Rebio Gurupi

Famílias do povoado Brejinho Rio da Onça II reclamam de falta de assistência do Incra

terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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O ano de 2015 não foi nada fácil para as 33 famílias que viviam no povoado Brejinho Rio da Onça II, localizado na Reserva Biológica do Gurupi (Rebio), em Bom Jardim (MA). Após o assassinato do conselheiro da reserva e também trabalhador da terra, Raimundo Santos Rodrigues, em agosto, a comunidade amedrontada fugiu do território, abandonando de um dia para outro o lugar onde viveram por dez anos.

O conselheiro da Rebio Raimundo dos Santos e a sua esposa Maria Chaves (Foto: arquivo)

Mais de um ano depois da morte de Santos, essas famílias continuam numa situação de vulnerabilidade. Segundo relato de ex-moradores do povoado, depois de uma série de acordos com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), 22 das 33 famílias foram enviadas para um assentamento em Parnarama (MA). “Eles foram e a gente ficou tentando ver se encontrava uma terra por Buriticupu (MA) também. Como era um grupo pequeno ficou difícil. A gente foi na Associação [em Bom Jardim], porque a gente queria era ir para o Rio da Onça de novo”, conta uma lavradora. Eles foram impedidos de retornar ao povoado, sob a eminente ameaça de novas mortes e também por se tratar de terras de reserva biológica, que na teoria não deveriam nem ter sido habitadas.

Os que optaram pelo assentamento em Parnarama (MA) também não se encontravam em melhor situação. Habituados com o plantio em terras férteis, não conseguiram se adaptar à terra seca e arenosa própria da caatinga parnaramense. Não tardou para que todos ficassem doentes, principalmente as crianças. De acordo com uma trabalhadora, também falta infraestrutura mínima no local. “Lá a gente vive isolado, não tem saúde, não tem aula, não tem nada. Os meninos que já estudam da 5ª série pra frente tem que atravessar o rio de canoa, no inverno o rio é cheio. Muitas vezes não tinha canoa, nós mesmos não tínhamos canoa e o meu filho de 14 anos atravessava nadando pra ir pra escola”.

Há relatos também de que o envio de cestas básicas pelo Incra ocorria de forma eventual. Além disso, a área de uso das terras, que já eram habitadas por um grupo de assentados, não havia sido demarcada e a presença das famílias de Brejinho no assentamento era deslegitimada pela liderança local. Elas eram constantemente ameaçadas sob o pretexto de que não houvera a homologação de seus cadastros. Por conta das dificuldades, essas famílias se sentiram novamente forçadas a se deslocarem de suas terras e nos últimos meses de 2016 começaram a retornar para o município de Buriticupu (MA), onde têm familiares. Restam no assentamento apenas cinco dessas famílias.

Uma das produtoras que viveu dez meses no assentamento de Parnarama (MA) com sua família, conta que hoje mora numa casa, com mais 21 pessoas, a maioria crianças. “Um volume de arroz [cerca de 40 kg] não dura uma semana direito, são muitas bocas para comer. Quando eu lembro que [no Brejinho] eu colocava aquele tambozão cheio de banana. Era cachos de banana por dentro das moitas, pato comia, galinha comia. Tinha criação de bichos. Menino quase não sentia fome, comia banana, comia batata, comia macaxeira, comia tudo”, diz.

“Tanta banana aqui, a gente vê e lembra do Rio da Onça. Lá eram tantas que às vezes estragavam. Aqui pra gente comer uma banana tem que ter dinheiro, tudo aqui tem que ter dinheiro, se não tiver não come”, comenta uma agricultura que atualmente realiza tratamento contra uma bactéria no estômago, mas não consegue seguir a dieta alimentar por falta de dinheiro para isso. Sua família estava entre as poucas que permaneceram em Buriticupu.

Tanto as famílias que ficaram em casas de familiares como as que foram para o assentamento em Parnarama reclamam que faltou maior assistência por parte do Incra. “A gente queria que eles arrumassem um lugar em que a gente pudesse dizer ‘essa terra é minha’ e pudesse fazer o que a gente quer: plantar as coisas da gente”. Alguns contam que também se sentiram abandonados pelo chefe da Rebio Gurupi, Evane Alves Lisboa, após saírem do Rio da Onça II. “Eles não tem a compreensão de vê as coisas. A gente vai pra reunião com eles, mas pra eles é uma coisa normal. Eles não pensam no que a gente passa, na dor que a gente tá passando, em como a gente vivia antes e como tá vivendo agora”.

As famílias denunciam, ainda, que depois que saíram da Rebio aumentou o desmatamento na reserva, que já era invadida por caçadores e madeireiros e sofria fortes pressões negativas em consequência destas atividades. Raimundo Santos atuava como conselheiro desde 2012, defendendo a floresta e também a comunidade, por meio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bom Jardim, do qual participava. Por sua oposição à ação dos madeireiros na região, ele foi ameaçado de morte e assassinado numa emboscada no dia 25 de agosto de 2015. Na ocasião, sua esposa, que o acompanhava ficou gravemente ferida. “Eles não mataram não foi só um pai de família, não. Eles mataram uma comunidade inteira”, lamenta uma lavradora.

Reserva Biológica do Gurupi

A Rebio Gurupi é uma das unidades de conservação administradas pelo ICMBio (Imagem: site da ICMBio)

Criada em 1988, a Rebio do Gurupi é uma das unidades de conservação administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na região da Amazônia Legal. Seu território abrange os municípios maranhenses de Bom Jardim, Centro Novo do Maranhão e São João do Carú.

O chefe da Rebio Gurupi foi procurado para responder às críticas das famílias. Evane Alves Lisboa explicou que dentro das possibilidades do seu trabalho, que é de gestão ambiental e não de gestão social e nem agrária, sempre procurou dar o máximo de assistência às famílias. Além disso, que entrou em contato com o órgão responsável pela questão fundiária, o Incra e buscou também auxílio junto a rede Justiça nos Trilhos para acompanhar o caso. Sobre a denúncia de que o desmatamento na reserva haveria aumentado após a saída das famílias, ele afirmou que tem feito um trabalho intensivo de gestão ambiental e fiscalização e que não havendo provas técnicas desse crescimento as famílias não teriam como demonstrar que isso está de fato acontecendo.

 

 

 

Idayane Ferreira

 

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