Formação

Oficina comunicação para a transformação social

segunda-feira, 31 de outubro de 2016
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De que maneira deve ser a comunicação que mobiliza, que transforma a realidade em que vivemos? Qual o papel do comunicador nesse processo? Existe uma linguagem universal, de fácil entendimento e que chega ao coração?

Essas foram algumas questões que nortearam a oficina da rede Justiça nos Trilhos “Comunicação para a transformação social”, ministrada pelo comunicador peruano Pedro Sánchez, entre os dia 31 de setembro e 1º de outubro de 2016, em Açailândia (MA). Participaram 14 jovens de comunidades dos estados do Maranhão e do Pará que são impactadas pelo setor de mineração.

 

Como primeiro exercício prático após a apresentação dos participantes, Sánchez pediu que cada um contasse, em até 2 minutos, o objetivo do movimento social ou entidade da qual era representante, de modo que estivesse transmitindo as informações à população por meio de uma rádio comunitária. Para facilitar a análise da linguagem todos os discursos estavam sendo gravados.

“Parece uma atividade simples falar de algo que conhecemos, mas basta estarmos diante de uma situação como essa, de falar em uma rádio sobre objetivos, para a nossa linguagem ficar engessada e repetimos termos abstratos que não falam nada”, explicou Sánchez. Para ilustrar bem isso, o comunicador peruano propôs um jogo em que os jovens, divididos em dois grupos, deveriam substituir palavras como empreendimento, protagonista e desapropriação, encontradas nos discursos, por outras de uso cotidiano.

Para Daniela Souza de Açailândia (MA), o jogo mostrou que muitas vezes a linguagem utilizada acaba por afastar aqueles a quem deveria atingir. “É como se essas pessoas, que são o público alvo das ONGs e dos movimentos sociais, não estivessem dentro das nossas temáticas, quando na verdade, todos somos atingidos pelo nosso sistema. A dinâmica nos fez refletir e percebemos que falamos, fazemos coisas e usamos termos que não chegam ao nosso público alvo”. A estudante paraense Aline de Araújo apontou como aprendizado a necessidade da desconstrução: “Pudemos aprender a desconstruir alguns conceitos. Penso que os movimentos têm que aprender também a desconstruir o que acreditam ser certo e errado”.

Pedro Sánchez explicou que as palavras da cultura oral, geralmente, são concretas, conseguimos visualizar o que está sendo falado (é o que ocorre com a palavra cabeça), ao contrário do que acontece quando utilizamos palavras abstratas (como consciência, por exemplo). Além disso, a utilização da narrativa é um meio de chegar ao coração das pessoas. “Devemos aprender com os comunicadores do dia a dia: os contadores de piadas, de anedotas, de histórias, eles falam com o corpo todo”, ponderou.

Segundo ele, outro segredo para uma comunicação mais efetiva em meios de comunicação ou em palestras é pensar que estamos falando com alguém. “Às vezes nos ajuda muito falar pensando em nossos avós. Mas, para falar para eles, duas coisas ajudam: a primeira é que precisamos está próximos, pois alguns avós não escutam muito bem, esse sentido de proximidade tem muito mais a ver com a disposição para sermos próximos e para nos comunicarmos. A outra coisa é a linguagem: ‘será que a minha vó entenderia o que estou dizendo?’”.

“O comunicador é um parteiro da voz do povo”

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No processo de transformação social, o comunicador é aquele que oferece meios  para que a mudança aconteça, mas sozinho não transforma. “Nós temos que falar por eles, temos que proporcionar instrumentos para que lancem sua voz para o mundo, temos que ir para as comunidades ouvir e aprender e depois comunicar o que aprendemos”, comentou Sánchez. Nesse sentido, a comunicação não é apenas informar, mas transformar a realidade.

Por meio de vídeos, os jovens conheceram iniciativas de transformação da realidade, como a da comunidade peruana de Nauta, onde a atuação da rádio local conseguiu resgatar a língua nativa cocama. Outro exemplo mostrado foi o da orquestra de materiais recicláveis do distrito de Cateura (Assunção, no Paraguai). Ambas as comunidades demonstram que sempre há uma potencialidade a ser descoberta, desenvolvida e a comunicação transformadora se dá de diversas formas.

Neta de pescadores, Dayanne da Silva Santos diz que a oficina a fez reexperimentar o gosto pelas histórias, pelos saberes populares que na vida universitária, muitas vezes, vão dando lugar ao cientificismo. “Eu já tinha participado de outras formações, mas nunca de uma que me tocasse com palavras tão simples, com outra forma de ver, sentir, falar com pessoas, de repassar o que aprendemos, mas respeitando o saber do outro, tendo uma fala mais acolhedora. Fazendo esse processo de militância incluindo e não excluindo”. Muito mais do que se pautar em ações, a comunicação transformadora pede que tenhamos capacidade de sonhar.

Por: Idayane Ferreira

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