Mutum II- Arari (MA)

Comunidade fica isolada e sem travessia segura na EFC

sexta-feira, 24 de março de 2017
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Com a chegada do inverno a estrada está cortada em dois trechos, além disso, a única saída que dá acesso as escolas e outros serviços públicos é por meio da travessia da ferrovia.

A comunidade de Mutum II, zona rural do município de Arari (MA), tem enfrentando dificuldades para fazer a travessia da Estrada de Ferro Carajás (EFC), de concessão da empresa Vale S.A. O único ponto de acesso da comunidade para a sede do município, onde a maioria das crianças estuda, é cortada pela ferrovia e não há nenhuma sinalização, viaduto, ou mesmo passarela para que os moradores possam se deslocar com segurança. O problema se agrava, pois o trecho que a comunidade utiliza para a travessia fica a poucos metros do pátio de cruzamento, onde frequentemente trens permanecem estacionados, e com a duplicação o fluxo de trens de cargas tem aumentado.

Com 330 vagões e 3,3 quilômetros de extensão, o tem da Vale é um dos maiores trens de carga em operação no mundo, o que reflete no tempo de espera para travessia. Alguns estudantes chegaram a ser surpreendidos com o trem, por não haver visibilidade no local, que fica próximo à uma curva. O incidente, que por pouco não termina em tragédia, resultou em uma manifestação da comunidade no dia 4 de fevereiro deste ano, eles reivindicavam uma passagem segura para a empresa. Mesmo sem interditar a ferrovia, a empresa processou vários moradores que protestavam contra a falta de segurança.

Além do atropelamento dos animais, a comunidade sofre com o isolamento, que dificulta o acesso a serviços essenciais, como a saúde, por exemplo, como explica seu Manoel de Jesus: “Todo mês o médico cubano vinha fazer a visita na comunidade de Flechal, mas com a obra de duplicação o trecho foi interditado e nós ficamos sem atendimento médico, pois não tinha como eles chegarem até a nossa comunidade”, denunciou.

A moradora Maria de Lourdes, conta da dificuldade de travessia no local durante a década de 80, com a inauguração da ferrovia e como está agora com a duplicação. ”Eu tinha dois jumentos, que me ajudava a carregar o coco babaçu e a colheita na roça, mas o trem matou. Já atravessei de bicicleta com um saco de mais de 30 quilos com o de comer para os meus filhos, enfrentando lama, enfrentando ferrovia, até nesse tempo era só uma linha, e agora [sic] é duas , mais difícil ainda”.

Crianças cruzando a ferrovia para ir à escola.

Maria tinha uma criação de porcos, que também foi atropelada pelo trem, porém nunca recebeu qualquer indenização. Ela ainda relata a dificuldades de travessia enfrentadas pelas crianças.   “Hoje o meu neto enfrenta os mesmos problemas para ir a escola, às vezes eles deixam de almoçar pra ir com bastante antecedência para esperar o trem passar e não atrasar para a escola. Há um tempo atrás nós ficamos sabendo que as crianças passavam por debaixo do trem para não se atrasar, quando o trem ficava estacionado”.

Segundo os moradores, a empresa alegou não poder fazer o ponto de passagem no local indicado pela comunidade, por ser próximo ao pátio de cruzamento de trens, e sugeriu um desvio de aproximadamente 6km para que os moradores pudessem fazer a travessia. Em reunião com a empresa, ficou acordado que os moradores doariam parte de suas propriedades para construção de uma estrada, que a comunidade usaria para fazer o desvio. A empresa chegou a fazer o aterramento de alguns trechos da estrada, que resultou em um lamaçal sendo que em dois pontos a estrada foi cortada pela água, por ser uma área próxima à igarapés e pequenas nascentes. Para fazerem o percurso até o centro de Arari, eles têm que atravessar um córrego com água na altura dos joelhos.

Moradores atravessam a estrada que foi cortada pelo curso d’água.

Manoel foi um dos moradores que doou parte se sua propriedade para construção da estrada, em decorrência disso, as cercas foram derrubadas e agora os animais que ele cria para seu sustento tiveram acesso à ferrovia e foram atropelados pelo trem. “Desde quando eu me reconheço como gente, o acesso desta comunidade sempre foi este, inclusive antes da construção da ferrovia. Só agora no fim de dezembro de 2016 a janeiro de 2017 foram 12 gados que foram atropelados pelo trem”`, desabafou.

Vaqueiros em busca do gado, para evitar o atropelamento pelo trem.

Raimundo Costa vive na comunidade desde 1954, um dos moradores mais antigos, conta sobre a transição que foi a chegada da Estrada de Ferro Carajás. “Desde que a empresa chegou, acabou com nossos igarapés, que era o nosso pão de cada dia, nós bebíamos água de lá, hoje no período do verão temos que comprar água para beber. Nós vive sendo escravos há muitos anos, desde quando começou a passar essa estrada em 80”.

Ainda segundo Raimundo, a vida antes da ferrovia era boa, “farta”, os moradores tinham facilidade de conseguir peixe e achar caça e podiam trafegar com segurança, hoje a realidade é outra. “Essa estrada acabou com toda a riqueza que tínhamos nesse povoado hoje nós arriscamos nossas vidas para passar nessa infelicidade(Ferrovia), vai passar um velhinho como eu que estou com 71 anos, não podemos andar sozinho, pois vai que nós tropeça e cai
nos trilhos. Será que a Vale se responsabiliza pela vida de cada um? Nós aqui não tem voz, não existe lei que beneficie o pobre só tem injustiça”, lamenta.

Por Lidiane Ferraz

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