Quando a luta se tornou dança: um espetáculo sobre Piquiá de Baixo

sexta-feira, 22 de julho de 2016
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img-20160613-wa0044.jpgEram por volta das 19:30, do dia 12 de junho de 2016, em Açailândia – MA, quando os três ônibus lotados com os mais de 120 componentes da Junina Matutos do Rei, quadrilha estilizada¹ do município, iniciavam o percurso de quase 70km até a cidade de Imperatriz (MA). Acostumada a trabalhar a fantasia, a quadrilha trouxera como tema em 2016 a realidade socioambiental de Piquiá de Baixo, comunidade açailandense que há cerca de 30 anos sofre com a poluição causada pelas siderúrgicas instaladas no seu entorno e que nos últimos oito anos tem lutado por reassentamento.

Em um dos ônibus, pouco antes do início da viagem de cerca de uma hora, as vozes e os credos haviam se juntado em oração, uma prece para dissipar o nervosismo. Ainda assim, todos estavam meio ansiosos. Será que os jurados vão gostar? Será que o público aceitará bem o espetáculo? E se alguém errar? E se…? Nesse momento, um dos componentes se levantou, exortando os demais com convicção: “Gente, se vocês acreditarem no espetáculo, o público vai acreditar! Repitam comigo”. Todos repetiram uma, duas, três, quatro vezes como se fosse um contagiante mantra: “se eu acredito no espetáculo, o público também vai acreditar!”. As luzes se apagaram e o carro se pôs em movimento rumo a grande apresentação no Arraiá da Mira, um dos maiores eventos juninos da região Tocantina.

É provável que grande parte do público daquela noite desconhecesse a história de Piquiá de Baixo, bairro de cerca de 1.500 habitantes, por onde passa os trens da empresa Vale/SA com suas buzinas ensurdecedoras e as siderúrgicas expelem pó e fumaça, cobrindo de minério de ferro as folhas das plantas, os tetos, o interior das casas e os pulmões dos moradores. Mesmo alguns componentes da Junina Matutos do Rei desconheciam ou tinham pouco contato com esses fatos, até o início dos ensaios da quadrilha, em dezembro de 2015, embora o caso de luta da comunidade seja conhecido internacionalmente e defendido por Organizações Não Governamentais (Ong’s) e entidades que atuam em defesa dos direitos humanos.

matutos.jpgIsso torna ainda mais válido o “Verdade e Amor se encontrarão, Justiça e Paz se abraçarão: um espetáculo sobre Piquiá de Baixo”, como uma forma de denunciar, mais uma vez, essa situação. Como pontuou padre Dario Bossi, missionário comboniano da rede Justiça nos Trilhos que acompanha Piquiá. “[A luta dos moradores] é um grito de uma comunidade injustiçada pelo progresso poluído e a desordem gananciosa do capital da mineração e siderurgia”.

Naquela noite de junho, todos da Matutos já estavam cientes, uns pelo processo de maturação do espetáculo, outros por morarem no bairro ou próximo a ele, como é o caso da quadrilheira (brincante) Amandha Vieira, que vive no Piquiá de Cima e conhece bem a realidade de poluição. “É uma responsabilidade muito grande poder representar o meu povo e também um privilégio poder representar o Piquiá de Baixo, e o Piquiá de Cima também, porque somos uma família só”, afirma.

E foi com senso de responsabilidade que a Junina entrou no tablado do Arraiá da Mira, para fechar as apresentações do evento. A leveza dos figurinos se contrapunha a densidão da maquiagem e tudo estava devidamente laureado por uma coroa de colheres. Como explicou Xico Cruz, diretor do espetáculo e marcador da quadrilha, “a coroa representa a fome de Justiça do povo”. Enquanto ator e diretor de teatro, ele já havia produzido peças sobre Piquiá e sobre as violações de direitos causados pelos grandes empreendimentos. Mas agora era uma tarefa diferente: transformar uma luta de quase 10 anos em um espetáculo de dança e condensar tudo em apenas 25 minutos de apresentação.

dsc_0853.jpgA ideia de tornar a luta de Piquiá o tema de 2016 foi do padre Dario Bossi. “Ele fez o pedido e eu disse que sim, até mesmo pelo desafio de se fazer um espetáculo de quadrilha junina falando sobre Piquiá de Baixo”, explica Xico. Habituado com o mundo das artes, ele nunca tinha tido contato direto com uma quadrilha, até receber convite, em 2011, para dirigir voluntariamente a Matutos. É a mente criativa por trás dos espetáculos da Junina. “Eu que penso a temática,o casamento, escrevo a história, escolho o repertório musical, penso a cor, a estética e o direcionamento… aí eu passo pro Tharles [coreógrafo], Alan [cenógrafo] e Alisson [figurinista] e eles dão vida”.

Quando recebeu a proposta de temática, o presidente da quadrilha Johnatan Polary não pensou duas vezes. “Sabíamos que era ousado, desafiador para nós passarmos a mensagem com qualidade, de modo que as pessoas entendam como foi o processo, como ainda está sendo para essa comunidade conseguir reaver seus direitos”. Ele comenta que brincantes e moradores de Piquiá tem em comum a essência da luta. “Nós somos batalhadores, o quadrilheiro vem da periferia, embora hoje, a junina tenha tomado outras dimensões, outras classes sociais, mas ela nasce na periferia”.

Ele é um dos fundadores da Matutos e explica que a quadrilha nasceu em 2007, na Paróquia São Sebastião [ localizada na Vila Ildemar, bairro de Açailândia ]. “Na época, o padre pediu que os jovens criassem um arraiá na igreja, consequentemente uma junina para animar os festejos. Como a quadrilha foi criada basicamente por membros da pastoral da juventude e da renovação carismática, os meninos tiveram a ideia de dar a ela o nome de Matutos do Rei, em referência a Jesus, o Rei no caso”, esclarece.

 

“Somos guerreiros prontos para guerrear”

 

dsc_0904.jpgNaquele domingo de dia dos namorados, os quadrilheiros entraram no tablado com a paixão dos amantes. Cada um levava consigo um anel de tucum, representando a “aliança” com as causas sociais. Os anéis haviam sido entregues por moradores de Piquiá, no mês de maio, durante evento ecumênico no local de ensaio da quadrilha. Na ocasião, os brincantes puderam ouvir os relatos de resistência da comunidade. Para a quadrilheira Monique Daiane de Oliveira esse foi um dia marcante. “Me emocionei bastante em saber a luta de Piquiá de Baixo que eu não conhecia direito, só tinha ouvido falar. Eu tenho muito orgulho de levar essa mensagem através da dança, da nossa arte”, ressalta.

A apresentação no Arraiá da Mira valia uma premiação de R$ 5 mil em dinheiro e a oportunidade de representar o estado no regional Globo Nordeste, que reúne as representantes de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Para as quadrilhas estilizadas da região, o Arraiá é um dos principais eventos competitivos de dança junina. Na edição deste ano, se inscreveram 34 quadrilhas, de 21 municípios maranhenses, entre elas a Matutos do Rei de Açailândia, que buscava o tetracampeonato.

Como não se trata apenas de dança, as quadrilhas devem contar seu enredo temático, por meio das coreografias, encenação teatral, roupas e cenário, sem esquecer do casamento. Sendo avaliadas por alguns critérios como por exemplo animação, figurino, alinhamento e marcador. Para o coreógrafo e também brincante da Matutos, Tharles Pociano o verdadeiro prêmio é o entendimento do público. “A premiação é importante, mas só o fato de a gente entrar num arraiá e as pessoas entenderem o que nós queremos passar, isso pra mim já é uma vitória, porque a gente conseguiu que o povo acordasse para aquilo, para aquela causa”.

dsc_0815.jpgO espetáculo sobre Piquiá de Baixo despertou a empatia no público, agora restava saber a aceitação dos jurados. Finalizada essa que era a última apresentação do evento, alguns quadrilheiros ficaram aguardando ansiosos na arquibancada, outros se dispersaram na multidão, por entre as barracas de comida. Seguiu-se uma espera de mais ou menos uma hora pelo resultado, que foi anunciado já era madrugada do dia 13 de junho.

O apresentador começou anunciando o terceiro lugar, depois o segundo e por fim o nome da quadrilha campeã: Matutos do Rei! Na arquibancada, os componentes se abraçavam, gritavam, alguns choravam, parecia vitória da seleção brasileira em final de Copa do Mundo! Não tardou para que eles começassem a ocupar o centro do tablado e cantassem músicas do espetáculo. “Povo é Força, festa, fonte e fundação: Povo é mais que a proa pra nação ! Sangue expande a ponte, a afirmação: Povo, não é a raça da ração !”

Duas semanas depois, na noite do dia 26 de junho, a Matutos foi a quinta quadrilha a se apresentar no festival Globo Nordeste, que ocorreu em Pernambuco. A representante do Ceará levou a premiação principal do evento, mas a Matutos do Rei conquistou para o Maranhão o título individual de melhor marcador do Nordeste, pela atuação de Xico Cruz. Ele afirmou que a quadrilha estava feliz, mesmo diante das circunstâncias adversas que não permitiam uma disputa mais igualitária entre todas as quadrilhas. “Para exemplificar com números, a Matutos do Rei, gastou mais ou menos R$ 65 mil reais na construção do espetáculo, a Junina Babaçu, a vencedora do Globo Nordeste, gastou aproximadamente R$ 200 mil”, ponderou.

dsc_0885.jpgSobre a parte financeira da quadrilha, o presidente da Matutos, Johnatan Polary afirma que é “um milagre anual e só acontece única e basicamente por conta do amor pela obra, pela causa e também porque a gente não para”. Ao longo do ano são realizados vários eventos com o intuito de arrecadar dinheiro para a produção dos espetáculos. Entre eles o sorteio de uma moto e a venda de doces produzidos pelos próprios integrantes. Segundo Polary, a ajuda que o poder público oferece só cobre mais ou menos 15% dos gastos.

Com o período de apresentações finalizando, a Matutos contabiliza em 2016 cerca de 20 apresentações, o tetracampeonato do Arraiá da Mira, os títulos de melhor quadrilha municipal e regional (ambos conquistados em Açailândia), o quarto lugar da competição estadual e o melhor marcador do Nordeste. Mas, para o quadrilheiro Sebastião Ribeiro da Silva Junior, que está na Junina desde a sua fundação, o principal objetivo da Matutos este ano foi “representar o povo de Piquiá de Baixo, dos vários outros Piquiás de Baixo do Brasil e mostrar que nós temos fome de Justiça”.

¹ recriação da tradicional dança junina, com passos mais coreografados, figurinos exuberantes e cenários

por Idayane Ferreira

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