Piquiá de Baixo

Mulheres de 7 estados brasileiros realizam intercâmbio no Maranhão

quarta-feira, 6 de setembro de 2017
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Quilombolas, indígenas, camponesas e urbanas refletem sobre os impactos dos grandes projetos

Uma ciranda de 60 mulheres, debaixo de sol, poeira e pó de ferro… Em meio ao canto coletivo puxado por quilombolas, indígenas, mulheres do campo e da cidade, o barulho dos caminhões que passam pela BR-222. Foi assim, em Piquiá de Baixo, distrito industrial de Açailândia, no Maranhão, que no último sábado (2) se encontraram mulheres de sete estados brasileiros, atingidas por grandes projetos de “desenvolvimento”.

Mulheres visitam a comunidade de Piquiá de Baixo.

O intercâmbio reuniu mulheres que participavam do I Encontro de Mulheres Impactadas por Grandes Empreendimentos, ocorrido na cidade de Imperatriz/MA, de 31 de agosto a 2 de setembro. Com a temática “Poesia, memória e resistência: olhares sobre os impactos diferenciados dos grandes projetos sobre a vida das mulheres”, elas debateram sobre as problemáticas decorrentes de atividades dos setores da mineração, siderurgia, barragens, produção de energia elétrica, monocultura, dentre outras.

Como encerramento do encontro, o intercâmbio foi realizado em Piquiá de Baixo, conhecido internacionalmente como um caso emblemático do ciclo minero-siderúrgico da Amazônia brasileira. De acordo com Ana Paula dos Santos, advogada da rede Justiça nos Trilhos, durante a década de 1980 se instalaram na região, cinco grandes siderúrgicas, em um contexto que já se identificava muitos impactos resultantes da construção da Estrada de Ferro Carajás (EFC). Piquiá de Baixo, o bairro mais antigo do município de Açailândia, além de ter a presença das cinco siderúrgicas e da EFC, de concessão da mineradora Vale S.A., conta com unidades de aciaria e produção de cimento.

“Quando essas cinco siderúrgicas se instalaram aqui, as pessoas já estavam aqui e se viram impactadas. Como sempre, um dos discursos divulgados com a chegada dessas empresas é o discurso da geração de empregos, mas é muito difícil que as pessoas daqui sejam contratadas, e quando contratadas são em serviços mais arriscados, mal remunerados e para poucas pessoas”. Destaca a advogada ao questionar sobre o falso desenvolvimento que a cadeia da mineração gera em todo o país.

Essa realidade foi apresentada para as mulheres que participaram do intercâmbio, motivo de indignação e surpresa para muitas. Mas, como conta Joana Emmerick, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), organização que acompanha comunidades impactadas por grandes empreendimentos no Rio de Janeiro e que já realizou outros intercâmbios envolvendo a população de Piquiá de Baixo, esses encontros fortalecem as lutas locais e ampliam as formas de resistências. “O que a gente percebe é que nos contextos de lutas contra essas violações, nos grupos atingidos nos seus bairros e comunidades, muitas vezes as pessoas se sentem isoladas e diante de uma assimetria de poder e de forças muito grandes que podem inclusive desanimar o próprio processo de enfrentamento”.

Moradora de Piquiá de Baixo relata como é conviver com a poluição.

Para Joana essas empresas chegam aos territórios com um arsenal de convencimento e repressão política, o que afeta o processo de mobilização e organização local das populações. “Para muitas pessoas, às vezes, é o primeiro momento de contato com a luta organizada, com a militância, porque as pessoas se envolvem nesse processo de enfrentamento não por escolha, não por opção, mas por necessidade”, reforça.

O PACS acompanha moradores de Santa Cruz, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, impactado pelas ações da siderúrgica ThyssenKrupp C.S.A. Com as ações de intercâmbios, as famílias de Santa Cruz e de Piquiá de Baixo compartilham experiências e se fortalecem nos processos de resistências há um tempo. Esse trabalho mostra que existem diversos territórios com problemas semelhantes pelo Brasil, e que os impactos dos grandes empreendimentos econômicos instalados no país têm ações globais.

Joana esclarece que o intercâmbio “é uma forma de trocar experiências, de conhecer realidades e conseguir construir conexões sobre esses impactos, sobre a atuação dessas grandes empresas, sobre a atuação do estado, mas também sobre as experiências de resistências e de luta”.

Há cerca de dez anos a população de Piquiá de Baixo luta na justiça para cobrar seus direitos. No bairro, o número de pessoas com câncer é alto, além de doenças respiratórias e índices de acidentes por contato com dejetos deixados pelas siderúrgicas próximos das moradias. A poluição do ar é perceptível, como se percebe também a degradação da vida humana e da natureza.

O intercâmbio realizado no último sábado (2) com diferentes mulheres de várias regiões do país, que também sofrem os impactos dos grandes empreendimentos em suas vidas, mostrou para Flávia, moradora de Piquiá de Baixo, o sentido da luta coletiva. “A importância de tá recebendo pessoas de fora aqui no bairro é que ajuda a fortalecer a luta da gente pra que o processo de reassentamento possa andar mais rápido, que a gente possa ter mais força, juntar as forças das pessoas que vem de fora, que ainda não conhecem a nossa realidade”.

Os moradores de Piquiá de Baixo lutam pelo reassentamento da comunidade. Eles já conquistaram um terreno para a construção de um novo bairro, participaram da construção do projeto urbanístico e habitacional e esperam cuidar da execução do projeto por meio da Associação de Moradores do bairro. “Nós mesmo é que vamos cuidar da construção de nossas casas” afirma Dona Tida, membro da diretoria da Associação.

O intercâmbio foi encerrado com um almoço coletivo realizado na escola de Piquiá de Baixo, em seguida, as 60 mulheres voltaram para seus territórios, situados nos campos e nas cidades, nas terras indígenas e quilombolas de sete estados: Maranhão, Pará, Tocantins, Piauí, Ceará, Roraima e Rio de Janeiro.

 

Por Larissa Santos

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