Despertar para sonhar. Uma outra realidade é possível

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
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Flavia Nascimento moradora de Piquiá de Baixo. Foto Mikaell Carvalho

Perfil-Entrevista

Antônia Flávia da Silva Nascimento

Enquanto tiver força, lutarei por eles.”

Despertar para sonhar. Uma outra realidade é possível

Durante a visita no Piquiá de Baixo fomos convidados por Flávia para conhecer a casa de sua família, lugar em que ela cresceu e vive nas proximidades até hoje. A mãe dela, dona Maria José, no auge de seus 63 anos nos recebeu com um sorriso contagiante, feliz com a nossa visita e com uma disposição que transbordava espalhou cadeiras pelo terreiro.

Limpa daqui, limpa dali, aos poucos os assentos que estavam cheios de pó de ferro formaram uma bonita roda para o momento de escuta. E foi ali mesmo, próximo de um bar, onde alguns rapazes cortavam cabelo e ao barulho dos carros que passavam pela BR 222, que Flávia começou nos contar a sua história. Além de nós, seus pais e filhos, alguns moradores prestavam atenção na conversa.

Antônia Flávia é uma jovem de 23 anos, moradora da comunidade de Piquiá de Baixo, no município de Açailândia (MA), filha de dona Maria José da Silva e seu Adelson Ferreira Nascimento. É mãe de dois filhos: Aylla Sophia de 4 anos e Miguel Oliveira de 1 ano. Divide o tempo entre as responsabilidades domésticas, em ser tia-mãe de duas sobrinhas e pesquisadora no projeto “Vigilantes popular em saúde” que faz acompanhamento da poluição do ar na comunidade, no qual recentemente ganhou prêmio da FAPEMA. E não para por aí, ela ainda exerce a função de 2° secretaria da Associação dos Moradores de Piquiá.

Durante a prosa com Flávia descobrimos de onde se renova a força da jovem, que esbanja alegria de ser negra e moradora de Piquiá de Baixo. Aprendemos ao ouvi-la que despertar é caminhar com as próprias pernas, mas de mãos dadas com a comunidade. Sonhar com outra realidade possível é o que fortalece a luta.

Mas, quem é Flávia para Flávia? Antes de nos responder ela nos presenteia com um singelo sorriso e revela.

A Flávia? Então, tem que falar as qualidades também, né?!? A Flávia é uma menina assim… Eu me considerava muito chata, muito ignorante entre a família e amigos. Mas depois que eu me adequei a esses projetos, a igreja e a associação, a tudo que sou encaixada hoje, eu já aprendi muita coisa. Aprendi a conviver entre as pessoas e a saber o que falar. Eu vivo 23 anos aqui. Essa é minha idade. Devido ao projeto eu só vim saber o que era o reassentamento depois que entrei na Associação.

Quando foi o despertar? Quando foi o momento que você passou acreditar que essa luta também é sua?

Eu já participava da igreja, já fui catequista por dois anos. Eu conhecia os Combonianos. Mas, foi através de convites. Na Associação de Moradores eu comecei esse ano, a nova diretoria entrou no dia 18 de fevereiro de 2017. No projeto [jovens vigilantes] também foi através do Padre Dário e da Jordania. Foi através de um convite deles que a gente aceitou, teve reuniões e a gente ficou no projeto porque a gente sabia que era de interesse nosso. Que era por luta nossa. Também não só por mim, eu luto pela minha família. Porque eu sei, que eu quero um futuro melhor não pra mim, mas para os meus filhos. Não só pelos meus filhos, mas por toda essa geração que tá vindo aí, né?!

E a gente sabendo que o nosso bairro é poluído, que temos uma luta muito grande, despertou por conta disso, até porque como eu falei que eu não sabia desse processo de reassentamento, pra mim era um tanto faz, mas aí depois do convite para entrar na diretoria, do convite para participar do projeto e de algumas formações que a gente é convidado pela Justiça nos Trilhos, a gente despertou ainda mais o nosso olhar para esse bairro.

Depois que você entrou na militância de lutar pelo reassentamento, qual foi o momento mais marcante e que você percebeu que realmente tem que lutar pela melhoria da comunidade?

Foi através das primeiras lutas que a gente participou. Porque a gente enfrentou chuva, enfrentou sol, enfrentou polícia, enfrentou os poderosos e mesmo assim a gente estava lá. Então, foi isso que incentivou a gente ir mais pra frente, foi saber que não era aquela luta que ia nos deixar cair e sim nos fortalecer ainda mais.

Flávia e seu filho Miguel a beira do rio em Piquiá de Baixo. Foto/Ninguém

Qual a diferença da Flávia antes de entrar no movimento e da Flávia depois do movimento?

Eu digo que foi ser mãe. Pra mim foi isso. Antes eu não pensava em nada, eu acho que só em escola mesmo e festa, porque eu não ficava em casa. Era muito difícil eu ficar em casa. Amanhecia os dias e eu já estava nas casas. Agora não. Eu tenho que cuidar, porque assim, eu vivo com a minha mãe, mas eu também tenho a minha casa pra eu cuidar, tenho os meus filhos.

A diferença das Flávias. É que antes eu era apenas um adolescente e hoje eu sou uma mãe, dona de casa que tem os meus pais para cuidar, que não estão mais tão novos. Meu pai tem 80 anos e minha mãe tem 63. Então, eu tenho que cuidar deles e tenho que cuidar das minhas sobrinhas, porque minha irmã também trabalha. Então, no dia a dia quem é mãe das minhas sobrinhas sou eu.

Como foi processo de construção do projeto “Vigilante Popular em Saúde”? Como foram as etapas?

Primeiro chegaram com o convite para uma reunião para gente saber como seria, a gente foi participando para saber como seria e foi buscando conhecimento, foi buscando outras coisas fora daqui do bairro também, aquilo que era falado internacionalmente, a gente buscou tudo, tudo um pouco fora daqui e também aqui dentro, a gente buscou algumas pessoas que eram mais velhas como seu Joaquim e seu Edvar.

Vocês viajaram para alguma formação em outros locais?

Eu não viajei. Mas o meu grupo foi. Menos eu porque eu estava grávida. Mas o nosso primeiro intercâmbio foi aqui no Piquiá de Baixo, o pessoal de Santa Cruz-RJ veio e a gente fez o intercâmbio. Aí depois do intercâmbio aqui, começamos com as medições, aí o pessoal foi pra lá em janeiro e fevereiro para levar as três primeiras medições. Depois voltaram em setembro de 2017 para buscar o relatório e deixar os outros meses de medições, mas eu não fui.

Eu já viajei, mas representando a Associação em outras formações. Mas também representando o grupo. Porque quando a gente se apresenta fala que faz parte desse grupo, o povo fica curioso para saber o que é ser “Vigilante Popular em Saúde” porque a gente acaba se envolvendo.

A partir da tua experiência como você vê o comportamento dos jovens da comunidade?

Os jovens têm que participar mais. E quando participar das formações eu acho que eles têm que chegar em casa e falar para os pais sobre o que eles viveram de uma forma construtiva. Porque antes eu não brigava porque não sabia. Hoje eu brigo porque eu sei. A gente só conquista alguma coisa quando a gente tem fé e quando a gente vai à luta. Então é assim, as pessoas têm que saber que nada na vida é fácil, a gente tem que ir com força e com fé. Que a gente um dia, a gente consegue. E assim é a nossa luta, dessas 312 famílias que resolveram optar pelo reassentamento. Eu tenho certeza que eles têm fé e que um dia nós vamos conseguir.

O que é mais difícil nessa luta?

Antes eu achava que era alguns moradores. Depois que a gente foi para manifestação na frente da Geap (Caixa Econômica Federal) em São Luís, a gente resolveu levar os moradores que mais falavam que não tinham fé. Aí quando eles chegaram que eles viram como era a luta e descobriram que era aquele “povo lá” que não queria assinar o projeto executivo, eles disseram: “hoje eu acredito, hoje a gente vai lutar, o que me chamar agora eu estou junto”. Então assim, hoje eu não acho que era aqueles moradores que não acreditavam, hoje eu sei que difícil são aquelas pessoas que estão lá no poder e que acham que podem tudo, fazer o que bem quiser, que as pessoas podem morrer aqui mais e mais, que podem pegar mais pó na cara, que as crianças podem adoecer e eles não estão nem aí, porque eles não estão sentindo.

Flavia e seus dois filhos Ayla e Miguel. Foto/Genilson Guajajara

Para finalizar nosso momento de prosa, perguntamos qual seria uma mensagem de Flávia para o Miguel e Aylla daqui há 10 anos. Emocionada ela nos diz:
Enquanto tiver força lutarei por eles. Porque o que minha família passa, assim… nós aqui não sofremos muito. Quem sofre mais é aquele povo lá de baixo. Como vocês podem ver aqui é mais limpo. Mas a gente sofre por eles, porque já teve muitas pessoas que já perderam gente que gostavam muito. Então, eu penso muito em meus filhos, quando a gente leva nossos filhos para fazer uma consulta, e ver que eles estão cansados, a gente logo pensa: “Meu Deus tomara que não seja nada demais, tomara que não dê uma pneumonia, porque se for, a gente não pode ficar com eles aqui, tem que tirar. Por isso, que a gente tem que lutar para sair o mais rápido possível. A gente faz o que for preciso. A gente não tem medo de lutar.

 

Em meio as lágrimas de emoção e o sorriso da partilha, Flávia recordou de como foi especial o espetáculo da quadrilha do grupo Matutos do Rei sobre o Piquiá de Baixo em 2016.

Até o dia do lançamento eu não sabia. Nem o padre Dário sabia. Ele havia só lançado uma proposta para o Xico Cruz. Aí, no momento mesmo do lançamento, eu ia ao banheiro e meu amigo que sabia de tudo falou pra mim: “Flávia não vai que a festa é tua”. Aí ele lançou o tema e falou que quem ia representar Piquiá de Baixo seria eu. Eu fiquei muito feliz, mas não pude dançar porque eu engravidei. Mas, a gente continuou muito próximo ao processo de produção. Teve uma celebração na quadra do ensaio em que foram colocados os anéis de tucum, que é um símbolo de força. O Xico teve a ideia de fazer essa celebração e os moradores foram convidados. Foi um espetáculo bonito e crítico. A quadrilha ganhou e foi representar o Maranhão em Recife. Tivemos um espetáculo belíssimo. É um bairro conhecido mundialmente e que dar força para outras pessoas lutarem.

Aqui paramos nossa conversa ou diríamos nossa partilha, momento onde houve uma troca magnífica e onde aprendemos valores que fogem da lógica pensada. Mesmo com o passar das horas, dona Maria José, nos contagiou com toda sua energia e entusiasmo ”ainda não vão crianças, vamos jogar prosa fora”.

Repórteres:
Antonio Guajajara
Domingos de Almeida
Joércio Pires “Leleco”
Lanna Luiza Silva

Foto:
Ninguém
Genilson Guajajara
Mikaell Carvalho

Essa foi uma produção realizada pelo Coletivo Pinga Pinga em parceria com a Justiça nos Trilhos.

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