Buriticupu-MA

Religiosos denunciam violações socioambientais em Buriticupu

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
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Religiosos de várias partes do Brasil  assinaram uma nota pública denunciando graves violações socioambientais em Buriticupu (MA). A região é palco de constantes conflitos, pois compõe a Reserva Biológica do Gurupi (Rebio), área da Floresta Amazônica no Maranhão e que abriga muitas madeireiras clandestinas. Em 2015, Bispos, sacerdotes e religiosos da Rede Eclesial Panamazônica (REPAM), de Brasil, Colômbia, Peru, entre outros países, já haviam se manifestado sobre o caso.

Padre Cláudio Bombiere e a advogada Caroline Rios entregando a carta para o delegado Sombra.

A carta aberta assinada por várias entidades sociais e religiosas foi entregue ao delegado da Polícia Federal, Júlio Sombra, que investiga os crimes de homicídio e tentativa de homicídio do casal de ambientalistas Raimundo dos Santos e de sua esposa, ambos membros do Conselho da Rebio do Gurupi, ocorridos em 2015.  Raimundo dos Santos  também era presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da comunidade Brejinho Rio das Onças II. Ele vinha sofrendo ameaças constantes por denunciar a extração ilegal de madeira, e foi morto em uma emboscada, onde sua esposa também foi atingida com vários tiros, mas conseguiu sobreviver.

Na carta, bispo, padres e religiosos pedem às autoridades e instituições responsáveis para que: “seja garantido com urgência o direito à terra, ao teto e ao trabalho das famílias de Brejinho Rio das Onças II; seja garantida justiça e reparação integral pelo homicídio de Raimundo dos Santos e a tentativa de homicídio de sua esposa: haja prontas investigações e punição a todos os autores do crime, indenização para vítima sobrevivente e demais familiares de Raimundo (…)” Além disso a carta pede pensão por morte para a viúva e filhos de Raimundo dos Santos e garantia de segurança para todas as famílias da comunidade a qual pertenciam.

Segundo a advogada da rede Justiça nos Trilhos, Caroline Rios, que acompanha o caso, as famílias ainda se encontram em uma situação crítica, pois foram obrigadas a retornar a Buriticupu onde estão em casas de parentes, sem ter uma solução de moradia e trabalho.

Leia a carta na íntegra 

Mais sobre o Caso
Após o assassinato de Raimundo do Santos, cerca de 30 famílias da comunidade Brejinho Rio das Onças II viram-se ameaçadas e fugiram, abandonando o povoado com medo de sofrerem novos ataques. Organizações de defesa dos direitos humanos, como a rede Justiça nos Trilhos, acompanharam as famílias em diversas reuniões com Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para tratar da situação das famílias desalojadas forçosamente, principalmente visando o reassentamento da comunidade em uma área segura.

O Incra ofereceu como solução para as famílias o assentamento em uma localidade chamada Parnarama, distante 588 km do local originário da comunidade. Algumas famílias não aceitaram se deslocar para o local, principalmente pela distância e falta de infraestrutura do assentamento oferecido pelo Incra. Das famílias que aceitaram, todas retornaram após 10 meses no local. Segundo os relatos as principais dificuldades enfrentadas foram: a falta de estrutura do assentamento, a inadaptabilidade entre a forma de plantar conhecida por eles nesse novo local (em decorrência da diferença entre os biomas de Parnarama e da Rebio, respectivamente cerrado/caatinga e amazônico; a inconstância do envio de cestas básicas por parte do Incra (medida que seria hábil para garantir o sustento das famílias até que conseguissem plantar e colher no novo local. Outra grave dificuldade encontrada pelas famílias foi decorrente da falta de demarcação das áreas de uso da terra no assentamento, o que gerou desentendimentos entre o grupo de assentados que já estavam por lá e as novas famílias que chegavam ao local.

De acordo com uma das assentadas, que prefere não se identificar, as famílias estavam passando por grandes dificuldades. “Lá (no assentamento) a gente vive isolado, não tem saúde, não tem aula, não tem nada. Os meninos que já estudam da 5ª série pra frente tem que atravessar o rio de canoa, no inverno o rio é cheio. Muitas vezes não tinha canoa, nós mesmos não tínhamos canoa e o meu filho de 14 anos atravessava nadando pra ir pra escola”.

Uma das produtoras que viveu dez meses no assentamento de Parnarama (MA) com sua família, conta que hoje mora numa casa, com mais 21 pessoas, a maioria crianças. “Um volume de arroz [cerca de 40 kg] não dura uma semana direito, são muitas bocas para comer. Quando eu lembro que no Brejinho eu colocava aquele tambozão cheio de banana, era cachos de banana por dentro das moitas, pato, galinha para comer. Tinha criação de bichos. Menino quase não sentia fome, comia banana, comia batata, comia macaxeira, comia tudo,” lamenta a agricultora.

As famílias agora se encontram em casas de parentes e amigos no município de Buriticupu (MA), em situação provisória e precária, sem saberem como farão para garantir o seu sustento, tendo em vista que não possuem empregos e nem terra onde possam fazer suas plantações. As famílias continuam em tratativas para resolução da situação pelo órgão fundiário, mas até o momento nenhuma medida efetiva foi tomada e seguem lutando pela garantia dos seus direitos.

 

Por Lidiane Ferraz

 

Leia mais:

– Famílias do povoado Brejinho Rio da Onça II reclamam de falta de assistência do Incra

 

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