Repam: comunicar ao mundo o grito da Amazônia

segunda-feira, 12 de junho de 2017
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A história de ocupação e exploração econômica da Amazônia é um exemplo claro de que o modelo de “desenvolvimento” capitalista e predatório só gera injustiças socioambientais. Desmatamento, mineração, queimadas, hidrelétricas, madeireiras, exploração de petróleo e gás, obras de infraestrutura, agronegócio, portos, demandas e concessões de exploração de recursos naturais estão diretamente ligados às violações dos direitos humanos e da natureza nessa região.

Grandes projetos como o programa de exploração mineral de Carajás, iniciado nas décadas de 1970 e 1980, ainda na época da ditadura, concentrou (e continua concentrando) seus “benefícios” nas mãos de uma pequena parcela da população.

Na Encíclica Laudato Sì, papa Francisco aborda a atual crise socioeconômica e a sua  direta relação com a crise ambiental e chama toda a sociedade  à “uma conversão ecológica”. Demonstrando que esse modelo de “desenvolvimento”, vivenciado pelo consumo desenfreado e pela exploração indiscriminada  dos recursos naturais é insustentável.

Comunicadores da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Foto: Repam)

Para refletir sobre a Amazônia como fonte de vida para o mundo a partir da vivência dos povos tradicionais  e da floresta e como abrir espaço na mídia para o viver sustentável, denunciando as violações humanas e socioambientais  foi realizado entre os dias 06 e 10 de junho, o curso de comunicadores da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), na sede das Pontifícias Obras Missionárias (POM), em Brasília.

Os participantes fazem parte dos seis regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que compõe a Amazônia Legal e abarca nove estados brasileiros: Norte 1 (Amazonas e Roraima), Norte 2 (Pará e Amapá), Norte 3 (Tocantins), Noroeste (Sul do Amazonas, Rondônia e Acre), Oeste 2 (Mato Grosso) e Nordeste 5 (Maranhão).

Comunicadores populares e profissionais de diversas áreas da comunicação, ligados, em sua maioria, às dioceses, paróquias, comunidades e organismos da Igreja Católica presentes na região amazônica, que puderam partilhar suas realidades e os diferentes trabalhos desenvolvidos no campo da comunicação na Amazônia brasileira.

O curso contou com a presença de assessores como o procurador da República, Felício Pontes, que tratou sobre o embate entre o modelo predatório e o modelo socioambiental.  O primeiro tem como principais atividades tudo o que está relacionado com madeira, pecuária, mineração, água e monocultura, sendo esses elementos a causa da maioria dos conflitos que hoje se dão na Amazônia.

De acordo com o relatório de 2016, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 79% das mortes registradas por conflitos de terra aconteceram na Amazônia (48 dos 61 assassinatos). Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, outras comunidades tradicionais e moradores das cidades na vasta região amazônica são ameaçados, perseguidos, expulsos de suas terras, assassinados, extintos, violentados nos seus direitos, destituídos de sua dignidade consequência de uma lógica que sobrepõe o lucro ao respeito à vida dos povos amazônicos e o cuidado  da Casa Comum.

A Repam aposta nos povos amazônicos para a defesa e cuidado da Casa Comum por meio de um serviço de interconexão e articulação de ações. No último dia de encontro os comunicadores da Rede firmaram sua responsabilidade para a preservação da região amazônica, por meio de uma carta compromisso.

por Idayane Ferreira

 

 

Leia a carta na íntegra:

O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu. Ele me enviou para/ anunciar a Boa-Nova aos pobres: para proclamar aos cativos a liberdade e aos cegos a recuperação da vista, para pôr os oprimidos em liberdade, para proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).

Nós, comunicadoras e comunicadores da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), participamos do Curso de Comunicação para a Transformação Social, realizado nas Pontifícias Obras Missionárias (POM), em Brasília (DF), de 06 a 10 de junho de 2017. Somos representantes dos regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que compõem a Amazônia Legal: Norte 1 (Amazonas e Roraima), Norte 2 (Pará e Amapá), Norte 3 (Tocantins), Noroeste (Sul do Amazonas, Rondônia e Acre), Oeste 2 (Mato Grosso), Nordeste 5 (Maranhão), Comissão Episcopal para a Amazônia e Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação, refletimos sobre: o apelo à ecologia integral iluminados pela  Laudato Sì; a prática do modelo de desenvolvimento socioambiental como superação do modelo de desenvolvimento predatório; as práticas comunicativas como garantia à cidadania e ao direito à informação; o processo de construção das notícias; a relação da Igreja com a comunicação e a espiritualidade do comunicador.

Participaram conosco entidades parceiras: Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Rede Marista, Rede de Notícias da Amazônia (RNA), Rede Justiça nos Trilhos (JnT), Irmãs Paulinas, Signis Brasil, Instituto Comradio, Instituto Padre Ezequiel Ramin (IPER), pesquisadores de Comunicação e representantes do Comitê Ampliado da REPAM-Brasil. Também partilharam conosco suas experiências na área de comunicação organismos e entidades vinculadas a Igreja que somam ao trabalho da REPAM – Brasil: Caritas Brasil, Associação Nacional de Educação Católica (ANEC), POM e Assessoria de Imprensa da CNBB.

Motivadas e motivados pelas provocações deste curso e novamente iluminadas e iluminados pelos ensinamentos da Laudato Sí, assumimos os seguintes compromissos:

Praticar uma comunicação que apresente uma imagem mais exata e fiel da Amazônia Legal, para si mesma e para as demais regiões do Brasil;

Promover a formação, espiritualidade e articulação de comunicadores comprometidos com a realidade dos povos da Amazônia;

Utilizar os meios de comunicação das prelazias, dioceses, paróquias e organismos da Igreja Católica na Amazônia Legal para veicular ao grande público, não apenas acontecimentos e atividades da vida eclesial, mas, também, notícias dos povos da Amazônia à luz do pensamento cristão;

Escutar, dar visibilidade e voz aos povos indígenas e aos grupos em situação de vulnerabilidade social da Amazônia Legal, para que suas causas sejam conhecidas e debatidas no contexto amazônico, nacional e internacional, garantindo assim, a comunicação como um direito e não apenas como um instrumento;

Difundir a perspectiva do desenvolvimento socioambiental nas diversas realidades da região amazônica;

Estabelecer parcerias com os meios de comunicação populares, comunitários e alternativos, com o intuito de compartilhar conteúdos e produções de interesse da região amazônica;

Buscar o fortalecimento dos meios populares de comunicação para que aconteça o rompimento do silêncio dos povos da floresta, das águas, do campo e da cidade em suas diferentes identidades socioculturais;

Denunciar conflitos, violações de direitos e injustiças sociais e ambientais para favorecer o projeto do Bem-Viver que promove a equidade econômica, o equilíbrio ambiental e o acesso aos bens comuns para todos;

Promover uma cultura de comunicação descolonizadora e em rede marcada pela esperança e a confiança na construção do Reino de Deus, em que prevaleça a justiça, a paz, o amor e o cuidado com a casa comum;

Repassar às nossas Igrejas locais o que aprendemos, refletimos, rezamos e socializamos nesses dias de curso, como marco inicial do nosso compromisso com uma comunicação para a transformação social.

Sob a intercessão de Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia e modelo de comunicadora Trinitária, nos comprometemos a desenvolver uma cultura de comunicação que seja democrática com base em valores humanos, cristãos e em rede valorizando e fortalecendo as lideranças comunitárias e que suscite processos participativos de transformação social com incidência na elaboração de políticas públicas para Amazônia Legal.

Louvado sejais!

Brasília, 10 de junho de 2017.

 

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