Alto Alegre do Pindaré: atropelamentos e falta de segurança na EFC

terça-feira, 2 de outubro de 2018
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Domingo, 23 de setembro de 2018, aproximadamente 17h, Alto Alegre do Pindaré (MA), Estrada de Ferro Carajás.

Um homem está parado ao lado da ferrovia nas proximidades do bairro Vila Trovão, aguarda a passagem do trem de passageiros da Vale S.A para atravessar ao outro lado. Ele atravessa a primeira linha férrea, mas antes de finalizar o percurso da segunda é surpreendido por uma composição de manutenção da ferrovia, que vinha no sentido contrário. Valdemir Matos dos Santos, 37 anos, morreu no local. Ele era casado, pai de três filhos, morava no bairro Vila Trovão e conhecia bem aquele percurso, pois o fazia habitualmente.

O município maranhense de Alto Alegre do Pindaré, distante 325 Km da capital São Luís, é cortado ao longo de toda sua extensão pela Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em seu perímetro urbano existem três passagens superiores (duas passarelas e um viaduto) que ligam os bairros periféricos, como a Vila Fufuca e a Vila Trovão, ao centro da cidade, onde fica a maior parte dos aparelhos públicos (escolas, hospital, teatro, etc.) e também o setor comercial.

Uma das passarelas, construída entre a Vila Fufuca e a Vila Trovão, é uma reivindicação antiga dos moradores, que desde o ano de 2010 tem notificado à empresa Vale S.A e ao Ministério Público a respeito da falta de travessia segura que atenda suas necessidades. Demorou sete anos até que a passarela fosse finalmente construída.

Em 2017, após a ocorrência do atropelamento de uma mulher e de seu filho e da interdição da ferrovia pelos moradores no local do ocorrido, funcionários da empresa fizeram um “acordo de boca”, sem a assinatura de nenhum documento que garantisse aos moradores a construção da passagem e o cumprimento de um prazo para isso.

O atropelamento, no qual a criança teve um braço amputado e a sua mãe sofreu escoriações pelo corpo e perdeu dedos em uma das mãos, aconteceu em março de 2017. A mulher tentou chegar ao outro lado passando por debaixo do trem, que encontrava-se parado em frente à comunidade, quando este se colocou em movimento. Os dois ficaram deitados nos trilhos, esperando a passagem de todos os vagões até que finalmente puderam ser levados ao hospital.

O acidente gerou revolta entre os moradores que acabaram por realizar a paralisação da ferrovia, reivindicando que a empresa construísse a passagem segura. Nove meses depois do acontecido, em dezembro de 2017, a passarela [azul] foi finalmente inaugurada. Entretanto, em menos de três meses já apresentava danos e rachaduras em algumas partes de sua estrutura.

Segundo moradores, a passarela fora construída para atender as necessidades da Vila Fufuca e da Vila Trovão, mas de fato acaba sendo mais utilizada pelos moradores do primeiro bairro, uma vez que não há nenhuma via de acesso entre a passarela e a Vila Trovão, onde vivem cerca de 60 famílias. Para utilizar a passagem segura Valdemir Matos dos Santos precisaria percorrer um trajeto às margens da ferrovia e avançar por um caminho íngreme e estreito. Esse percurso, que levaria em média 15 minutos, não tem iluminação, é cercado pelo mato e cheio de poças de lama, principalmente nos períodos chuvosos. 

Passarelas – Ao utilizar a passarela [azul], os pedestres precisam disputar espaço com motoqueiros. Não existe nenhuma placa ou sinalização proibindo a passagem de motos pelo local. Além disso, falta iluminação adequada e as pessoas reclamam que não se sentem seguras para usar a passarela à noite, uma vez que na falta de luz o espaço é utilizado por usuários de drogas.

“Não tem um poste, não tem uma luz. De dia é bom, todo mundo vê, todo mundo tá vendo, mas de noite? Como é que a gente vai usar que é tudo no escuro? Não tem condição nenhuma da gente passar por aqui à noite, tanto aqui [passarela azul] como na passagem ali de cima” [passarela amarela], afirma Gildásio, da Vila Fufuca.

As crianças relatam que quando chove as duas passarelas ficam cheias de poças e é necessário redobrar a atenção para não se molhar durante a passagem das motos. “Eu não gosto de melar os kichutes [tênis], daí eu tiro do pé e vou”, relata o menino Derlan, de 9 anos, também morador da Vila Fufuca, que utiliza a passarela mais antiga [a amarela] para ir até a escola. Guilherme, de 12 anos, explica que “quando a moto passa, num tem? aí mela a gente e na hora que duas passa empareada [lado a lado] eu fico lá em cima do ferro [grade da passarela] para não me melar”.

A passarela azul apresenta rachaduras nas duas cabeceiras: no piso da pracinha e nas muretas. No sentido rua pavimentada, a mureta está soltando da estrutura. Segundo Valderir Matos Santos, irmão de Valdemir e também morador da Vila Trovão, não muito tempo após a construção da passarela, ela precisou passar por reparos. “Tem esse lugar aqui que foi remendado aqui ó. Já vieram e já remendaram aqui, porque a rachadura tava era grande. Tem lugar rachado aqui também… na cabeça da passarela também tem rachaduras. E é porque eles tão remendando direto”, conta o morador apontando as rachaduras e os reparos que foram realizados ao longo da estrutura da passarela.  

A rampa de acesso para cadeirante é estreita e fica em um ponto próximo ao mato, no sentido de quem vai ou vem da Vila Trovão para utilizar a passarela [azul], mas dificilmente um cadeirante dessa localidade teria condições de utilizá-la. “Se adoecer uma pessoa a gente tem que passar na rede, porque nós num tem saída, nós num tem acesso nessa Vila, não”, desabafa Valderir.

Para impedir que as pessoas fizessem a travessia pelos trilhos, a empresa Vale construiu uma cerca em um dos lados, sentido rua pavimentada-EFC, utilizando arame liso e dormentes como estacas, no entanto, isso não isolou a ferrovia e não impediu que as pessoas continuassem fazendo o percurso antigo, mesmo após a construção da nova passarela.

Acidentes na EFC – com o atropelamento de Valdemir Matos dos Santos sobe para 6 o número de mortos na Estrada de Ferro Carajás, entre os anos de 2017 e 2018, segundo levantamento da Justiça nos Trilhos. Ao todo, nesse período, ocorreram 11 acidentes: 2 abalroamentos (batida lateral de um veículo em movimento, num cruzamento), 6 atropelamentos e 3 descarrilamento.

Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, órgão responsável pela fiscalização da EFC, entre os anos de 2004 e 2016 ocorreram 124 acidentes no trajeto maranhense da ferrovia, ocasionando a morte de 26 pessoas. A maioria desses acidentes (76) foi de atropelamento. Alto Alegre do Pindaré aparece como um dos municípios onde mais se registram ocorrências de acidentes com vítimas fatais: cinco casos nos últimos 5 anos.

O intenso fluxo de pessoas somado à ausência de sinalização e de mecanismos de proteção adequados causam, em média, um acidente por mês. A falta de estruturas seguras para o atravessamento da ferrovia (viadutos, passarelas, túneis) e a precariedade de muitas outras que já existem contribuem também para o índice de atropelamentos com morte, ao longo de toda a EFC.

Morador da Vila Trovão, grava vídeo demonstrado parte do caminho percorrido para ter acesso a passarela utilizada para a travessia

por Idayane Ferreira

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