Terra Indígena Rio Pindaré: Aldeia Tabocal

segunda-feira, 3 de setembro de 2018
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Os Guajajaras vivem em um território as margens da BR 316 na altura do km 254 localizado no município de Bom Jardim (MA). O território situa-se entre os municípios Santa Inês, Monção e Alto Alegre do Pindaré, além destes municípios, há também pequenas comunidades, que delimitam o território. O território é composto por oito aldeias: Tabocal, Januária, Areião, Areinha, Aldeia Nova, Novo Planeta, Alto do Angelim e Piçarra Preta. Ao todo, são 15 mil hectares de terras habitadas por mais de 1500 indígenas e não indígenas.

A comunidade indígena já existe no território há mais de 150 anos. Os índios são advindos do litoral e da região sul do Maranhão de onde vieram fugindo de invasores dos locais onde moravam. No início, por disputa do território, houve confronto com outro povo os Ka’apor, antes, conhecidos como “urubu” que exploravam a área, mas hoje vivem harmoniosamente. Atualmente, no território dos Guajajaras cada aldeia tem duas lideranças e em algumas ainda mantém-se a figura do Pajé.

Dentre elas, há a aldeia Tabocal, situada às margens do rio Pindaré. A aldeia originou-se de um centro de plantio feito por um casal de índios chamados de Catarina Guajajara e Carneiro Guajajara, no qual, posteriormente, acolheram nas terras outros indígenas dando origem a aldeia Tabocal e as demais que constituem a Terra Indígena Rio Pindaré. Atualmente, a aldeia Tabocal possui 45 famílias. O sistema organizacional estrutura-se, com dois caciques, um pajé e dois líderes de jovens.

Na aldeia Tabocal possui apenas uma escola nível fundamental com duas salas de aulas sendo insuficientes para a comunidade. Há vários anos os indígenas haviam solicitado uma escola (outro prédio) devido o primeiro não suprir as necessidades da aldeia, então fizeram requerimento e protocolaram no Ministério Público Estadual em São Luís solicitando ao governo uma nova unidade para aldeia, porém até o momento a comunidade espera pela conclusão da obra.

A base econômica e de subsistência gira em torno do plantio de mandioca e arroz, caça, pesca e da produção e venda de poucos objetos artesanais. Antigamente, antes do contato maior com os não indígenas, nas aldeias o modo de vida baseava-se mais na coletividade, todos participavam e era como uma festa tradicional. Acontecia pescaria comunitária que reunia todas as comunidades, esse momento era chamado de “tinguijo”. Acontecia também o processo de trocas de alimentos, artesanato e utensílios domésticos. Hoje, o que acontece é apenas a comercialização de artesanato e também de peixes.

Ao todo na TI Rio Pindaré, contêm cinco escolas e três postos de saúde, esse número ainda é insuficiente para a demanda local.

Tradições culturais

Na comunidade mantém alguns ritos tradicionais do povo Guajajara o primeiro rito de passagem chamado de Moquinhado, feito com aves do mato (passarinhos) que dá início ao ciclo das crianças na aldeia, isso acontece quando elas começam a andar. Nesse rito os pais das crianças caçam os pássaros e dá para as mães e elas Moquinham. No dia da festa o Pajé da aldeia reúne as pessoas da comunidade e visitantes e fazem canto por dois dias e duas noites, ao final dos cantos, pela manhã, é feito uma pasta chamado “Angu” e distribuído aos cantores e participantes dando como encerramento a festa e início a um novo ciclo.

A outra festa chama-se Mandiocaba onde só as meninas participam. Esta festa é feita quando acontece a primeira menstruação das meninas. Para esse momento os pais pintam todo o corpo da menina com tinta extraída do jenipapo ficando reclusa em casa até sair toda a tinta do corpo. Depois de sair toda a tinta do jenipapo as mulheres vão atrás do caranguejo e retiram também a raiz da mandiocaba para produção do Angu e Mingau. Para finalizar a festa, os Pajés começam a cantoria seguindo o mesmo processo da festa das crianças. As mulheres fazem o mingau da mandiocaba e angu de caranguejo distribuindo no final da festa pelas moças pintadas que já entraram no ciclo menstrual.

O rito que dar início ao ciclo dos jovens que entraram na puberdade tanto homem como mulher também é conhecido como Moquinhado, porém, diferente do feito com as crianças. Para saber se os jovens já estão prontos para fazer o ritual, observa-se pela mudança da voz do jovem. Sendo que, em um passado mais remoto, quando era para identificar se o jovem estava pronto, os mais velhos pegavam no escroto dos meninos e sabiam se eles estavam prontos ou não para o rito de passagem. Essa prática não acontece mais, agora as mulheres reconhecem apenas pela voz e pela formação do corpo dos meninos baseando-se pelo peitoral estando mais largo. Depois disso os meninos vão se pintar e os pais das moças saem para caçar e a caçada podendo durar de um ou mais meses, dependendo da sorte dos caçadores. Quando eles chegam com a caça “moquinhada” faz o preparo para a festa semelhante aos dois primeiros ritos. Assim como as meninas que pintam o corpo e esperam sair a pintura, os meninos também passam pelo processo, depois desse rito os meninos se tornam homens, assim como as meninas se tornam mulheres, daí eles estão livres para constituir famílias conforme o gosto das famílias envolvidas.

As manifestações culturais, as tradições e ritos sempre foram considerados uma forma das aldeias se associarem entre si, infelizmente, o convívio com os não índios tem trazido muitas experiências ruins, muitos males como doenças.

Conflitos

Na atualidade, a disputa no território ocorre com fazendeiros e posseiros os problemas são gerados devido estes arrendarem seus gados com moradores de comunidades adjacentes, nos quais, estes utilizam a área do território indígena sem o consentimento dos mesmos causando conflitos. Em relação aos problemas com os madeireiros na extração de madeira já está se extinguindo devido ao alto nível de desmatamento, restando pouca madeira para extrair.

Em relação a empresa Vale os problemas são ocasionados pelas atividades operacionais da empresa na área causando assoreamento do Rio Pindaré. Além disso, tem o problema da poluição sonora ocasionado pelo barulho da passagem dos trens, que provoca o afastamento das caças, pois os animais silvestres viviam mais próximos do rio para se alimentar e beber e agora são encontrados em menor quantidade e mais distantes do rio.

Texto e fotos: Antônio Guajajara

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