Mulheres

Mulheres denunciam impactos provocados por grandes projetos

quarta-feira, 20 de setembro de 2017
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Carta aberta das mulheres reunidas no encontro “Poesia, memória e resistência: olhares sobre os impactos diferenciados dos grandes projetos sobre a vida das mulheres”

Nós, mulheres quilombolas, indígenas, pescadoras, marisqueiras, agricultoras, de periferias urbanas, atingidas direta ou indiretamente por grandes empreendimentos, e assessoras de entidades e movimentos que tratam sobre a temática estivemos reunidas entre os dias 31 de agosto e 02 de setembro, em Imperatriz (MA), no primeiro encontro “Poesia, memória e resistência: olhares sobre os impactos diferenciados dos grandes projetos sobre a vida das mulheres”.

Vimos, por meio desta carta, denunciar os impactos e violências sofridos pelas mulheres na implantação de grandes projetos como hidrelétricas, mineração, siderurgia, parques eólicos, agronegócio, linhas de transmissão de energia, rodovias e ferrovias. Esses empreendimentos têm provocado intensos conflitos socioambientais nos territórios impedindo comunidades tradicionais de viver e existir em seus territórios de vida. São inúmeras violações de direitos e mecanismos de produção de injustiças executados por empresas com aliança e cumplicidade do Estado, que utilizam instrumentos políticos, midiáticos e jurídicos para a legitimação do massacre de nossos povos e comunidades.

Às mulheres, os grandes empreendimentos causam impactos e violações específicas tendo em vista a estrutura desigual de gênero, raça e classe legitimada e aprofundada em nome do “progresso” e “crescimento econômico”, ao mesmo tempo, concentrador de riqueza e de poder. A contaminação da água, a usurpação da terra e a destruição das florestas impactam diretamente a vida cotidiana das mulheres afetando o suprimento das necessidades diretas de reprodução da vida doméstica e comunitária.

Sem espaços para produzir, estas ficam também sem possibilidade de desenvolver suas atividades e trabalhos cotidianos comprometendo a segurança e soberania alimentar, dimensão na qual as mulheres foram situadas historicamente. Esse cenário acarreta o aumento de doenças num contexto onde já ocorre a precarização e/ou ausência do acesso à saúde. As transformações nos territórios advindas da implementação destes empreendimentos também provocam, explicitamente, o aumento dos riscos de estupros e outras violências sexuais, gravidez indesejada e aumento da violência doméstica. O cenário de destruição ambiental e social é fator de sofrimento psíquico e de doenças somatizadas devido à elevação dos níveis de preocupações das mulheres em relação às suas famílias e comunidades, associados à precarização das políticas públicas e ao aumento da dependência monetária, num cenário onde os poucos empregos gerados são precarizados e masculinizados. Os impactos à vida das mulheres são invisibilizados perante o Estado, perante as empresas e dentro dos próprios movimentos sociais de luta e de enfrentamento ao projetos desenvolvimentistas. Ressaltamos que uma luta radical para enfrentamento das injustiças sócias e ambientais sobre os territórios historicamente impactados por práticas de injustiça e racismo ambiental, implica necessariamente em reconhecer e buscar superar as estruturas racistas, etnocêntricas e patriarcais que são, por si, fatores que geram violências que atingem as comunidades, os corpos e a nossa vida cotidiana.

Mas nós, mulheres, estamos presentes nas lutas! Intensamente presentes no enfrentamento à devastação desencadeada pelos grandes empreendimentos e na luta pelos direitos a terra, a água e ao território, a uma vida tranquila, sem violência. Estamos conscientes de que o racismo e o patriarcado presentes nesses projetos e na sociedade são fatores que recaem duramente sobre as nossas vidas provocando diferentes sofrimentos e perdas. Temos a consciência de que as práticas cotidianas, concepções de mundo e modos de vida desenvolvidos nos territórios têm forte influência da atuação das mulheres, de suas percepções e valores na construção de questionamentos e argumentos que desqualificam o modo de produção e consumo do capitalismo como modelo de garantia da existência da humanidade no planeta. Dizemos NÃO à PEC 215, ao Marco temporal, às Reformas trabalhista e previdenciária e a todas as tentativas de retrocessos de direitos sociais e ambientais impostos pelo atual contexto político de golpe, caracterizado pela aliança entre um Governo ilegítimo e os interesses das grandes corporações, empresários e políticos corruptos.

Nesse espírito convocamos todas as mulheres e todos os companheiros dos movimentos sociais a seguirmos em luta contra a desumanização produzida pelo capitalismo, machismo, misoginia, racismo e o etnocentrismo e que ameaçam a existência da humanidade. Negras, indígenas, periféricas dos centros urbanos, quilombolas e todas que compomos as comunidades tradicionais no campo e na cidade, nas organizações e movimentos sociais, estamos firmes, atentas e dispostas a colocar toda a nossa energia ancestral, intelectual, política e econômica em favor da vida e contra todos os crimes que vêm sendo cometidos por Estado e empresas contra as nossas gentes! Estamos atentas! Todas as formas de silenciamento serão denunciadas e duramente combatidas. Não conseguirão nos calar. Basta de silenciamento! Seguiremos em LUTA!

Assinam essa carta

JnT – Justiça nos Trilhos (Maranhão)

PACS – Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Rio de Janeiro)

CIMI GOTO – Comissão Indigenista Missionária (Goiás – Tocantins)

CPT AT – Comissão Pastoral da Terra (Araguaia-Tocantins)

FASE PA – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Pará)

INESC – Instituto de estudo socioeconômicos (Distrito Federal)

CPT Marabá – Comissão Pastoral da Terra (Pará)

CIMI N1 – Comissão Indigenista Missionária (Norte 1)

CPT PI – Comissão Pastoral da Terra (Piaui)

CPI SP – Comissão Pro Índio (São Paulo)

INSTITUTO TERRAMAR – Instituto Terramar de Pesquisa a Pesca Artesanal (Ceará)

OPAN – Operação Amazônica Nativa (Mato Grosso)

MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

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