Canaã do Carajás - PA

Mais “chumbo grosso” pode vir por aí!

segunda-feira, 20 de março de 2017
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No quarto trimestre do ano passado a Vale concluiu o perímetro de uma área de pouco mais de 20.000 hectares, que inclui áreas de fazendas por ela compradas, áreas públicas por ela apropriada, em torno de 40 lotes do projeto de assentamento Carajás II, áreas de titulação duvidosa feita pelo Terra Legal, e área  ocupada há mais de dez anos por mais de trinta famílias de posseiros (ver mapa 1).

Esta área é parte dos 81.580,03 hectares que o ICMBIO está propondo para criação do Parque Nacional Campos Ferruginosos de Carajás, que atende ao cumprimento de condicionante determinada pelo IBAMA à mineradora Vale como compensação ambiental para instalação do Projeto Ferro Carajás S11D. A Vale implantou o projeto sem cumprir a condicionante, só no final do ano de 2016, para obter a Licença de Operação é que fez este arranjo. Será que compensa pelo menos as 35 cavernas de alta relevância que serão destruídas pelo projeto?

Área fora da Floresta Nacional destinada para a formação do Parque  (Fonte: INCRA SR27).

O comentário do momento na cidade de Canaã dos Carajás, é que, a Vale recentemente fez mais uma doação (do que não lhe pertence) por uma grata compensação. Doou à prefeitura de Canaã dos Carajás uma área pública de 1.392 hectares, ocupada por pouco mais de cinquenta famílias de trabalhadores(as) sem terra. É tanto que o secretário municipal de indústria e comércio divulgou através de uma emissora de rádio local, que a área será destinada para implantação do distrito industrial. Para industrializar o que? Rejeito? Lama tóxica?

Em compensação o prefeito renovou o seu compromisso de junto com a empresa solicitarem do governo do Estado a liberação da policia para despejarem as famílias da área e de todas aquelas que a empresa se diz proprietária, na abrangência do município. Nos dias 07 e 08 de março o prefeito esteve em Belém. Fazendo o quê?

Nesta quarta-feira (15), o presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Canaã dos Carajás teve uma conversa com um dos oficiais de justiça da Comarca de Canaã dos Carajás, quando na oportunidade foi comunicado pelo oficial de que tem sob sua responsabilidade quatorze liminar de reintegração de posse, a pedido da Vale, para ser cumprida nestes próximos dias. Estas fazem parte de um total de quarenta e duas liminares.

As coordenações dos acampamentos têm como positivo a postura do INCRA que em cumprimento de um acordo feito no início de fevereiro, a partir desta quarta-feira (15) enviou uma equipe de técnicos para a área com a finalidade de realizar um levantamento da real situação das áreas ocupadas pelas famílias que a Vale se diz proprietária.

Mapa 1- Áreas de Canaã de Carajás – PA (Fonte: INCRA)

Através do setor de cartografia já foi feito o levantamento da área ocupada pelo acampamento Planalto Serra Dourada, que a Vale se diz proprietária. São 100 lotes do projeto de Assentamento Carajás II, titulados e não quitados (terra pública), que somam em torno de 5.000 hectares; duas áreas públicas que somadas chega a quase 1.800 hectares; duas áreas tituladas pelo ITERPA não adquiridas pela Vale (ver mapa 1).

O trabalho da equipe do INCRA é fundamental para confirmar o que as famílias acampadas já sabem, de que as áreas que a Vale se diz proprietária, são: áreas públicas, na sua maioria compradas no Projeto de Assentamento Carajás II, e áreas compradas de quem não são os proprietários dos Títulos Definitivos do ITERPA.

É bastante preocupante sobre qual deverá ser o resultado de uma operação policial contra quatrocentas famílias revoltadas que se sentem injustamente ameaçadas, e criminalizadas pela Vale. Todos os dias helicópteros da empresa sobrevoam toda a área em voos rasantes, como se ali estejam prisioneiros de alta periculosidade que precisam ser vigiados. É de que reclamam as famílias.

É um grande absurdo a Vale se valer do seu poder econômico, gerado com a exploração da força de trabalho do povo para massacrar o povo. Não basta a produção destruída das 120 famílias do acampamento Grotão do Mutum? Não basta o tiroteio contra as famílias na fazenda São Luís? Não Basta a agressão física com chutes, socos e coronhadas contra o senhor Jorge, seu filho e o Miudinho? Não basta a humilhação aos oito trabalhadores que tiveram que passar 20 minutos deitados com o rosto para o asfalto? Que querem mais?

Porque a Vale não usa este dinheiro para gerar trabalho e renda para milhares de desempregados(as) e necessitados(as) que ela gerou em Canaã? Para despoluir as águas dos rios Araras, Sossêgo e Parauapebas? Para recompor a produção agrícola que ela destruiu no município de Canaã?

Será que não seria prudente que o prefeito de Canaã na condição de pioneiro valorizasse os pioneiros, como também os novos migrantes, e não se deixe iludir pelos exploradores e a força do capital que se tornam hegemonia no município?

Neste momento de rebaixamento da política, de degradação dos valores de uma sociedade humanizada, solidária e fraterna, de insegurança sobre o que será o próximo dia, lutar em defesa dos direitos e contra injustiças a quem quer que seja, é lutar em defesa da vida.

 

Marabá, 16 de março de 2017.

Raimundo Gomes da Cruz Neto

Sociólogo, Educador Popular do CEPASP

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