Um ano de saudade: homenagem a Dirceu Travesso

segunda-feira, 5 de outubro de 2015
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No dia 16 de setembro de 2014 falecia o camarada Dirceu Travesso, o Didi Travesso, apenas quatro meses e dez dias após ter falado bravamente na Etapa Final do Seminário Internacional Carajás 30 Anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia oriental. Somente a participação de Didi no Seminário já seria motivo de comemorar a vitória…


didi-2.jpgNo dia 16 de setembro de 2014 falecia o camarada Dirceu Travesso, o Didi Travesso, apenas quatro meses e dez dias após ter falado bravamente na Etapa Final do Seminário Internacional Carajás 30 Anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia oriental.

Somente a participação de Didi no Seminário já seria motivo de comemorar a vitória: àquela época, ele já se encontrava acometido de um câncer em estágio bastante avançado. Não fosse isso sabido por quem o conhecia, ninguém jamais faria tal afirmação, posto a firmeza de suas palavras, a intensidade com que as proferia, a força com que contagiava a plateia. Força essa advinda da certeza e domínio do tema que estava a tratar.

No caso do Seminário Carajás 30 Anos, o tema era o Mercado Internacional de Minério: a cadeia de exploração do minério de ferro, debate de suma importância para entender os caminhos percorridos pelo ferro que sangra da Amazônia e de seus povos. Didi, da CSP-Conlutas, dividiu a mesa com outras referências do assunto, pessoas como Paulo Adário (Greenpeace), Susanne Schultz (Fundação Rosa Luxemburgo, da Alemanha) e Lúcio Cuenca (Observatório Latinoamericano de Conflitos Ambientales/Olca, do Chile). A mesa redonda, com pessoas que apresentaram dados tão ricos, sob pontos de vista diversos, foi mais um dos ricos momentos do seminário, que contribuiu para formar um painel global da exploração de recursos minerais que geram conflitos nas regiões afetadas. O material pode ser visto na videoteca do site e nos Anais do Seminário, também disponível no site: neste momento, como homenagem, traremos a fala de Didi Travesso, como forma de mostrar que suas palavras não morrem, e servem para alimentar a luta dos povos da Amazônia e de todo o globo, numa jornada internacionalista contra a exploração.

Exploração foi justamente um tema central de sua abordagem

Didi nos alertou para a apropriação dos recursos naturais procedida pela mineração, para alimentar o mercado e gerar lucro. “Estou falando de recursos naturais no sentido da relação humana: a terra e a vida. Nós estamos absolutamente incluídos nesses recursos naturais. Um problema é que os trabalhadores estão sendo tratados da mesma forma que as pelotas de ferro e de cobre para gerar lucro. Nós estamos tratando do grande capital financeiro, não estamos tratando da empresa mineradora. Nós estamos falando do JP Morgan, do Chase Manhattan… nós estamos discutindo o capital financeiro se movimentando e buscando identificar a cada momento e a cada circunstância como sacar mais exploração e mais lucratividade a cada movimento”.

Sua fala nos lembra, por exemplo, que mesmo num momento de baixo preço do minério de ferro no mercado mundial, por exemplo, a Vale segue perseguindo comunidades e seus próprios trabalhadores ameaçados de redução de quadro, ao tempo que a empresa procura aumentar as formas de extrair mais minérios em suas jazidas na Amazônia para, mesmo com preço em baixa, manter seus ganhos em alta.

“O que eu acho importante e positivo, que eu queria começar debatendo, é que, num momento como esse em que estamos vivendo, é difícil, muito difícil, praticamente impossível ter a dimensão e o entendimento daquilo que nós estamos vivendo. Eu volto a falar que nós estamos atravessando a crise econômica mais profunda desde 1929, com consequências seríssimas, com impacto nas relações trabalhistas, nas conquistas sociais, na questão do meio ambiente e a natureza.

Essa crise, contraditoriamente, nos coloca dificuldades brutais, pelo patamar de ataque… mas também, é eu queria fazer um alerta e um chamado… nós precisamos identificar que situações de crise como estamos vivendo são os momentos em que a história oferece oportunidade de grandes mudanças. Alguém aqui já ouviu falar de grandes mudanças nos momentos de estabilidade?”, asseverou. Suas palavras ganham, a cada dia, peso mais determinante, com o aprofundamento dessa crise a qual se referia.

“Nós, que temos outra concepção do homem e da natureza, que não o lucro, mas satisfação e plenitude das possibilidades de vida, queremos debater esse projeto. Eles, não”.

A empresa Vale tem, em sua concepção, um elemento ideológico importantíssimo: ela vende uma imagem de exemplo de gestão no mundo corporativo, que é a de que pode crescer a índices impressionantes – ela duplica seu tamanho a cada dois anos, uma média de 48% ao ano. A indústria automobilística no Brasil lucra, em média, 3% de seu faturamento, enquanto o lucro médio da Vale é de 23, de 24% nos últimos anos. “Uma cosia que você olha e diz: mas esses caras são bons né? Como esses caras são bons em prever e produzir negócios! Mas eu traduziria isso para impressionante capacidade de explorar, reprimir, e de apropriar do que não é deles, a partir da corrupção, da repressão, da utilização do aparto do Estado para sacar tudo o que eles puderem e conseguirem, dos recursos naturais, e aí estou tratando não só do minério de ferro, do cobre, da água, mas também dos trabalhadores”.

Didi demonstrou como a renda do trabalhador da Vale vem caindo, e como cada trabalhador da Vale em Carajás gera, aproximadamente, UM BILHÃO DE DÓLARES/ANO, e recebe, somando tudo, algo em torno de VINTE MIL DÓLARES/ANO, somando todos os seus custos. “Esse valor significa que um trabalhador da Vale na região de Carajás paga o seu salário com quatro horas de trabalho num mês”. “Todo o resto vai ser apropriado pela empresa Vale, que tem por trás o capital internacional, a corrupção, os bancos, os fundos de pensão, a Família Sarney…e aqui um adendo: a corrupção não é algo restrito a nós do terceiro mundo, mas é parte estrutural da relação do Capital com o Estado”, disse, citando o caso do cartel do metrô de São Paulo, com grandes empresas europeias (espanholas, francesas, alemães) por trás, junto com canadenses, com Camargo Correa e Odebrecht”.

Didi ainda demonstrou dados gritantes de acidentes de trabalho da empresa pelo mundo. “Só no Brasil, em 2008, foram 2860 acidentes de trabalho, isso registrado, que é absolutamente inferior à realidade”. “As pessoas estão sendo mutiladas, fisicamente e psicologicamente”, alertou. Hoje, segundo ele, a Vale consome quase uma pessoa por mês no Brasil, já que essa é a média de vidas dos trabalhadores ceifados nas instalações da empresa no país, efetivos e terceirizados.

Em suas reflexões sobre esse tópico, Didi refletiu sobre a morte, “esse problema filosófico que nós não resolvemos até hoje”. Contudo, a lição que nos deixa é de vida. Uma vida inteira de luta.

Ainda sobre o que ele chamou de “os segredos da Vale”, sendo a exploração dos trabalhadores um desses segredos de seu “sucesso”, citou outro: a apropriação do aparato do Estado e as consequências daí advindas. “Quando estou falando de apropriação do aparato do Estado, estou falando da comunidade do Piquiá de Baixo, eu não estou nem tratando de um dos maiores roubos do patrimônio público da História (a venda da Vale do Rio Doce, e o mapeamento dos minérios feito pelo Estado e entregue a terceiros, como no caso Eike Batista, filho do ex-presidente da Vale, Eliezer Batista)”. Citou ainda o exemplo dos royalties pagos nos locais em que explora, cerca de 1 e 2%, e que há países em que esse percentual chega a 10%. “O que eu quero dizer é que esses dois pilares (exploração e apropriação) são o que implicam essa empresa (e os que são por ela impactados)”.

Outro dado interessante lembrado por Didi foi o fato de os chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) terem, durante a crise de 2008, sustentado a indústria automobilística mundial que, enquanto estava afundada na crise nos chamados países desenvolvidos, foi subsidiada nos BRICS, que mantiveram os ganhos dessa indústria (não por acaso intimamente ligada à atividade da mineração). Talvez isso ajude a explicar um pouco a atual situação brasileira… enquanto isso, deixava-se de lado um projeto de transporte urbano coletivo, lembrou.

Depois de tudo o que apresentou, dos dados que trouxe, das discussões e reflexões feitas, Didi repetiu uma exortação que já havia feito no meio de sua fala: “Por isso foi que eu disse: se, no final do dia, você não falou mal da Vale, cem vezes por dia, ajoelhe e fale. Não é só por um problema cristão, mas também por um problema ideológico profundo, porque a tendência ao nacionalismo, num país como nosso, a vender esse discurso, meio xenófobo-nacionalista, de que o Brasil é maior, que nós estamos dando à América Latina oportunidade de crescimento econômico… a tendência a ir para um discurso de capitular a um nacionalismo que a burguesia brasileira junto com os interesses internacionais procuram nos colocar como plataforma de investimento e exploração continental e da África, a tendência à capitulação é grande. Por isso, se não falar mal cem vezes ao dia, ajoelhe. E se começar a ficar em dúvida, põe grão de milho e ajoelhe em cima”.

Obrigado pela lição. DIDI, PRESENTE!

Seminário Internacional Carajás 30 anos

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