Atropelamentos

População sofre com impactos causados pela EFC no MA

terça-feira, 16 de maio de 2017
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Implementado há pouco mais de quatro décadas no Brasil, o projeto “Grande Carajás” prometia o desenvolvimento dos estados do Pará, Tocantins e também do Maranhão. No entanto, no território maranhense o que era para ser sinônimo de progresso acabou virando dor e tristeza em virtude das tragédias que ocorreram entre as várias famílias da região de Alto Alegre do Pindaré, a 219 km de São Luís, local onde a Estrada de Ferro Carajás atravessa.

Como foi o caso da dona de casa Ediana Santos que sofreu ferimentos nas pernas e perdeu dois dedos de uma das mãos após cruzar a estrada. Além disso, o seu filho de apenas um ano e dois meses, também envolvido no acidente, teve um dos seus braços amputado. Ela revela que os dois ficaram presos entre os trilhos embaixo de um comboio com 330 vagões carregados de minério de ferro. “Coloquei a perna na cabeça dele e depois eu fui me arrastando, e me abracei com ele e fiquei até o trem passar”.

A Estrada de Ferro Carajás tem 900 km. É por onde passa o minério de ferro extraído na Amazônia brasileira para o mercado internacional. Em toda a ferrovia existem 10 passarelas e 14 viadutos. Quem precisa cruzar a ferrovia reclama do constante perigo. Pelo menos é o que afirma a também dona de casa Maria Leonildes que diz que por pouco não sofreu um acidente. “A gente vai tentar passar e ele não está freado. Ontem mesmo ele parou um pouco a noite e eu fui passando, e ele passou de uma vez. Eu caí aqui sentada”.

Estrada de Ferro Carajás possui 900 km e é por onde passa minério de ferro extraído na Amazônia brasileira (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Estrada de Ferro Carajás possui 900 km e é por onde passa minério de ferro extraído na Amazônia brasileira (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Estrada de Ferro Carajás possui 900 km e é por onde passa minério de ferro extraído na Amazônia brasileira (Foto: Reprodução/TV Mirante)

 O relatório da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostra que entre janeiro de 2015 e abril deste ano foram registradas 12 mortes por atropelamento na Ferrovia Carajás. O relatório diz ainda que no mesmo local 15 pessoas ficaram feridas.

Dentre os números dos mortos está o caso do pequeno Otávio, de um ano e três meses, filho do trabalhador rural Evangelista Alves da Silva, que saiu engatilhando sem que ninguém visse e foi cruzar a ferrovia que passa a poucos metros da residência dele. Para o trabalhador rural, a dor da perda é sentida até hoje. “Meu filho. Era o único que eu tinha de homenzinho era esse e para mim eu sinto demais”.

A família de Otávio culpa a Companhia Vale, dona da ferrovia, pela morte do bebê. A mãe da criança morta, a trabalhadora rural Leidiane Oliveira Conceição, acrescenta que a empresa não foi prestativa no momento do acidente que vitimou o bebê. “Nem a mortalha para o meu filho eles não deram de jeito nenhum. Eu enterrei ele com a roupa mesmo de casa. Só deram mesmo só o caixão e só isso”, desabafou.

Família de Otávio culpa a Companhia Vale, dona da ferrovia, pela morte do bebê (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Família de Otávio culpa a Companhia Vale, dona da ferrovia, pela morte do bebê (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Entre janeiro e março deste ano a mineradora brasileira celebrou mais um recorde na produção de minério de ferro. A alta de 11, 2% em relação ao mesmo período do ano passado e o equivale a 86 milhões e 200 mil toneladas. A meta da minerado é fechar o ano com 380 milhões de toneladas.

Os números positivos da mineradora não apagam a revolta de quem perdeu um ente querido. A aposentada Maria Marinete de Oliveira não se conforma com a morte prematura do neto Otávio. “A Vale cresce todo dia e o meu neto não vai crescer mais. Não cresce mais”, desabafou.

A violação dos direitos de quem mora próximo da Estrada de Ferro Carajás já foi motivo de uma série de denúncias feitas a organismos internacionais pela ONG Justiça nos Trilhos que atua em defesa das famílias atingidas pela Companhia Vale.

Violação dos direitos de quem mora próximo da Estrada de Ferro Carajás no MA já foi motivo de denúncias (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Violação dos direitos de quem mora próximo da Estrada de Ferro Carajás no MA já foi motivo de denúncias (Foto: Reprodução/TV Mirante)

A pescadora Rose Mendes esteve há dois anos numa plenária da Organização das Nações Unidas (ONU) em Zurique, na Suíça, e na ocasião pontuou que o progresso da vale está trazendo também para as comunidades que vivem próximas dela a destruição das pessoas. “A gente quer que o mundo e, principalmente, os países o qual recebem esse minério é de toda destruição que vem acarretando, que ele vem causando para chegar até lá. Há uma lama de lama mesmo, que o caso de Mariana, e que há também uma lama de sangue porque ela é toda manchada de sangue pela destruição que ela causa”.

Contradizendo os números e também os acidentes em Alto Alegre do Pindaré o gerente de Segurança Operacional da Estrada de Ferro Carajás da Vale, Gustavo Bastos, pontua que a empresa está investindo em ações com o intuito de conscientizar a comunidade sobre a importância dos cuidados para evitar novos acidentes na localidade.

“Estamos construindo 47 novos viadutos para justamente melhorar a condição de acessibilidade dessas comunidades, mas isso por si só não é suficiente e, por isso que a gente também acredita e vem investindo em ações de conscientização da comunidade, deixando claro os cuidados que eles precisam para uma convivência segura com a ferrovia. Reconhecemos que a gente teve esses eventos, mas também reconhecemos que há muita coisa sendo feita nas duas frentes de infraestrutura e, especialmente, na conscientização da comunidade”, explicou Gustavo Bastos.

O assessor jurídico da ONG Justiça nos Trilhos, Danilo Chammas, acredita que as ações de segurança que a equipe responsável pela Estrada de Ferro Carajás afirma investir não estão sendo suficientes e diz que os atropelamentos tem sido constantes no município. “Esses atropelamentos têm sido recorrentes e a tendência caso nada seja feito de maneira bastante rápida é de que esses fatos se multipliquem, de que mais atropelamentos aconteçam. Mais mortes aconteçam, infelizmente, porque é muito difícil uma pessoa sobreviver a esses atropelamentos. Em geral o resultado final é a morte”, finalizou.

Relatório da ANTT diz que entre janeiro de 2015 e abril de 2017 foram registrados 12 mortes na Ferrovia Carajás (Foto: Reprodução/ TV Mirante)

Relatório da ANTT diz que entre janeiro de 2015 e abril de 2017 foram registrados 12 mortes na Ferrovia Carajás (Foto: Reprodução/ TV Mirante)

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