direito à memória

Atingidas pela mineração e agronegócio se reúnem em Piquiá da Conquista para fortalecer a luta pelo direito à memória e denunciar os impactos desses empreendimentos em seus territórios.

“A única luta que se perde é a que se abandona”. Foto: Genilson Guajajara

No dia 25 de janeiro de 2025, cerca de 30 mulheres se reuniram em Piquiá da Conquista, em Açailândia (MA), para fortalecer a luta pelo direito à memória da comunidade de Piquiá de Baixo. O encontro foi um marco na construção de estratégias de resistência contra os impactos da mineração e do agronegócio no Corredor Carajás, fortalecendo laços de solidariedade entre as mulheres atingidas.

Essa mobilização integrou a etapa preparatória para o Encontro Regional dos Atingidos e Atingidas pela Mineração e o Agronegócio (ERAM), reunindo mulheres de diferentes territórios do Brasil — Maranhão, Pará, Minas Gerais, Rio de Janeiro e outras regiões — em um espaço de articulação, denúncia e memória viva. Durante as atividades, as participantes reafirmaram o compromisso coletivo de registrar e difundir suas histórias, garantindo que suas lutas não sejam apagadas.

A programação iniciou no Centro Comunitário de Piquiá de Baixo, de onde as mulheres partiram em caminhada, com cartazes e palavras de ordem em defesa dos modos de vida das comunidades tradicionais. O ato também prestou uma homenagem emocionante às vítimas do crime socioambiental de Brumadinho (MG), que completava seis anos na mesma data.

A luta da comunidade de Piquiá de Baixo contra a poluição causada pela cadeia da mineração resultou no reassentamento de 312 famílias para o bairro Piquiá da Conquista, buscando afastá-las dos impactos diretos da poluição do ar e sonora. As mulheres presentes discutiram como essas violações afetam seus corpos e suas realidades, conectando experiências de diferentes territórios.

“Em Piquiá de Baixo, sofremos muitos impactos, como a poluição sonora e do pó de ferro. Muitas famílias tiveram seus filhos queimados pela munha, além dos acidentes na BR-222 por conta dos caminhões. Estávamos cercados pela Estrada de Ferro Carajás e, por outro lado, pelas empresas produtoras de minério de ferro”, relatou uma das participantes.

O direito à memória reivindicado pelas mulheres é parte do conceito de reparação integral, que reconhece a importância de contar suas próprias histórias para que as violações sofridas não se repitam.

Larissa Santos, coordenadora política da Justiça nos Trilhos, enfatizou a importância de documentar e compartilhar esses relatos: “A memória é um direito, e as comunidades violadas devem ter a liberdade de contar suas versões para que sejam respeitadas”.

Margarida Negreiros, que viajou de Marabá (PA) para participar do encontro, destacou como a realidade de sua região se assemelha à de Piquiá de Baixo devido à mineração: “Eu tinha muita curiosidade de conhecer Piquiá, porque ouço falar há muito tempo sobre as questões que atravessam esse território, que foi tomado das pessoas para que a mineração se estabelecesse”.

O ato foi organizado pela Justiça nos Trilhos no contexto da preparação para o ERAM, que acontecerá ainda este ano. “Temos dialogado para trazer as mulheres e debater as questões vivenciadas nos territórios. A ideia do encontro foi mobilizar elementos para debatermos no ERAM”, concluiu Margarida Negreiros.


Dessa experiência transformadora nasceu o documentário “Memórias”, uma produção audiovisual fruto da formação “Veias Abertas da América Latina: Resistência, Comunicação e Cultura”, realizada de 22 a 26 de janeiro. A iniciativa buscou fortalecer redes de resistência cultural e política, criando espaços de troca, formação e comunicação popular para comunidades impactadas.

O curta-documentário sobre o encontro de mulheres no pré-ERAM, produzido em parceria com a Justiça nos Trilhos (JnT), o Instituto para Democracia, Mídia e Intercâmbio Cultural da Alemanha (IDEM) | Cooperação Alemã (BMZ), e com o apoio da Agência Zagaia, do Grupo LoveLabCom, da RádioTV Quilombo Rampa e da Mídia Guajajara, já está disponível no YouTube da Justiça nos Trilhos.

Rir para resistir: Oficina de Palhaçaria fortalece mulheres defensoras dos direitos humanos em Açailândia (MA)

Rir para resistir: Oficina de Palhaçaria fortalece mulheres defensoras dos direitos humanos em Açailândia (MA)

Iniciativa promove arte e descontração para mulheres assentadas e moradoras de Piquiá da Conquista, resgatando a alegria e a expressividade como ferramentas de empoderamento e luta

Oficina de Palhaçaria incentiva a essência brincante de mulheres defensoras dos direitos humanos em Açailândia (MA)

Entre os dias 13 e 15 de fevereiro, a oficina “Empoderamento Feminino com Práticas de Palhaçaria” percorreu assentamentos da região de Açailândia (MA) e o bairro Piquiá da Conquista, proporcionando momentos de descontração e expressão artística para mulheres defensoras dos direitos humanos e da natureza.

A atividade foi conduzida pelo grupo artístico Miramundo, sob a coordenação da professora de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Michelle Cabral. O objetivo do projeto era estimular o relaxamento e a desinibição das participantes por meio da palhaçaria, permitindo que redescobrissem a alegria e a espontaneidade em suas rotinas.

Duas oficinas foram realizadas: uma no assentamento Francisco Romão, voltada para mulheres da comunidade, e outra no bairro Piquiá da Conquista. Essa não foi a primeira passagem do projeto pela região, em 2017, já havia promovido atividades artísticas em parceria com a Justiça nos Trilhos. Entusiasmada com a experiência anterior, Michele procurou a organização para retomar a colaboração.

Professora de Artes, Michelle Cabral.

“A oficina de práticas de palhaçaria realizada pelo projeto Miramundo foi essencial para despertar características que as mulheres já têm, mas que acabam se esquecendo nas suas rotinas diárias. Elas tiveram a oportunidade de potencializar o seu ‘eu’ artístico, a alegria e as crianças brincantes de cada uma. Com isso, elas se reenergizam e ampliam suas criatividades para continuar os trabalhos em suas comunidades, em defesa da vida e da natureza.”

Para Ana Maria, moradora de Piquiá da Conquista, a experiência foi transformadora. “Nunca tinha vivido algo assim, mas a curiosidade me levou até lá. Foi um momento de soltar a voz, de descobrir a palhaça que já existia dentro de cada uma de nós. Quando colocamos o nariz vermelho, parecia que tudo mudava, a timidez foi embora e a gente se sentiu mais leve, mais à vontade. Foi uma vivência única, uma energia coletiva incrível”, contou.

Mulheres de Piquiá da Conquista na oficina de palhaçaria.

E ao final da experiência, uma personagem ficou marcada na memória das participantes: “A Palhaça Palita é sensacional!”, concluiu Ana Maria, com entusiasmo.