Hydro polui Rio Murucupi e tira direitos dos moradores de Barcarena

terça-feira, 6 de março de 2018
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Ágata, 8 anos, moradora de Gibrié de São Lourenço (Foto: Mariana Pereira)

“Eu aprendi a nadar sem medo no Rio [Murucupi]. Meu vô me jogava e eu voltava, ele me jogava de novo e eu nadava”, conta entusiasmada Ágata, de oito anos. Ela é filha de uma das 270 famílias de quilombolas da Comunidade Gibrié de São Lourenço, em Barcarena (município localizado no nordeste do Pará), afetadas pela empresa Hydro Alunorte.

O Rio Murucupi, que corta a comunidade de São Lourenço, se estende por toda a área industrial que foi instalada na região desde as décadas de 1980 e 1990. “Ele [Rio] é diretamente impactado por todo o rejeito da produção mineral de Barcarena, não só da Hydro Alunorte, como também da Imerys”, denuncia o jovem Rony Santos.

Nadar no rio era uma das brincadeiras preferidas das crianças de Gibrié de São Lourenço e de tantos outros moradores que vivem às margens do Murucupi. “Agora a minha mãe não deixa eu banhar, ela disse que eu posso pegar coceira”, lamenta Ágata. A brincadeira ficou no passado, o medo de adoecer marca o presente das famílias que precisam pescar e usar a água dos rios e poços de Barcarena.

Os últimos fatos noticiados sobre as ações criminosas da empresa Hydro, mineradora norueguesa que atua na exploração de bauxita no estado do Pará, é o alerta da natureza e da população sobre o que vem acontecendo há anos. As chuvas dos últimos meses escancararam o que os moradores tentavam denunciar de diversas maneiras, sem serem escutados.

Segundo a população de Barcarena, a Hydro Alunorte foi instalada nas proximidades da nascente do Rio Murucupi. “Ele tem a sua nascente principal justamente onde hoje está implantada o DRS 1 da Alunorte, que é a primeira bacia que foi implantada ainda na década de 80. Então todo o material que de lá transborda da produção da Alunorte, tanto pela chuva, quanto pela irresponsabilidade deles mesmo, acaba sendo carregado para o Rio Murucupi e de lá afeta as comunidades”, afirma Rony Santos.

As 270 famílias quilombolas que vivem às margens do Rio ainda tentam retirar parte de seus sustentos da pesca e da roça. Mas é praticamente impossível viver exclusivamente da terra, depois da chegada de empresas como Hydro Alunorte, Albrás e Imerys.

Mário Santos, liderança quilombola de Gibrié de São Lourenço (Foto: Rony Santos)

Muito antes dos vazamentos das barragens de rejeitos da Hydro ocorridos no dia 17 de fevereiro de 2018, e das contaminações confirmadas pelo Instituto Evandro Chagas em 22 de fevereiro, os moradores de Barcarena já viviam com medo de consumir alimentos e água coletados em seus territórios. Os quilombolas de Gibrié de São Lourenço relatam que sentem coceiras, problemas intestinais, mal estar, sensação de gostos diferentes na água e nos peixes. “Tem tucunaré hoje? Tem. Tem camarão? Tem. Mas todos com gosto de detergente, de resíduos da própria Hydro”, denuncia Mário Santos.

Há mais de trinta anos a exploração mineral está presente no município de Barcarena gerando incontáveis impactos negativos para a natureza e transformando os modos de vida das populações. Mário lembra que a rotina dos moradores de Gibrié de São Lourenço, antes da implantação do distrito industrial, era bem diferente. “Nós tínhamos uma vida, graças a Deus, da coleta, da nossa produção de farinha, de tapioca, nosso cupuaçu, nosso peixe, nosso camarão. Então nossos produtos da terra como, por exemplo, manga, bacuri, cupuaçu, tudo que nós produzíamos, nós pegávamos e levávamos para Belém para ser vendido, tomávamos banho no nosso rio, nossos igarapés”.

A criação do complexo industrial que hoje é formado pelas empresas Albrás e Hydro Alunorte, responsáveis por transformar bauxita em alumínio também causaram desapropriações de pessoas que chegaram às margens do Rio Murucupi antes das mineradoras. Esse é um contexto que faz José Augusto se questionar: “Como é que vem um projeto industrial pra um município aonde as pessoas não estão preparadas pra trabalhar na indústria?”.

Com as desapropriações, em decorrência da construção do distrito, moradores foram retirados de suas roças para dar lugar às indústrias, as caças desapareceram com a chegada de máquinas, com a abertura de estradas e com o desmatamento. “Então nosso paraíso começa a ser destruído, a ser desmantelado. De lá para cá nós fomos proibidos de fazer roça, proibidos de ter a nossa própria produção e fomos obrigados a nos empregar, a viver de uma vaga, mendigar uma vaga de emprego nas portas da fábrica”, desabafa Mário Santos.

Essa liderança quilombola criticou a criação e a atuação da Companhia de Desenvolvimento de Barcarena (Codebar). Pensada para planejar o desenvolvimento do município a Companhia é acusada pelos moradores de atender as demandas empresariais em detrimento do desenvolvimento local.

Além do transbordamento da bacia de rejeitos da mineradora há denúncias sobre a poluição gerada pela falta de saneamento na Vila Cabanos. A Vila foi criada há anos para abrigar os trabalhadores das Albrás e Alunorte e tem a sua rede esgoto despejada no Murucupi.

Os moradores exigem que parem de poluir as águas do Rio e dos igarapés de Barcarena, a construção de sistemas de tratamento de esgotos e alternativas eficientes de uso dos rejeitos produzidos pelas empresas de modo a não afetarem o meio ambiente. Eles também reivindicam o respeito e reconhecimento por uma luta que busca garantir o cuidado com a natureza e o bem viver. “A empresa está denegrindo nossa luta, dizem que só queremos indenização milionária. E não é isso. Estamos lutando pelo nosso direito à vida e para garantir que nossos filhos vão viver melhor do que vivemos hoje. Não lutamos para prejudicar alguém que vem trabalhar aqui. Só queremos ter o nosso direito de viver com a natureza que Deus nos deu”.

A falta de responsabilidade das empresas e a omissão dos governos municipal, estadual e federal aumentam os transtornos e indignação dos moradores de Barcarena, principalmente aqueles que acompanharam o processo de instalação do distrito industrial. “Se tudo isso aconteceu foi uma omissão do estado na não fiscalização do projeto. Se há fiscalização não tem porque acontecer esses desastres, esses crimes ambientais”, reforça Mário Santos.

Os quilombolas de Gibrié denunciam a falta de atuação dos governos por meio da prefeitura de Barcarena, da Secretaria de Meio Ambiente, da Companhia de Desenvolvimento de Barcarena e de todos os órgãos que têm a função de fiscalizar projetos de mineração na região.

“É injusto que eles fiquem com os lucros e nós fiquemos com o prejuízo”

 Gibrié de São Lourenço é umas das comunidades mais distantes da área industrial de Barcarena. É somente uma dentre as dezenas de comunidades que são cortadas pelo Murucupi ou por igarapés, afetadas pela exploração mineral. Mas os moradores sentem-se isolados em suas reivindicações e ignorados pelo poder público e pelas empresas.

Os mais velhos como José Augusto insistem em pescar, tanto por tradição, quanto por necessidade, mas consomem o peixe e a água dos poços com medo de adoecerem. “O Rio Murucupi é um rio poluído, todos os dejetos da Vila dos Cabanos, lixo hospitalar de dois hospitais de Barcarena, tanto da UPA quanto do hospital São José, todos são jogados no leito do Rio Murucupi. Mas tem época do mês que a gente tem o arroz, tem o feijão, mas não tem a proteína, pra onde que eu vou? Eu pego a minha rede, a minha tarrafa e vou pro Rio Murucupi. Eu ainda consigo tirar alguma coisa de lá, eu não sei se me faz bem ou não, mas eu sei que a minha fome eu ainda consigo matar”.

José Augusto e o Rio Murucupi na altura da Comunidade quilombola Gibrié de São Lourenço (Foto: Rony Santos)

Outros moradores até a água estão comprando, fato que contradiz os discursos da Hydro Alunorte e da prefeitura de Barcarena após os últimos transbordamentos das bacias de rejeitos. Segundo os moradores, as empresas e o governo nunca realizaram doações de água mineral, acompanhamento médico e orientações sobre os índices de poluição do Rio Murucupi. “Os estudos são feitos, mas a gente não sabe o que acontece, o que vai ser do nosso futuro”, afirma Mário Santos.

A população de Gibrié de São Lourenço é um caso evidente de resistência ribeirinha, são quilombolas que lutam para manter suas relações mais íntimas com o Rio Murucupi. Mas as novas gerações, como as de Rony e de Ágata, já demonstram o rompimento forçado do vínculo que foi construído entre ribeirinhos e o Rio. “Muito se fala do modo de vida tradicional, mas eu não cheguei a viver essa época, mas eu sou da época do banho de igarapé. Que hoje é muito prejudicado por conta de todo esse contexto. Algumas crianças ainda tomam banho nos igarapés, eu já procuro não fazer por conta de tudo isso, a gente sabe que o rio tá poluído. O rio está vivo, mas está respirando por aparelhos”.

Por Larissa Santos 

Parceria Grupo Mídias Alternativas na Amazônia (UFPA); Fase Amazônia

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